O vórtice polar poderá sofrer um enfraquecimento bastante significativo já no início de novembro, segundo as últimas previsões, numa altura em que o tempo em Portugal continua dominado por um anticiclone muito persistente. Os mapas a 10hPa mostram uma situação pouco habitual para esta época do ano, com alterações significativas na circulação sobre o Ártico, que poderão vir a ter consequências no estado do tempo na Europa durante as próximas semanas
Entretanto, o Atlântico Norte continua extremamente ativo, com um verdadeiro corredor de tempestades em direção ao Reino Unido e Norte da Europa, enquanto em Portugal Continental praticamente não chove. Nos Açores, a situação será diferente, com uma frente associada à ex-depressão tropical Josephine a poder provocar chuva forte e vento no domingo à noite e segunda-feira de manhã (e nova depressão a caminho a meio da semana)
Enquanto tudo isto acontece, o anticiclone deverá continuar a favorecer tempo seco e temperaturas bastante acima da média em Portugal Continental, especialmente durante os últimos dias de outubro. Contudo, começam a surgir alguns sinais de que novembro poderá trazer uma circulação diferente. Será finalmente o fim deste Outono tão seco e quente, ou apenas mais uma alteração temporária?
Não diríamos de forma tão definitiva, mas também não menosprezamos o potencial desta alteração. Este ano, contrariamente a muitos outros anos, não estamos particularmente preocupados com uma seca em Portugal, apesar de não chover há muitos meses em alguns locais. O mal “está feito” em relação a outubro, muito seco, e com algum prejuízo para as culturas, mas acreditamos que nos próximos meses a seca não seja tema. Ainda assim dado o que prevíamos para outubro, e o que se verificou, é evidente que previsões a longo prazo não são o mais fiável, ainda

VÓRTICE POLAR COM SINAIS DE ENFRAQUECIMENTO – O QUE PODE ACONTECER?
Os mapas mais recentes mostram uma evolução interessante sobre o Ártico, com o vórtice polar estratosférico a deslocar-se para a região do Canadá e Gronelândia, enquanto se desenvolve uma área de aquecimento sobre o Norte da Ásia. Estamos a falar de uma circulação atmosférica situada a várias dezenas de quilómetros de altitude, que normalmente se torna mais intensa durante o Outono e o Inverno, ajudando a manter o ar muito frio concentrado nas regiões polares
Algumas previsões GEFS e EPS (dos modelos Americano e Europeu) mostram um enfraquecimento muito significativo desta circulação durante os primeiros dias de novembro. Uma das simulações mais recentes aponta mesmo para uma inversão temporária dos ventos em altitude por volta de 6 de novembro, algo bastante invulgar nesta fase tão inicial da estação. Um Major SSW, com reversão total dos ventos, parece ainda algo pouco provável, mas não impossível – o mais provável é “apenas” um enfraquecimento significativo
Mas por que razão algo que se passa a muitos kms de altitude interessa para Portugal? Interessa pois, quando o vórtice polar enfraquece, pode favorecer alterações na corrente de jato, tornando a circulação atmosférica mais ondulada e podendo alterar completamente a posição dos anticiclones e depressões. Em determinadas situações no passado este foi o desbloqueio que permitiu que as perturbações atlânticas conseguissem descer de latitude, aproximando-se mais da Península Ibérica e trazendo condições mais favoráveis à precipitação
Seja como for o efeito não é imediato, e muito menos garantido. Mesmo que ocorra um enfraquecimento muito significativo no início de novembro, como está previsto, as consequências junto à superfície poderão demorar dias a semanas a surgir. E há situações em que praticamente não existem efeitos relevantes em Portugal. Uma alteração do vórtice polar não significa obrigatoriamente mais frio, chuva ou neve, podendo até favorecer bloqueios anticiclónicos sobre algumas regiões Europeias
Ainda assim consideramos este um sinal interessante, especialmente num ano marcado por um El Niño muito intenso, que poderá também influenciar a circulação atmosférica durante o Inverno. A partir da segunda semana de novembro o tempo começa a merecer particular atenção, embora seja demasiado cedo para anunciar uma mudança definitiva. Para já, teremos de verificar se este enfraquecimento se mantém nas próximas previsões e, sobretudo, se consegue influenciar as camadas inferiores da atmosfera

