Mais extremos do clima: Antes de uma nova onda de calor, a ameaça das tempestades no Sul Europeu. Uma perturbação em altitude irá atravessar o Continente, acompanhada do jato subtropical ativo, encontrando uma massa de ar muito quente e húmida, que proporcionará condições favoráveis ao desenvolvimento de convecção, que poderá ser localmente severa, e com risco significativo
Esta situação surge numa altura em que o Mediterrâneo continua com temperaturas excecionalmente elevadas, como temos mencionado, fornecendo calor e humidade adicionais. A combinação entre CAPE elevado (energia disponível), forte windshear (variação do vento com a altitude) e elevados valores de água precipitável cria um ambiente propício à formação de células convectivas organizadas, com diversos riscos, conforme a região
Entre os principais riscos meteorológicos encontram-se granizo de grande dimensão (saraiva), rajadas muito intensas e com potencial destrutivo, chuva intensa com potencial para inundações rápidas e cheias, e, localmente, a possibilidade de tornados ou trombas de água. Essa possibilidade, apesar de anteriormente ser limitada na Europa, e muito rara, surge agora com cada vez maior frequência – efetivamente estamos a formar um “tornado alley” na Europa, com o Mediterrâneo a assemelhar-se cada vez mais com o Golfo
Nas últimas semanas, a Europa tem alternado entre episódios de calor extremo e tempestades violentas. Sempre que uma depressão consegue interromper temporariamente a estabilidade atmosférica, rapidamente surge um novo reforço do anticiclone com transporte de ar muito quente, devolvendo as temperaturas excecionalmente elevadas a boa parte do Continente Europeu… \e precisamente isso que os modelos meteorológicos continuam a indicar
Assim que esta perturbação abandonar o Centro da Europa, uma nova e muito extensa onda de calor deverá instalar-se, podendo tornar-se a mais intensa de todo o Verão de 2026. França, Suíça, BeNeLux e, posteriormente, Alemanha, Polónia além dos países nórdicos, poderão voltar a registar temperaturas semelhantes às observadas durante a extraordinária onda de calor de junho. A duração deste episódio também impressiona, e mesmo que existam pequenas oscilações ou pausas regionais, a tendência dominante aponta para vários dias consecutivos de calor muito intenso, podendo prolongar-se durante uma a duas semanas em diferentes regiões

QUAIS SERÃO OS PAÍSES MAIS AFETADOS PELAS TEMPESTADES?
Durante o dia de sábado, o maior risco concentra-se no sul de França, região dos Alpes e norte de Itália, onde os modelos simulam os valores mais elevados de CAPE (superior a 2000J\Kg), suficientes para favorecer o desenvolvimento de supercélulas isoladas, capazes de produzir granizo de grande dimensão (saraiva, superior a 5cm) e rajadas muito fortes (acima de 100km/h)
À medida que a perturbação progride para leste durante o dia domingo, o risco aumenta gradualmente para o leste da Europa, incluindo Áustria, Eslovénia, Croácia e restante região dos Balcãs, onde a combinação entre o efeito orográfico (relevo montanhoso) e o ar muito húmido poderá levar a episódios de chuva muito intensa, localmente extrema, não se descartando valores superiores a 100l\m2 em apenas 1 hora
Os elevados valores de água precipitável, mais uma vez potenciados por um Mediterrâneo “a ferver” fazem aumentar significativamente o risco de chuva excessiva, sobretudo entre o norte de Itália e os Balcãs, onde não se excluem inundações repentinas em zonas urbanas e vales encaixados. A atividade elétrica deverá também ser muito frequente e intensa. Nestas regiões também há risco de granizo, embora menos provável
A presença de forte windshear em diversos níveis da atmosfera aumenta igualmente a probabilidade de fenómenos convectivos severos, incluindo ventos destrutivos (donwbursts) e alguns tornados localizados, especialmente nas células mais organizadas, no domingo, entre o Norte de Itália e a Croácia. Embora com menor intensidade, também partes da Alemanha, República Checa e sul da Polónia, por exemplo, poderão registar aguaceiros e trovoadas fortes
Em Portugal, os efeitos são bem diferentes: espera-se apenas alguma chuva fraca e dispersa, sobretudo no Minho, Douro Litoral e restantes regiões a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela, sem acumulações significativas. Em muitas localidades, julho poderá mesmo terminar sem qualquer precipitação, prolongando um período muito seco e aumentando as preocupações relativamente ao estado dos solos e ao risco de incêndio

