O início do mês de novembro vai trazer alterações do tempo, e uma mudança de padrão, sendo previsíveis efeitos em Portugal, como vento forte de leste (lestada), geadas com a chegada de uma massa de ar frio, e chuva, mais para o final da semana… Mas vamos “passo a passo” analisar realmente como tudo isto vai ocorrer
O anticiclone, anteriormente localizado entre os Açores e o Golfo da Biscaia, desloca-se agora do Reino Unido para o Norte da Europa, podendo atingir pressões superiores a 1040 hPa. Ao mesmo tempo, uma nova depressão desenvolve-se sobre o Mediterrâneo, favorecendo um agravamento significativo do estado do tempo em vários países
Esta depressão deverá provocar chuva forte, trovoadas, vento intenso e possibilidade de inundações, especialmente no Sul de Itália durante esta segunda-feira. Existe também algum risco de fenómenos convectivos severos, incluindo trombas de água e, até, tornados. A instabilidade deverá continuar a afetar partes dos Balcãs durante o dia de terça-feira, com acumulados de precipitação potencialmente elevados e possibilidade de cheias rápidas
Entretanto surge uma depressão retrógrada, que se aproxima gradualmente da Península Ibérica. Estas perturbações são assim designadas porque se deslocam de leste para oeste, contrariando a circulação atmosférica mais habitual nas nossas latitudes. O leste de Espanha poderá voltar a enfrentar chuva por vezes forte, especialmente nas regiões Mediterrânicas. Em princípio não será tão forte como o registado recentemente, mas será necessário acompanhar

Nos Açores o afastamento do anticiclone permite uma maior influência da circulação Atlântica, com a passagem de frentes e períodos de chuva ou aguaceiros, ocasionalmente intensos. As ilhas dos grupos Ocidental e Central deverão ser particularmente afetadas durante os próximos dias e a previsão mais alargada continua a prever precipitação acima da média durante novembro
Em Portugal Continental, na terça-feira, 3 de novembro, podemos ter céu geralmente pouco nublado, mas o mais marcante será a intensificação do vento de leste, especialmente durante a madrugada e manhã. Nas terras altas do Norte e Centro, poderão ocorrer rajadas significativas, enquanto nas regiões mais abrigadas o vento será bastante menos intenso. Apesar de estarmos já em novembro, a persistência de combustíveis secos, associada ao vento, agrava significativamente o risco de incêndio

VENTO FORTE EM PORTUGAL, RISCO DE INCÊNDIO E DEPOIS… GEADAS
Esta terça-feira terá uma noite muito “curiosa”, com contrastes térmicos muito interessantes. Nos vales abrigados do Interior, onde o vento será mais fraco, as temperaturas mínimas poderão descer significativamente. Por outro lado, nos locais expostos ao vento de leste, a mistura do ar mais quente ainda presente, poderá impedir um arrefecimento significativo. Assim, não serão surpreendentes diferenças de 10ºC ou mais (até 15ºC! entre locais relativamente próximos, dependendo da exposição ao vento
O vento deverá ser mais forte durante a manhã, soprando de leste, por vezes forte nas terras altas do Norte e Centro, com velocidade média até 45 km/h e rajadas potencialmente até 70km/h nas terras mais altas. Na quarta-feira, embora ainda com vento, já deve ser mais fraco. Será sobretudo na madrugada de quinta-feira que esperamos as temperaturas mais baixas, com o vento a desaparecer, podendo ocorrer mínimas negativas e geadas relativamente extensas no Interior Norte e Centro

Outro fator preocupante continua a ser a falta de precipitação. Depois de um outubro extremamente seco, muitos terrenos e áreas de vegetação permanecem com elevada disponibilidade para arder, especialmente nos locais onde não ocorreu chuva significativa. O vento de leste, associado a uma humidade relativa mais baixa, poderá agravar o perigo de incêndio rural. Em alguns concelhos poderão mesmo surgir níveis muito elevados ou máximos, algo particularmente invulgar para novembro
Importa recordar que grande parte das ignições tem origem em atividades humanas, seja por negligência, uso inadequado do fogo ou atos intencionais. Por essa razão, apelamos à máxima precaução, evitando queimas, queimadas e outras atividades que possam provocar incêndios. O vento forte poderá favorecer uma propagação rápida das chamas, mesmo nesta altura do ano. Caso observe fumo ou um incêndio, contacte imediatamente o 112, mantendo-se afastado de qualquer situação de perigo
Mas quando regressará a chuva? Os modelos continuam a mostrar uma possível mudança a partir de sexta-feira, com maior probabilidade de precipitação durante o fim de semana e os dias seguintes. Mas novembro poderá reservar (ainda) outra surpresa, a meio do mês… poderíamos dizer que era o Verão de São Martinho, mas este ano é mais o Verão sem fim… Ainda é cedo para garantir, mas a possibilidade existe

ONDE ANDAM OS FURACÕES?
Entrámos no último mês da época oficial de furacões no Atlântico, que termina a 30 de novembro, e já podemos afirmar que 2026 está a ser uma temporada extraordinariamente calma. Até ao início deste mês, tinham-se formado dez tempestades nomeadas, das quais apenas uma conseguiu atingir a categoria de furacão: Isaias, em outubro. A energia ciclónica acumulada encontra-se cerca de 83% abaixo do valor normal para esta altura do ano, confirmando uma atividade tropical muito reduzida.
Este cenário está em linha com a tendência que tínhamos antecipado nas previsões sazonais da Luso Meteo – e, continuando nesta “linha” pode mesmo ser a menos ativo do século XXI… O desenvolvimento de um episódio muito intenso de El Niño tem sido o fator determinante para esta situação, favorecendo um aumento do cisalhamento vertical do vento em várias regiões tropicais do Atlântico. Esse cisalhamento dificulta a organização e intensificação dos ciclones, “cortando” o crescimento vertical necessário para se fortalecerem

É, naturalmente, um alívio quando comparado com várias temporadas recentes, que registaram atividade muito elevada e episódios com consequências devastadoras. Ainda assim a ausência de grandes furacões não significa ausência de risco, pois mesmo tempestades tropicais relativamente “fracas” podem provocar precipitação intensa, inundações e danos significativos, dependendo das regiões afetadas e da sua vulnerabilidade.
Além disso a época ainda não terminou… Ocasionalmente, os modelos continuam a mostrar condições favoráveis ao desenvolvimento de perturbações tropicais ou subtropicais em latitudes mais elevadas, incluindo algumas regiões do Atlântico Nordeste. Embora a probabilidade seja reduzida, não podemos excluir completamente a formação de algum sistema com eventual aproximação aos Açores, Madeira ou, menos provavelmente, Portugal Continental nas próxima semanas
Importa destacar, ainda, a evolução preocupante da temperatura média global. Nos últimos anos, multiplicaram-se os dias com anomalias térmicas muito elevadas, pontualmente próximas de 2ºC acima do período pré-industrial, como está a ocorrer neste momento. A média a 4 anos já supera 1.5ºC. O El Niño atual poderá contribuir para novas temperaturas excecionalmente elevadas em 2027, uma vez que os seus efeitos globais podem surgir com atraso significativo. Afirmamos com segurança que 2027 será o ano mais quente já registado na Terra

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo às 7:20H de 2 de novembro de 2026
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