Formou-se no Atlântico Noroeste a tempestade Josephine, um ciclone com características tropicais/subtropicais, que se desenvolve em latitudes bastante mais elevadas do que aquelas onde normalmente se formam estes sistemas. É uma situação que temos vindo a acompanhar e que volta a destacar uma das características desta temporada: enquanto o Atlântico tropical tem apresentado uma atividade muito reduzida, devido ao El Niño, continuam a surgir oportunidades para desenvolvimento tropical e subtropical mais a Norte
Quem já consultou o mapa de previsão oficial do Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC) poderá ter ficado preocupado com a possibilidade de Josephine se aproximar dos Açores, com uma trajetória orientada para Nordeste. Mas será que existe realmente risco de uma tempestade tropical atingir o arquipélago? Diretamente, não… mas não significa que não haverá efeitos
Na realidade, Josephine deverá perder as características subtropicais já nesta quinta-feira, dia 22, ou na sexta, 23, à medida que interage com uma perturbação associada à frente polar. O sistema não desaparecerá propriamente, mas deverá transformar-se numa depressão extratropical, mais típica das latitudes médias, podendo até intensificar-se temporariamente durante esta transição. Posteriormente, deverá deslocar-se para Leste, permanecendo a Norte do arquipélago dos Açores
Esta evolução poderá ter consequências distintas no estado do tempo em Portugal. Nos Açores, o fim-de-semana e início da próxima semana poderão apresentar condições mais instáveis, com passagem de uma forte frente Atlântica, com períodos de chuva forte, vento forte e alguma agitação marítima. Contudo, os efeitos mais significativos associados à circulação principal de Josephine deverão permanecer afastados, pelo que não antecipamos, neste momento, uma situação mais severa
No Continente, pelo contrário, a reorganização da circulação atlântica poderá favorecer novamente o reforço do anticiclone e a entrada de ar bastante mais quente, especialmente a partir de domingo, dia 25, e durante os últimos dias de outubro. Como explicámos na nossa análise anterior, existem cenários para temperaturas próximas dos 27 a 30ºC, sobretudo no Centro e Sul, num período em que já seria normal termos condições meteorológicas bem mais típicas de outono…

TEMPESTADE JOSEPHINE – TRAJETÓRIA E INTENSIDADE PREVISTAS
O NHC nomeou oficialmente a tempestade subtropical Josephine no dia 21 de outubro, depois de uma análise dos ventos à superfície obtida através de um instrumento de satélite conhecido como scatterometer, da família de observações “ASCAT”. Os dados obtidos mostraram que as frentes anteriormente associadas à depressão se tinham “separado” e que a circulação apresentava características compatíveis com um sistema subtropical, incluindo uma estrutura de núcleo relativamente quente e atividade convectiva mais organizada
É importante distinguir este sistema da tempestade Austen, que afetará o Reino Unido e parte de França entre quinta e sexta-feira. Austen é uma depressão extratropical, típica do Outono e Inverno nas nossas latitudes, alimentada sobretudo pelo contraste entre massas de ar e pela interação com a corrente de jato. Josephine, pelo contrário, desenvolveu características subtropicais, com “processos” associados aos ciclones de núcleo quente
Outra diferença importante está na intensidade inicial. Josephine foi classificada com ventos sustentados próximos dos 100 km/h e pressão central de cerca de 990 hPa, valores compatíveis com uma tempestade subtropical, mas insuficientes para atingir a categoria de furacão. Isto não significa, contudo, que as depressões extratropicais sejam necessariamente menos perigosas. Basta recordar a tempestade Kristin, que afetou Portugal em janeiro de 2026 e provocou danos extremamente graves, apesar de não se tratar de um ciclone tropical
No caso de Josephine, existe ainda a possibilidade de intensificação durante a transição para depressão extratropical, devido à interação com a corrente de jato e ao aumento do contraste térmico. O NHC admite mesmo que o sistema possa apresentar temporariamente ventos com força de furacão depois de perder as características subtropicais. Não seria, portanto, um “furacão tropical” mas sim uma depressão extratropical intensa
As previsões, para já, apontam para uma intempérie “normal” no arquipélago dos Açores, com chuva forte e ventos com rajadas até 100\110km/h nos pontos mais expostos, na maioria dos cenários, entre domingo e segunda, com maior impacto nas Ilhas Ocidentais e Centrais. Obviamente que estaremos a acompanhar a possibilidade de mudanças nesta previsão, e avisaremos caso seja o caso
A interação entre Josephine e a frente polar poderá também contribuir para uma reorganização da circulação sobre o Atlântico e a Europa, favorecendo uma dorsal anticiclónica mais pronunciada sobre a Europa Ocidental. É precisamente este cenário que ajuda a explicar o possível regresso do calor a Portugal Continental e partes da Europa Ocidental
Recordamos que pode seguir a evolução de Josephine na nossa página dedicada à atividade tropical, onde disponibilizamos informação sobre a intensidade dos sistemas, trajetórias previstas, modelos meteorológicos e imagens disponíveis. Continuaremos também a acompanhar a evolução desta depressão e a sua eventual influência indireta no estado do tempo em Portugal