ONDA DE CALOR NA EUROPA – A MAIS INTENSA DO VERÃO?
Pode parecer difícil de acreditar depois da extraordinária onda de calor registada em junho, que bateu recordes em diversos países europeus, mas tudo indica que o pico do Verão poderá ainda não ter sido atingido no Continente Europeu, uma vez que a previsão atual sugere que o episódio mais intenso poderá ocorrer precisamente entre o final de julho e o início de agosto
A configuração atmosférica prevista favorece claramente este cenário:. Um bloqueio intenso tem tendência a instalar-se sobre a Gronelândia, com as depressões a descerem em direção aos Açores… Em resposta, estabelece-se um persistente fluxo de sudoeste sobre grande parte da Europa Ocidental e Central, transportando ar subtropical extremamente quente. Estas depressões ficam “presas” entre a alta pressão a Oeste (desde as Bermudas até à Gronelândia), e a alta pressão a leste, com a dorsal africana do anticiclone
Embora seja conhecido que o modelo GFS apresenta atualmente algum dry bias, aquecendo por vezes excessivamente devido aos solos extremamente secos, todos os principais modelos convergem num cenário semelhante: a massa de ar será excecionalmente quente. As previsões mostram valores próximos dos 28°C à altitude de 850 hPa sobre Portugal (Interior), Espanha e França, enquanto isotérmicas superiores a 24°C poderão alcançar regiões da Alemanha, Polónia e, pontualmente, até o leste do Reino Unido

Trata-se de valores absolutamente notáveis, principalmente para estas latitudes mais elevadas, e suficientemente altos para permitirem temperaturas muito acima dos 40°C em várias regiões do sul da Europa e máximas próximas ou superiores aos recordes históricos em diversos países mais a Norte – valores a confirmar, e dependentes obviamente de fatores como nebulosidade e regime de ventos
Alguns cenários continuam também a sugerir o desenvolvimento de uma depressão isolada a oeste da Península Ibérica. Caso esta solução se confirme, poderá reforçar ainda mais o fluxo de sudoeste, alimentando uma advecção de ar quente ainda mais intensa sobre a Europa, e aumentando simultaneamente o risco de incêndios florestais. Este poderá tornar-se o período mais crítico de todo o Verão, não apenas devido ao calor extremo, mas também pelos impactos esperados na saúde pública, agricultura, recursos hídricos e ecossistemas.
Recordamos a importância de seguir sempre as recomendações das entidades de previsão, e da Proteção Civil, especialmente no que diz respeito à exposição ao calor e à prevenção dos incêndios rurais. Numa altura de risco elevado, pequenos gestos individuais continuam a fazer toda a diferença!

ÁGUA DO MAR QUENTE EM PORTUGAL, PARA CONTINUAR?
A mudança de regime prevista durante o fim de semana deverá provocar um reforço temporário da nortada na Costa Ocidental portuguesa deverá levar a aumento da agitação marítima e a uma descida da temperatura da água do mar, mais sentida na Costa a Norte do Cabo Mondego, e no domingo
Esta situação deverá ser de curta duração, no entanto. Com o regresso previsto do fluxo de sudoeste durante a próxima semana, e o enfraquecimento do vento de Norte, a água deverá voltar a aquecer rapidamente, podendo mesmo superar pontualmente os valores atualmente observados em algumas zonas do litoral, principalmente a Sul do Cabo Mondego
Também o Algarve deverá registar um aquecimento gradual da água do mar, anulando lentamente o fenómeno que fez com que, nas últimas semanas, a costa Ocidental do Norte e Centro tivessem temperaturas da água superiores às verificadas no Sul do país. Apesar de ser impossível prever estes valores com total precisão, a tendência aponta para temperaturas acima da média pelo menos até ao início da segunda semana de agosto

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 6:18H de 24 de julho de 2026
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