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Nos últimos dias surgiram várias notícias e publicações nas redes sociais sugerindo que Portugal poderá ficar num verdadeiro “corredor de trovoadas” durante o mês de agosto. Obviamente, e como acontece sempre que uma notícia deste género surge, seja de outras fontes, ou mesmo da Luso Meteo, recebemos imensas perguntas. Depois de um primeira metade de Verão quente, seca, marcada pela ausência de nortadas e por um regime atmosférico bastante invulgar e estável, será possível?
Analisando mais detalhadamente, será que esta possibilidade tem fundamento? É possível, mas é preciso recordar que, a esta distância, a fiabilidade é baixa, particularmente quando falamos de fenómenos tão específicos como trovoadas Neste artigo analisamos os principais modelos meteorológicos e explicamos o que, efetivamente, se pode concluir das previsões atualmente disponíveis
Importa recordar que estamos ainda a várias semanas do período em análise (agosto). Embora os modelos de médio e longo prazo tenham evoluído bastante nos últimos anos, sobretudo com a introdução da Inteligência Artificial, continuam a existir incertezas significativas quando falamos de previsões para um mês seguinte. Agosto é, além disso, um mês de transição, em que a atmosfera começa lentamente a “preparar-se” para a reta final do verão (climático)
É verdade que tanto os modelos de previsão como as tendências de circulação atmosférica sugerem um anticiclone frequentemente posicionado em latitudes mais elevadas (como aliás temos tido!) Essa configuração pode favorecer a formação de depressões isoladas sobre o sul da Europa, algumas potencialmente intensas. No entanto, dizer que isto vai causar trovoadas frequentes em Portugal é, para já, demasiado redutor e “simplista”, ignorando as incertezas associadas
Aliás, basta olhar para o que tem acontecido nas últimas semanas: Várias regiões da Europa têm permanecido sob um regime bastante instável, com tempestades severas, granizo e inundações, enquanto Portugal continua praticamente à margem desses episódios, apesar de algumas perturbações circularem relativamente perto da Península Ibérica. Isto demonstra que um anticiclone mais deslocado para norte não implica, por si só, que há um risco significativo de trovoadas em Portugal

Qual a probabilidade real de um agosto com muitas trovoadas?
Os dois principais modelos utilizados para previsões de médio e longo prazo, o ECMWF e o CFSv2, apresentam alguns pontos em comum para o mês de agosto: Ambos sugerem a manutenção de um bloqueio atmosférico em latitudes relativamente elevadas, favorecendo assim uma circulação um pouco mais perturbada sobre a Europa. No entanto a configuração exata da atmosfera é um pouco diferente entre as simulações de ambos os modelos
O ECMWF continua a insistir numa anomalia positiva de temperatura bastante significativa sobre grande parte da Europa, incluindo a Península Ibérica. Esse cenário deve-se a uma maior persistência anticiclónica sobre a Europa Ocidental, permitindo que o calor continue a dominar, pelo menos na fase inicial. Apesar disto, o mesmo modelo vai sugerindo, ocasionalmente, a formação de depressões isoladas nas proximidades da Península Ibérica, mas também com a presença da dorsal africana, que nos traz ar muito seco e, frequentemente, além de prováveis poeiras do Saara, fatores que dificultam o desenvolvimento da convecção
Outro aspeto importante é que a anomalia de precipitação prevista pelo ECMWF permanece muito próxima da normal climatológica para Portugal. Isto significa que o sinal estatístico para um mês particularmente chuvoso ou para uma frequência invulgarmente elevada de trovoadas continua a ser bastante baixo. Em termos simples, o modelo Europeu, o mais fiável, para já não suporta a previsão de um agosto tempestuoso no nosso país
O CFSv2 apresenta sinais um pouco diferentes, sugerindo que poderia surgir geopotencial ligeiramente mais baixo sobre a Península Ibérica, permitindo a aproximação de mais perturbações, e menos ar seco, ao longo do mês, o que poderia, de fato aumentar a probabilidade de ocorrência de trovoadas. Ainda assim o sinal estatístico continua pouco robusto e o CFSv2, apesar de ser útil, ocasionalmente, na identificação de padrões a longo prazo, apresenta historicamente uma fiabilidade inferior à do ECMWF
Com as informações disponíveis concluímos, assim, que parece pouco provável um cenário de trovoadas frequentes em Portugal. O cenário mais provável, atualmente, é de uma Europa com calor intenso e frequente, mas com atividade convectiva acima do habitual em algumas regiões, enquanto Portugal poderá assistir à passagem de uma ou outra depressão isolada, capaz de originar episódios localizados de instabilidade, como aliás é normal no Verão Português, particularmente no final da estação

E o calor, vai continuar? Ou o pico do Verão já passou?
A evolução das temperaturas durante o mês de agosto dependerá, em grande parte, da posição exata do anticiclone e da trajetória das eventuais depressões isoladas que se possam formar. Dependendo da configuração exata, as massas de ar muito quente provenientes do Norte de África poderão voltar a ser transportadas para a Península Ibérica, Mediterrâneo assim como Centro e Norte da Europa. O calor acumulado está agora no pico no Continente Africano, pelo que o forno está “ligado”, basta algum fator que direcione o calor em direção à Europa
O cenário de calor intenso tem sido favorecido pelas últimas atualizações dos principais modelos meteorológicos. Embora ainda exista incerteza, sobretudo para a segunda metade do mês, os primeiros dez dias de agosto apresentam uma probabilidade relativamente elevada de novas ondas de calor em grande parte do Oeste da Europa (não excluindo Portugal). Alguns modelos não excluem mesmo a possibilidade de serem estabelecidos novos recordes de temperatura, num verão que já ficará marcado pelos inúmeros extremos observados desde junho
Outro fator que merece especial atenção é a temperatura excecionalmente elevada do Mar Mediterrâneo. Um mar mais quente favorece noites muito quentes nas zonas costeiras, dificultando o arrefecimento durante a madrugada. Além disso, aumenta significativamente a quantidade de vapor de água disponível, contribuindo para valores de humidade muito elevados. Essa combinação entre temperaturas muito elevadas e humidade intensa pode originar valores de sensação térmica verdadeiramente extremos e aumentar a chamada temperatura de bolbo húmido, um dos indicadores mais importantes para avaliar o stress térmico no organismo humano
Quando este atinge valores muito elevados, a capacidade do corpo para dissipar calor através da transpiração diminui drasticamente, aumentando o risco para a saúde, sobretudo durante episódios prolongados de calor extremo. Embora situações verdadeiramente críticas historicamente sejam raras na Europa, a tendência para um Mediterrâneo cada vez mais quente faz com que este seja um fenómeno que importa acompanhar com atenção nos próximos anos
Concluímos então dizendo que não esperamos, para já, um agosto com muitas trovoadas em Portugal, e que o calor intenso pode ainda surgir ocasionalmente. No resto da Europa há maior probabilidade de trovoadas e tempestades ocasionais, mas o risco de calor é igualmente elevado (senão mais). O Verão está, certamente, longe do fim…

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 7:52h de 18 de julho de 2026
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