Setembro está a começar de forma excecionalmente quente, com temperaturas muito acima do normal para a época, mas a previsão do tempo no outono indica que o tempo poderá vir a mudar radicalmente ao longo da estação. A grande questão é saber quando essa mudança poderá acontecer e se o outono acabará mesmo por ser tão chuvoso como temos vindo a prever!
No dia 3 de setembro registaram-se valores excecionalmente elevados, com alguns locais a atingir valores recorde para setembro. Alcochete chegou aos impressionantes 44,3 ºC, um valor extraordinário que naturalmente leva muita gente a questionar se o Verão está realmente perto do fim, ou se o final de agosto foi apenas uma temporária intrusão de ar fresco e húmido. Na realidade, é mesmo isso: o final de agosto não assinalou o fim do verão, que ainda tem bastante para dar!
O episódio de chuva e temperaturas mais baixas que marcou a última semana de agosto foi temporário, mas deixou um das importante: bastam duas ou três frentes para produzir grandes quantidades de precipitação pois a atmosfera está atualmente muito carregada de vapor de água. Agosto foi o mais chuvoso dos últimos 22 anos em Portugal. Tivemos uma última semana bastante fresca, mas isso não anulou o calor registado durante o restante mês – pelo que a média indica que foi globalmente quente
Esta tendência para a passagem de frentes sobrecarregadas de humidade, capazes de produzir mais chuva em menos tempo, poderá continuar durante o outono. A transição pode ser gradual, mas não descartamos que possa surgir de forma repentina, depois de alguns dias muito quentes… Continuamos a prever um outono globalmente chuvoso, mas setembro tem mostrado uma tendência para adiar a chegada desse regime chuvoso
As situações potencialmente mais críticas poderão surgir já no inverno, quando a dinâmica atmosférica poderá favorecer depressões mais profundas e sistemas Atlânticos mais vigorosos

OUTONO METEOROLÓGICO OU ASTRONÓMICO? QUAL É A DIFERENÇA?
Quando falamos de previsão meteorológica, o outono começa sempre a 1 de setembro e termina no final de novembro. Este é o chamado outono meteorológico, uma divisão utilizada para facilitar a análise e comparação dos dados climáticos, agrupando setembro, outubro e novembro
Já o outono astronómico começa com o equinócio de setembro, normalmente por volta de 22 ou 23 de setembro, quando o Sol cruza o equador celeste e o dia e a noite apresentam uma duração aproximadamente igual. O outono astronómico termina no solstício de dezembro
Assim, apesar de já estarmos oficialmente no outono do ponto de vista meteorológico, astronomicamente ainda estamos no verão durante grande parte de setembro. E isso ajuda também a explicar por que razão não é estranho continuarmos a ter episódios de calor nesta altura do ano. Obviamente que uma coisa é calor, outra coisa são… quase 45ºC. Isso é anormal, mesmo no pico do Verão, e muito mais anormal em setembro!

TEMPO NO OUTONO – QUANDO PODE SURGIR UMA MUDANÇA?
Apesar deste início muito quente, setembro poderá sofrer alterações importantes ao longo da segunda metade do mês. Tal como referimos na nossa previsão mensal, existe a possibilidade de uma transição para um regime de NAO negativa, ou pelo menos para uma configuração atmosférica mais favorável à aproximação de perturbações atlânticas da Península Ibérica
Até lá, contudo, o anticiclone continuará presente e o calor deverá manter-se em vários dias, durante a primeira metade do mês. Por vezes pode ser bem intenso, não se descartando episódios semelhantes ao que estamos a registar neste início de mês. No entanto, depois disso, as simulações apresentam cada vez mais sinais de mudança, ainda que seja demasiado cedo para determinar exatamente a evolução exata
A atividade tropical no Atlântico continua extremamente baixa – praticamente inexistente nesta fase – mas isso não significa que o Atlântico não possa ainda acordar um pouco… Nos subtrópicos continuam a surgir sinais de tentativas de organização de alguma circulação de características subtropicais, pelo que os Açores deverão manter alguma atenção à possibilidade de situações de precipitação mais intensa ao longo das próximas semanas

Em Portugal Continental, tudo dependerá essencialmente da intensidade que as depressões conseguirem atingir e, sobretudo, da forma como o anticiclone irá reagir à aproximação dessas perturbações. Se o anticiclone se mantiver forte e próximo da Península, poderá bloquear ou desviar grande parte da atividade atlântica. Se, pelo contrário, recuar ou se deslocar para uma posição mais favorável, o cenário poderá mudar rapidamente
Por isso, as previsões deterministas dos modelos meteorológicos tornam-se, para já, pouco úteis depois de 15 de setembro. Mesmo que alguns modelos estejam atualmente a mostrar muito calor e tempo seco para a segunda metade do mês, a situação poderá alterar-se rapidamente. A nossa previsão mantém, assim, predomínio de sol e calor até cerca de 15 de setembro, embora não se possa excluir um ou outro episódio de chuvisco ou precipitação fraca entre a primeira e a segunda semana do mês, especialmente no Norte e junto ao litoral
A verdadeira transição de padrão poderá acontecer mais tarde, possivelmente entre os dias 17 e 20 de setembro, altura em que poderá aumentar a instabilidade, e o anticiclone poderá ceder. Essa mudança poderá ocorrer através de uma depressão isolada em altitude, com possibilidade de aguaceiros e trovoadas, ou através da abertura de um corredor atlântico que permita a aproximação de uma depressão mais organizada – algo ainda a confirmar.
E, mais uma vez, poderá dar a sensação de que o verão foi embora de vez. Mas não acreditamos que assim seja! Nos últimos anos, o período de tempo quente tem-se prolongado frequentemente até outubro e acreditamos que esta tendência continuará… Mesmo que setembro venha a tornar-se bastante mais chuvoso, ainda esperamos novos episódios de calor no início de outubr0