AUSTEN TRAZ TEMPESTADE AO NOROESTE DA EUROPA, ALGUMA CHUVA A PORTUGAL… E DEPOIS VEM CALOR!
Já hoje à noite (quinta, 22 outubro), a tempestade Austen deverá afetar o Reino Unido e o Norte de França, depois de um processo de intensificação rápida no Atlântico. O Met Office já emitiu avisos meteorológicos, incluindo avisos laranja para vento no Sudoeste de Inglaterra, onde são esperadas rajadas muito fortes, chuva intensa e condições de mar bastante adversas. Trata-se de uma depressão potencialmente perigosa nas regiões mais afetadas
Em Portugal, os efeitos deverão ser muito menos significativos, esperando-se uma frente associada à circulação desta perturbação que deverá atravessar o território entre o final de quinta-feira e a manhã de sexta-feira, provocando períodos de chuva geralmente fraca ou moderada, sobretudo nas regiões Norte e Centro. Os distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Vila Real e Viseu deverão apresentar maior probabilidade de precipitação significativa (sempre abaixo de 10l/m2), especialmente nas zonas montanhosas, onde os acumulados poderão ser um pouco superiores
A chuva poderá também chegar a Coimbra, Leiria, Castelo Branco e, de forma mais dispersa, Lisboa e Santarém, embora com quantidades bastante reduzidas. A Sul do Tejo continuará a ser pouco provável a ocorrência de precipitação significativa. O vento deverá soprar temporariamente mais intenso de Sudoeste, sobretudo no litoral e nas terras altas, enquanto a ondulação aumenta na costa ocidental, podendo atingir valores próximos dos 4 a 5 metros em alguns períodos. Nada de particularmente extraordinário para o nosso território

Depois da passagem desta frente, poderemos ter ainda alguma nebulosidade e aguaceiros ocasionais durante o fim-de-semana, sobretudo nas regiões mais a Norte. Contudo, os modelos começam a mostrar o anticiclone a recuperar influência sobre Portugal, com maior estabilidade e uma subida das temperaturas que poderá tornar-se bastante mais significativa a partir de segunda-feira
Este aquecimento deverá ser mais significativo no Centro e Sul, onde os ensembles continuam a apresentar probabilidades cada vez mais elevadas para máximas superiores a 25ºC e até mesmo significativas para 30ºC como pico em alguns dias. O litoral estará dependente de eventual fluxo leste, possível no final do mês, para confirmar também uma forte subida de temperatura
Continuamos a aproximar-nos de novembro com uma situação meteorológica bastante invulgar. O Atlântico apresenta cada vez maior atividade depressionária, mas Portugal Continental continua a receber muito pouca chuva, graças à persistência do anticiclone. Existe atividade atualmente sobre o Atlântico Norte, mas resta perceber quando é que essa atividade conseguirá finalmente alcançar Portugal de forma mais consistente (dependerá do anticiclone…)
Para já, sem querermos “adivinhar”, diríamos que depois desse período mais quente é possível que haja algumas trovoadas em Portugal, e, infelizmente, uma probabilidade de nova situação de temporal no Mediterrâneo. Quanto ao outono propriamente dito… logo se verá!

Previsão elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo – 22 de outubro de 2026 – 7H
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