Depois de ter ameaçado na sexta, uma depressão em altitude a Oeste do território deverá mesmo provocar trovoadas neste sábado, e possibilidade de granizo, com os modelos a convergirem para uma solução de instabilidade localizada, mas algo intensa, com particular incidência no Interior Norte – mas não descartando, também, a região Centro
É particularmente interessante verificar que o modelo AROME, por exemplo, tem sido muito consistente nas modelações, particularmente de vento, apontando consistentemente para rajadas significativas no Interior Norte durante esta tarde, o que demonstra que este modelo está confiante que a instabilidade será suficientemente intensa para gerar fortes correntes descendentes, com fenómenos como downbursts, por exemplo
Num ambiente de elevado CAPE ( entre 1000 a 1500J\Kg segundo análise multi-modelo) e com água precipitável moderada, surgem 2 riscos principais: precipitação intensa, embora as células se possam mover rápido, o que limita um pouco a quantidade de chuva que deve cair pontualmente, e localmente, e granizo, que segundo a maioria das simulações pode atingir entre 1.5 a 3cm
O IPMA já emitiu os respetivos avisos para alguns distritos, e estamos a monitorizar a situação atentamente, sendo que ainda há, como é habitual nestas situações, incertezas significativas em relação à evolução final: a densidade de poeiras, a capacidade da convecção quebrar esse barreira inibidora, a direção dos ventos em altitude… tudo isto será determinado pela posição exata da perturbação já referida, e que, mesmo em cima da hora, por vezes surpreende
Assim, deixamos o habitual mapa de risco meteorológico, mas sempre com uma ressalva: deve ser interpretado com cautela, sabendo sempre que há uma margem de erro associada, de alguns kms – e sabendo sempre que, mesmo nas zonas assinaladas, este tipo de fenómenos pode ser muito localizado, podendo estar um dia de sol fantástico num determinado local, e uma tempestade a poucos kms…

TROVOADAS E GRANIZO – ONDE PODEM OCORRER?
Esta é sempre a questão mais complicada de responder, pois depende sempre muito da evolução final, como já referido, dos vários elementos sinópticos, e a forma como interagem: de nada adianta haver muita energia se a humidade não permite qualquer formação de nebulosidade
É importante assim analisar diversos parâmetros, que podem estar mais ou menos corretos, e a confiança nesta previsão é apenas moderada, visto que o único consenso que existe é que existirá energia convectiva significativa – o que faz sentido, tendo em conta o forte aquecimento diurno, e previsão de temperaturas localmente superiores a 40ºC
Tendo em conta toda a análise efetuada, a nossa melhor estimativa aponta Trás-os-Montes como a região com maior risco, assim como a Beira Interior. Assim distritos como Vila Real, Bragança e Guarda podem ser os mais afetados pelos fenómenos mais intensos (localizados…), incluindo o granizo\saraiva (2-3cm possíveis), a precipitação intensa, a trovoada frequente, e rajadas fortes
Outros distritos assinalados no mapa podem ter instabilidade significativa, também, embora os índices conectivos não pareçam indicar tanta probabilidade. É, ainda, importante mencionar que alguns modelos habitualmente fiáveis, como o Europeu IFS, apontam para instabilidade mais intensa no Centro do país. Contudo, e uma vez que a modelação regional HD não mostra isso, para já fica como uma probabilidade mais baixa, mas não descartada

A previsão de densidade de trovoadas, é, infelizmente, um dos calcanhares de Aquiles daquele que é o melhor modelo meteorológico do mundo, e infelizmente é um parâmetro muito usado, e amplamente disponibilizado, em plataformas como o Windy, por exemplo. Nunca deve ser interpretado de forma direta, pois a probabilidade de indicar trovoadas num determinado local e nada ocorrer é extremamente elevada (tem habitualmente um viés muito forte!)
Ainda assim pode ser usado de forma geral para avaliar o potencial para formação de convecção, com alguma utilidade: podemos interpretar esse mapa como zonas onde, localmente, pode surgir alguma trovoada isolada, sabendo que em 95% dos locais nada se vai passar. E o que mostra o mapa? Bem, quase todo o território surge com trovoadas, exceto a faixa costeira Ocidental, o Algarve e o extremo interior Alentejano…
Como dissemos este é um grande viés do modelo, e as trovoadas serão bem menos generalizadas, mas podemos retirar daqui uma coisa: há humidade em altitude prevista, e as condições favorecem trovoadas em diversos locais. As condições inibidoras, mais a Sul, dificilmente permitirão convecção, pelo que a nossa previsão se mantém: deve ser no Norte e Centro que pode surgir alguma situação pontual de mau tempo, especialmente na área assinalada a laranja no nosso mapa (acima)
Assim convém ter em conta que pode estar sol de manhã, mas durante a tarde, repentinamente, podem surgir aguaceiros fortes e risco de inundações localizadas, saraiva com alguma dimensão e vento forte. Recomendamos, se vive nas regiões potencialmente mais afetadas (Distritos de Vila Real, Bragança, Guarda, Viseu…) que tome as devidas medidas de prevenção

O CALOR VAI CONTINUAR? SIM, MAS…
O calor é para continuar, e segundo as últimas simulações talvez ainda possa durar 8 a 15 dias! Haverá, ainda assim, algumas interrupções e mudanças de tempo temporárias pelo meio, incluindo a passagem de uma superfície frontal entre dias 8 e 9, com alguma chuva mais a Norte, pelo menos
O consenso geral aponta para que logo de seguida, e no período 10 a 15 de setembro, aproximadamente, o calor regresse, e provavelmente apontando novamente aos 40ºC, com noites tropicais, pelo que se irá manter e agravar o risco de incêndio, num verão que ainda não terminou…
Contudo, e à medida que avançamos para os últimos 10 dias do mês, os sinais começam a surgir de um possível mudança de padrão, com a corrente de jato a começar a intensificar, e a querer descer em latitude. Para já, no entanto, nenhum modelo o mostra de forma evidente – todos mostram as depressões em trajetos mais a Norte, perto do Reino Unido, que deve começar a receber as chuvas mais intensas, desde já, com a corrente de jato a intensificar

A cerca de 10 dias de distância, ou um pouco mais, os modelos têm uma fiabilidade relativamente baixa, pelo que é importante ir acompanhando a evolução do posicionamento do jato polar, e eventuais depressões que possam ir surgindo. Facilmente podemos começar a ter evolução de frentes mais a Sul, e\ou alguma depressão isolada, que se pode desprender da circulação geral
Não há sinais evidentes de uma mudança drástica ainda, o que significa que muito provavelmente, pelo menos até dia 20, nada vai mudar drasticamente: alguma chuva possivelmente, um ou outro dia, e temperaturas em queda talvez depois de dias 15-16, mas sem grande significado. Depois disso, e apesar de demasiado cedo para afirmar com certezas, a mudança pode ir surgindo
Num ano sem furacões (se não surgir nenhum até 11 de setembro será a primeira vez em 100 anos!), o Atlântico está muito quente, e, por essa razão, mantemos a nossa previsão em absoluto, mesmo que o início de outono não o mostre: a chuva deve acabar por chegar, possivelmente com força, para um outono e principalmente inverno chuvosos e\ou tempestuosos. Mantenha-se atento às nossas atualizações!

Previsão elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo às 7:35H de 5 de setembro de 2026
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