CHUVA EXCESSIVA? QUAIS OS RISCOS?
Antes de mais, é importante mencionar que previsões sazonais são falíveis, e não conseguem determinar de forma exata onde e quando irá chover de forma mais intensa. Dizer que o outono poderá ser chuvoso não significa que teremos chuva constante durante os três meses, nem que todos os locais irão necessariamente registar valores muito acima da média
O que esperamos é simplesmente um regime que promove o aumento da frequência de situações favoráveis à entrada de humidade e à passagem de sistemas frontais, aumentando a probabilidade de episódios de precipitação significativa. Nesta fase, no outono, pode não ser muito persistente, podendo haver períodos de acalmia, mas como já falámos, bastam uns dias mais chuvosos para facilmente se registarem valores acima da média
Depois de um verão quente, o solo poderá apresentar uma capacidade de absorção muito variável. Em algumas zonas, os primeiros episódios de chuva poderão ser rapidamente absorvidos, mas quando ocorrerem precipitações muito intensas, a água poderá acumular-se rapidamente, sobretudo em zonas urbanas e áreas de drenagem deficiente

Entre os principais riscos, para esta fase, estão, por isso, inundações rápidas, cheias repentinas, movimentos de vertente e deslizamentos, especialmente em áreas montanhosas. Nas cidades, episódios de chuva intensa poderão também provocar problemas de drenagem e a cheias rápidas em meio urbano, um dos grandes problemas dos últimos anos nosso país
Uma das grandes preocupações de quem lê as nossas previsões é vento, particularmente depois da depressão Kristin, em fevereiro de 2026. Se as depressões atlânticas conseguirem “cavar” de forma significativa, poderemos ter episódios de vento forte ou muito forte, sobretudo junto ao litoral e em zonas montanhosas. No entanto, nesta fase, não é possível prever com fiabilidade qualquer situação semelhante à referida
Na nossa opinião o fator que merece mais atenção é a o facto da atmosfera estar carregada de água precipitável (muito por culpa dos oceanos quentes, e El Niño), o que significa que, quando as condições forem favoráveis à convecção, uma única frente ou linha de instabilidade poderá produzir quantidades de chuva muito superiores às que seriam esperadas apenas pela passagem de uma frente tradicional
É precisamente este tipo de situação que poderá tornar o próximo outono particularmente interessante do ponto de vista meteorológico: não necessariamente pela quantidade de dias de chuva, mas pela possibilidade de alguns episódios serem muito intensos. Obviamente que se acabar por se verificar uma maior persistência dos episódios de precipitação, tudo isto se pode amplificar
Diríamos, de forma geral, que há 10% de probabilidade de um outono seco, 20 a 30% de probabilidade de um outono normal, 30 a 40% de probabilidade de um outono chuvoso, e 20 a 30% de probabilidade de um outono muito chuvoso. O cenário médio é, assim, para um outono chuvoso, mas dentro do que já aconteceu no passado… Já o inverno…

E DEPOIS DO OUTONO? O INVERNO PODERÁ SER MAIS COMPLICADO!
É no inverno que para já, estamos a dar uma maior atenção aos cenários de precipitação extrema. Se a circulação atmosférica evoluir como está previsto, teremos um cenário mais favorável à entrada de depressões em latitudes mais baixas, de forma mais sucessiva, particularmente se o anticiclone subtropical permanecer suficientemente recuado. O nosso país pode acabar exposto às depressões, tal como ocorreu no inverno passado – os tais “comboios de tempestades”
Além da chuva, poderá aumentar o risco de temporais com vento forte, ondulação elevada e outros fenómenos extremos. Por outro lado, ao contrário de 2025-26, o frio pode ficar mais ausente, e a neve deverá ser em menos quantidade, quer em altitude, e sobretudo em cotas baixas
Depois de vários períodos de seca nos últimos anos, estamos numa fase mais húmida e chuvosa, iniciada em 2025, e que se deve prolongar… As barragens estão bastante bem “compostas” e a seca meteorológica existente, devido ao Verão quente e seco, rapidamente deve terminar, dando lugar ao seu oposto
O cenário que continuamos a considerar mais provável é, portanto, o de uma transição gradual: setembro começa com calor excecional, a instabilidade poderá aumentar na segunda metade do mês, outubro poderá trazer episódios mais claramente outonais intercalados com períodos quentes e, mais tarde, durante o final do outono e inverno, poderá surgir a fase mais húmida, dinâmica e imprevisível. Iremos acompanhar a evolução, mas é melhor estarmos preparados para cenários mais extremos

Previsão elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo às 7:45H de 4 de setembro de 2026
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