O calor voltou a surgir repentinamente em Portugal nesta segunda-feira, 26 de outubro, com temperaturas a atingir localmente os 30ºC, especialmente nas regiões mais a Sul, mas também com valores bastante elevados no litoral. Num dia marcado por vento geralmente fraco e períodos prolongados de sol, voltámos a ter condições meteorológicas que mais fazem lembrar o Verão do que o final de outubro. E, pelo que mostram as últimas previsões, esta situação poderá prolongar-se
Nesta terça-feira, dia 27, e conforme explicámos na nossa previsão semanal, as temperaturas deverão descer temporariamente, sobretudo nas regiões Norte e Centro, onde poderá também surgir alguma nebulosidade e, quem sabe, até uns períodos de chuva fraca. Será, contudo, uma alteração temporária, sem indicação de precipitação significativa na maior parte do território
A partir de quarta-feira, dia 28, a temperatura deverá voltar a subir, com um pico de calor bastante invulgar entre 29 e 31 de outubro. E há novidades relativamente às previsões anteriores: os modelos meteorológicos começam a prolongar este episódio de temperaturas elevadas até aos dias 3 a 5 de novembro, pelo que poderemos estar perante cerca de dez dias com condições muito mais quentes do que seria normal, embora com algumas oscilações e diferenças entre regiões, como é natural
Inicialmente não estávamos a contar com uma nova onda de calor, principalmente devido ao arrefecimento previsto para terça-feira. Contudo, as últimas atualizações começam a mostrar um cenário em que algumas localidades poderão efetivamente cumprir os critérios para uma onda de calor. E recordamos que 2026 já é o ano com mais ondas de calor registadas em Portugal Continental, segundo o IPMA, com nove episódios identificados até meados de outubro. Caso este novo episódio se confirme, poderemos estar perante a décima onda de calor do ano

Segundo o critério climatológico utilizado pelo IPMA, uma onda de calor ocorre quando a temperatura máxima fica pelo menos 5ºC acima do valor médio habitual durante seis ou mais dias consecutivos, numa determinada localidade. Isto significa que não precisamos de atingir 35 ou 40ºC para ter uma onda de calor. No final de outubro e início de novembro, valores próximos dos 26 ou 27ºC podem ser suficientes em algumas regiões, precisamente porque as temperaturas normais nesta época do ano já são bastante inferiores
A explicação para esta situação continua a ser o anticiclone, que se tem mantido muito forte durante praticamente todo o mês. A corrente de jato, com uma trajetória predominantemente orientada para Nordeste, tem conduzido as depressões mais ativas para latitudes elevadas, permitindo a persistência de tempo seco em Portugal. Agora, com a aproximação de novembro, surgem sinais de uma circulação mais ondulada. Pode até ser um primeiro passo para uma mudança mais significativa, mas, antes disso, deverá favorecer mais alguns dias de calor, incluindo noites bastante amenas

CALOR INVULGAR EM OUTUBRO E INÍCIO DE NOVEMBRO – O QUE ESPERAR?
Se vive numa região onde as temperaturas não sobem tanto, como alguns pontos do litoral Norte ou do Nordeste Transmontano, é compreensível que olhe para estas previsões e pense que estamos apenas perante mais um período relativamente quente, mas normal. Afinal, máximas de 22 ou 23ºC não parecem propriamente extraordinárias. Contudo, a anomalia deve ser avaliada em relação àquilo que é normal em cada localidade e nesta altura do ano, e não apenas pelo valor absoluto da temperatura
E há algo que temos observado frequentemente nos comentários das nossas redes sociais: muitas pessoas consideram que isto é simplesmente o chamado “Verão de São Martinho”, como se temperaturas próximas dos 30ºC em novembro fossem uma situação perfeitamente normal. Não são! As fichas climatológicas do IPMA mostram que, em várias regiões, as máximas habituais de novembro ficam cerca de 10ºC ou mais abaixo destes valores. Em algumas estações meteorológicas, os extremos históricos para o mês situam-se na ordem dos 25 a 29ºC
E o mais impressionante é que não falamos apenas de um dia isolado. Poderemos ter vários dias consecutivos com temperaturas próximas dos 27 a 30ºC, sobretudo no Centro e Sul, e até em alguns locais do litoral, caso o vento sopre de Leste. As temperaturas mínimas também deverão apresentar valores acima da média, podendo pontualmente aproximar-se ou ultrapassar os 20ºC, especialmente em zonas costeiras. Noites tropicais, mesmo com o céu praticamente limpo é algo incrivelmente raro nesta altura do ano
Se retirássemos a data do calendário, alguns destes dias poderiam perfeitamente parecer de junho, com temperaturas elevadas, muito sol e noites relativamente quentes. A principal diferença será a duração dos dias, agora bastante menor. É este o Outono que passámos a considerar normal? O aquecimento global não significa que todos os dias sejam quentes, mas está a tornar os extremos de calor mais prováveis e a alterar progressivamente aquilo que consideramos normal