CORREDOR DE TEMPESTADES NO ATLÂNTICO – AÇORES COM CHUVA FORTE
Enquanto acompanhamos a evolução do vórtice polar, o Atlântico Norte continua bastante agitado. Depois da passagem da tempestade Austen pelo Reino Unido e França, agora temos a depressão Boelo que deverá provocar vento muito forte e chuva intensa, sobretudo na Irlanda, Escócia e Norte de Inglaterra durante este fim-de-semana (com pressão mínima de 945mb e rajadas até 160km/h)
A corrente de jato continua muito ativa, favorecendo o desenvolvimento de depressões profundas que se deslocam rapidamente para Nordeste, e esta sequência poderá não terminar com Boelo. A circulação atlântica deverá continuar a favorecer novas perturbações durante o início da próxima semana, incluindo sistemas associados à reorganização da depressão ex-Josephine
Nos Açores, entre domingo e segunda-feira, dias 25 e 26 de outubro, podemos ter um agravamento significativo do estado do tempo, devido à aproximação de uma frente Atlântica relacionada com esta circulação. Esperam-se períodos de chuva, que poderá ser por vezes forte, acompanhada por vento mais intenso e maior agitação marítima. Os grupos Ocidental e Central deverão merecer especial atenção durante a aproximação desta frente, embora todas as Ilhas sintam alguns efeitos
Algumas previsões apontam para rajadas por volta dos 100 km/h, eventualmente superiores nos locais mais expostos, mas ainda existe alguma incerteza quanto à intensidade final, e ainda em relação ao horário de passagem da frente. É importante sobretudo esclarecer que não estamos perante a chegada de Josephine aos Açores enquanto tempestade tropical, como já lemos em alguns meios de comunicação social. O sistema já perdeu essas características e os efeitos são os normais de outono, apenas
A situação será, portanto, bastante diferente daquela que esperamos no Continente. Enquanto os Açores poderão receber chuva significativa e o Reino Unido continua debaixo de uma sequência de tempestades, Portugal Continental deverá permanecer relativamente protegido pelo anticiclone – uma (pequena) grande diferença que demonstra como o posicionamento das altas pressões continua a condicionar o estado do tempo no nosso país, invalidando a previsão inicial de outono tempestuoso no final (sim, é, mas não para nós…)

PORTUGAL CONTINUA SECO E QUENTE – MAS NOVEMBRO PODE TRAZER MUDANÇAS?
Depois de mais uma frente relativamente enfraquecida, que poderá trazer alguma chuva ao Norte no domingo, o anticiclone deverá voltar a reforçar-se sobre a Península Ibérica, favorecendo vários dias de tempo seco e temperaturas acima do normal. Algumas previsões continuam a apontar para máximas próximas dos 27 a 30ºC em alguns locais do Centro e Sul durante os últimos dias de outubro, valores particularmente elevados para uma altura em que já nos aproximamos de novembro
O problema é que esta situação se prolonga praticamente desde o início do Outono meteorológico, a 1 de setembro. Tivemos um setembro extraordinariamente quente e seco, seguido por um outubro marcado por temperaturas anormais e pouca precipitação. Apesar da chuva abundante registada no início do ano, começamos a precisar de uma mudança mais consistente, sobretudo para recuperar a humidade dos solos e evitar que a ausência de precipitação se torne um problema durante os próximos meses
Para já, continuamos sob influência de um padrão geralmente favorável à NAO positiva, com depressões profundas a circular mais a Norte e o anticiclone a impedir a chegada das frentes mais ativas. No entanto, o possível enfraquecimento do vórtice polar poderá aumentar a possibilidade de alterações na durante o mês de novembro, especialmente se favorecer o desenvolvimento de bloqueios em latitudes mais elevadas e permitir a descida das depressões atlânticas para mais perto de Portugal
Quando poderemos sentir essa mudança? Não esperamos que os efeitos do vórtice polar sejam imediatos nos primeiros dias de novembro, mas sim graduais. Será sobretudo entre a segunda semana e a segunda metade do mês que poderemos verificar consequências mais evidentes na circulação Atlântica. Naturalmente, a chuva poderá regressar antes disso por alterações normais da circulação Atlântica, independentemente da evolução da estratosfera
Para já, mantemos a expectativa de que o restante Outono (falta 1 mês e pouco, ou 2 meses, dependendo se considerarmos outono meteorológico ou astronómico) e o Inverno possam apresentar períodos mais favoráveis à precipitação, mas temos de reconhecer que já falhámos na previsão para outubro de forma significativa. O anticiclone tem resistido muito mais do que esperávamos, e as previsões de chuva têm sido sucessivamente adiadas. Mas algum dia a chuva há-de chegar, esperemos que não venha toda de uma vez

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo – 24 de outubro de 2026 – 9H
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