Os modelos meteorológicos começam a apresentar sinais cada vez mais consistentes de uma depressão intensa e profunda (baixa pressão) a afetar Portugal a partir do final desta semana. A primeira chuva poderá surgir já na sexta-feira, 6 de novembro, mas os efeitos mais significativos deverão ocorrer durante o fim de semana ou no início da próxima semana, com possibilidade de chuva forte, assim como vento, trovoadas e até alguns fenómenos meteorológicos severos, segundo algumas simulações
Esta depressão poderá mesmo vir a ser nomeada Bruna, caso as autoridades meteorológicas portuguesas ou espanholas considerem que apresenta características e impactos suficientes para justificar a atribuição de um nome (é muito provável). Curiosamente, a situação surge praticamente um ano depois da tempestade Claudia, que afetou Portugal entre 12 e 15 de novembro de 2025, provocando episódios de chuva intensa, vento forte e vários fenómenos meteorológicos extremos
As semelhanças entre as duas situações não se limitam às datas. As cartas meteorológicas mostram configurações atmosféricas relativamente semelhantes, com depressões profundas a oeste da Península Ibérica e uma circulação condicionada por bloqueios anticiclónicos em latitudes mais elevadas. Esta configuração pode favorecer uma deslocação relativamente lenta das depressões, permitindo que os seus efeitos persistam durante vários dias, aumentando os acumulados de precipitação e o risco de situações localmente severas.
Recordamos que a depressão Claudia provocou estragos significativos em Portugal, incluindo um tornado em Albufeira, a 15 de novembro de 2025, com ventos instantâneos estimados pelo IPMA em cerca de 220 km/h. Embora seja demasiado cedo para antecipar fenómenos semelhantes, existem alguns sinais de que esta nova depressão poderá criar um ambiente favorável à ocorrência de instabilidade mais intensa. Isso não significa, naturalmente, que os mesmos fenómenos se venham a repetir
Ainda não sabemos exatamente onde choverá mais, quando ocorrerão os períodos de maior intensidade ou qual será a trajetória final da depressão. Contudo, estamos perante o primeiro cenário de instabilidade mais relevante neste outono, depois de um outubro extraordinariamente seco. Será esta a primeira de várias depressões atlânticas ou apenas uma interrupção temporária do domínio anticiclónico? Para já, os sinais começam finalmente a favorecer uma circulação mais ativa sobre Portugal…

DEPRESSÃO CLAUDIA EM 2025, DEPRESSÃO BRUNA EM 2026?
A comparação das cartas meteorológicas é particularmente interessante! Em novembro de 2025, a depressão Claudia desenvolveu-se no Atlântico, a oeste da Península Ibérica, transportando diversas “bandas” de precipitação para Portugal. Foi um período muito chuvoso! Agora os modelos apresentam uma depressão igualmente cavada, com pressão central próxima dos 980 hPa. Embora existam diferenças na localização e estrutura, ambas as configurações são favoráveis à formação de sistemas frontais ativos
Tanto os modelos GFS e ECMWF, como algumas previsões produzidas por modelos de inteligência artificial, como o AIFS, começam a apresentar cenários de precipitação significativa para o início da próxima semana. Para já, segunda-feira, dia 9, surge atualmente como o dia com maior instabilidade, com possibilidade de passagem de uma frente particularmente ativa. Algumas atualizações dos modelos mostram acumulados próximos ou superiores a 100 l/m² em 24 horas
Outro dos aspetos importantes é a deslocação da depressão para latitudes relativamente baixas. Esta configuração poderá favorecer o transporte de humidade para praticamente todo o território, aumentando a possibilidade de precipitação significativa também nas regiões do Sul. Em alguns locais a intensidade poderá mesmo superar a registada mais a Norte (é bastante comum neste tipo de situações!)

A corrente de jato poderá desempenhar um papel determinante neste episódio. A sua descida em latitude favorece a formação de contrastes térmicos e de zonas de forte instabilidade atmosférica. Alguns cenários mostram valores de energia convectiva disponível de várias centenas de J/kg, suficientes para alimentar o desenvolvimento de trovoadas, que aumentarão o risco de inundações urbanas em locais mais vulneráveis, como Lisboa, por exemplo
Esta mudança não deverá ser acompanhada por uma descida acentuada das temperaturas, até pelo contrário, pelo menos temporariamente. Há modelos que mostram uma nova subida das máximas no sábado e domingo, dias 7 e 8 de novembro, podendo ultrapassar os 25ºC em determinados locais. Isto está em linha com a nossa previsão mensal: novembro poderá ser mais chuvoso, mas continuar com temperaturas acima da média, devido à influência frequente de massas de ar marítimas relativamente quentes e húmidas