PORQUE É QUE ISTO ESTÁ A ACONTECER, E QUANDO VEM A CHUVA?
A razão principal continua a ser relativamente simples: o anticiclone mantém-se forte e a corrente de jato continua demasiado afastada de Portugal. As depressões mais profundas circulam sobre o Atlântico Norte, muitas vezes em direção ao Reino Unido e à Escandinávia, enquanto a Península Ibérica permanece influenciada pelas altas pressões. Sem frentes atlânticas significativas e com uma circulação frequentemente de Leste, o ar permanece seco e relativamente quente, especialmente durante as tardes
Contudo, há sinais interessantes de possíveis alterações nas próximas semanas. O vórtice polar estratosférico poderá enfraquecer de forma bastante significativa no início de novembro, e os modelos começam a mostrar algumas incursões de ar polar sobre o Centro e Leste da Europa, acompanhadas por maior ondulação da corrente de jato…
Algumas depressões tentam também desenvolver-se em latitudes mais baixas, mas, para já, em cerca de 60 a 70% dos cenários que temos acompanhado, acabam por perder influência ou ser bloqueadas pelas altas pressões. Isto poderá até favorecer uma circulação de Leste mais persistente sobre Portugal, prolongando o tempo seco e quente, exatamente o contrário do que precisamos neste momento

Como poderá finalmente mudar esta situação? Um dos cenários que consideramos possíveis durante novembro passa por uma inversão dos ventos na estratosfera, seguida por uma propagação das alterações para as camadas inferiores da atmosfera. Se isso acontecer, e se as depressões que começam a surgir sobre a Europa Central se deslocarem mais para Oeste, poderá ocorrer uma reorganização da circulação Atlântica. A interação dessas perturbações com o ar marítimo poderia favorecer novas ciclogéneses mais próximas de Portugal, deslocar o anticiclone e permitir finalmente a entrada de frentes com chuva e ar mais fresco
Mas estamos ainda longe de ter essa evolução confirmada… As previsões dos conjuntos GEFS, por exemplo, apresentam valores para o vento zonal médio a 60ºN e 10 hPa que variam aproximadamente entre +8 e -6 m/s dentro de dez dias. É uma diferença muito significativa: alguns cenários mantêm ventos de Oeste, embora bastante enfraquecidos, enquanto outros apontam para uma inversão completa da circulação, algo conhecido como major SSW. Contudo, mesmo nesse caso, não existe garantia de uma mudança favorável à chuva em Portugal
E importa também não confundir os efeitos da estratosfera com as alterações normais da circulação atmosférica. O tempo pode mudar sem qualquer quebra do vórtice polar, tal como podemos ter uma perturbação significativa do vórtice sem consequências particularmente relevantes no nosso país. Para já, a possibilidade de uma mudança durante novembro merece acompanhamento, mas seria incorreto anunciar que a chuva está finalmente garantida. As previsões têm vindo a adiar sucessivamente esse cenário e o anticiclone continua a revelar uma persistência impressionante
Assim, a tendência que apresenta maior consistência continua a ser a manutenção de temperaturas acima da média e de tempo predominantemente seco durante os próximos dias. O nosso já habitual “Verono” parece querer prolongar-se até novembro, com valores que poderão aproximar-se dos 30ºC e eventualmente justificar uma nova onda de calor em algumas localidades. Entretanto, a chuva continua sem dar sinais convincentes de regresso generalizado, precisamente quando mais precisamos dela
Fiquemos atentos às próximas atualizações, porque a circulação atmosférica poderá mudar rapidamente nas próximas semanas. Mas não deixemos que a memória nos atraiçoe: não, isto não é simplesmente o Verão de São Martinho. Esse período de tempo estável existe, naturalmente, e sempre existiu, mas não devemos confundir alguns dias amenos de Outono com temperaturas quase de Verão durante uma sequência tão prolongada…

Fábio Félix | Luso Meteo – 26 de outubro de 2026 – 15H
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