NAS ILHAS OS EFEITOS CHEGAM PRIMEIRO…
Nos Açores os primeiros efeitos desta perturbação atlântica deverão sentir-se já entre quarta e quinta-feira, com o aumento da frequência dos aguaceiros e a aproximação de sistemas frontais. As ilhas dos grupos Ocidental e Central deverão ser particularmente afetadas. A instabilidade poderá intensificar-se durante sexta-feira e sábado, com períodos de chuva forte, vento e possibilidade de trovoadas, antes de uma eventual melhoria gradual a partir de domingo
A Madeira também deverá registar um agravamento significativo do estado do tempo durante a segunda metade da semana, com a aproximação do núcleo depressionário, o que poderá favorecer a entrada de ar muito húmido, com períodos de chuva, por vezes forte. Entre sexta e domingo pode haver aguaceiros fortes, com o pico no domingo, dia em que alguns modelos mostram rajadas superiores a 100 km/h nas zonas mais expostas, além de chuva torrencial
Em ambos os arquipélagos a passagem desta perturbação poderá provocar um aumento significativo da agitação marítima, especialmente nas costas mais expostas ao fluxo dominante. O risco de trovoadas também deverá aumentar, podendo ocorrer períodos de precipitação muito intensa em intervalos relativamente curtos. Apesar da instabilidade não esperamos temperaturas particularmente baixas, predominando massas de ar marítimas (amenas)
O principal risco associado a estas situações será a precipitação intensa e persistente, particularmente em regiões montanhosas e locais com maior vulnerabilidade a inundações. Na Madeira, o relevo poderá reforçar significativamente a chuva nas vertentes expostas, enquanto nos Açores a sucessão de sistemas frontais poderá originar acumulados importantes ao longo de vários dias. Será fundamental acompanhar os avisos meteorológicos, sobretudo se as previsões mais intensas começarem a ganhar consistência
A instabilidade poderá, aliás, continuar a marcar parte do mês de novembro nos arquipélagos, tal como referimos nas nossas previsões anteriores. Tudo dependerá da capacidade de recuperação do anticiclone dos Açores. Se este permanecer enfraquecido ou deslocado para latitudes mais elevadas as depressões terão maior facilidade em desenvolver-se e circular próximo dos arquipélagos. Assim, não descartamos novos episódios de chuva e vento ao longo das próximas semanas

SITUAÇÕES COMO TORNADOS PODEM REPETIR-SE, COMO EM 2025?
Começámos este artigo a recordar as semelhanças entre a depressão Claudia e a perturbação prevista para os próximos dias. É, por isso, inevitável abordar uma das questões que poderá surgir: podem ocorrer novamente tornados em Portugal? A resposta é sim, essa possibilidade existe, embora ainda não seja possível determinar se estarão reunidas todas as condições necessárias. Uma depressão intensa, por si só, não significa que venham a ocorrer tornados
A configuração atmosférica prevista apresenta alguns “ingredientes” que merecem atenção: a corrente de jato poderá aproximar-se bastante da Península Ibérica, favorecendo fortes diferenças de velocidade e direção do vento com a altitude. Se esta situação coincidir com instabilidade suficiente nas camadas inferiores da atmosfera, poderá favorecer a organização de trovoadas intensas, incluindo células capazes de produzir rajadas destrutivas, granizo ou, em situações particulares, tornados.
A previsão de tornados continua a ser particularmente difícil, mesmo a poucas horas da sua eventual ocorrência. A Luso Meteo está atualmente a desenvolver um novo algoritmo de avaliação do risco de tornados, que permitirá analisar os ingredientes atmosféricos favoráveis à sua formação. Naturalmente, não será possível antecipar o local exato de ocorrência, mas esperamos conseguir disponibilizar uma avaliação mais detalhada do risco potencial, caso o desenvolvimento esteja concluído a tempo deste episódio

Independentemente da possibilidade de fenómenos severos a chegada de chuva significativa depois de um período prolongado de tempo seco poderá trazer problemas. Em zonas urbanas, a acumulação de folhas, resíduos e outros materiais nas sarjetas pode reduzir a capacidade de drenagem, aumentando o risco de inundações rápidas. A prevenção e a limpeza das infraestruturas de drenagem são particularmente importantes antes da chegada das primeiras chuvas fortes do outono
Para já, o cenário mais provável continua a ser o de uma mudança significativa do estado do tempo a partir do final desta semana, com possibilidade de vários dias de chuva, vento e trovoadas, mas ainda sem confiança suficiente para definir os locais mais afetados ou a gravidade dos impactos. As próximas atualizações dos modelos serão decisivas para perceber se estamos perante uma tempestade de alto impacto ou uma depressão atlântica intensa, mas relativamente habitual para a época
Mais atualizações em breve. Acompanhe a Luso Meteo e mantenha-se atento aos avisos oficiais do IPMA e da Proteção Civil!

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo às 19H de segunda, 2 de novembro de 2026
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