Onda de calor na Europa? Ou novo “normal?” A realidade é que o calor ao longo deste Verão de 2026 está a atingir níveis tão extremos que se torna cada vez mais complexo classificar o que estamos a viver como uma simples onda de calor no Sudoeste Europeu. Na realidade, este cenário persistente começa a desenhar-se como o novo normal, fruto de uma subida acelerada da nossa “base climática” verificada sobretudo nos últimos anos
Países como Espanha e França encontram-se há semanas consecutivas sob o domínio de massas de ar muito quentes, com temperaturas que teimam em ficar entre os 40ºC e os 45ºC (com noites quentes). Estes valores situam-se nuns impressionantes 10ºC a 20ºC acima do normal habitual para a época. Nestas regiões, as breves e pontuais descidas das temperaturas até aos 30ºC ou 35ºC são agora vistas pelas populações como se de uma “normalização” se tratasse. Mas é mesmo assim?
Na realidade, analisando os dados climáticos com rigor, a realidade é que mesmo estes valores ditos mais “frescos” continuam a situar-se mais de 5ºC acima da média de referência. Significa isto que, se levarmos estritamente à letra a definição científica e meteorológica de uma onda de calor (6 dias ou mais com 5ºC de anomalia positiva de temperatura) o fenómeno já persiste de forma ininterrupta há várias semanas em diversas localidades europeias, sem dar verdadeira trégua
Este comportamento invulgar da atmosfera é uma prova inequívoca de que a base climática global mudou de forma tão drástica que começa a deixar de fazer qualquer sentido prático comparar a nossa atualidade com o clima de há 20 ou 30 anos (bases climáticas 1981-2010, por exemplo). A velocidade desta transformação quebrou os padrões estatísticos, mostrando que o passado recente já nem sequer é comparável com o presente.
O stress térmico continuado a que o Continente Europeu tem estado sujeito nas últimas semanas tem desafiado as populações, as produções agrícolas e tem causado graves preocupações ambientais. Diante de um verão que teima em quebrar máximos históricos logo no seu arranque, assistimos com crescente preocupação, à consolidação de um regime de calor severo e prolongado, onde os extremos parecem ter vindo definitivamente para ficar

ONDA DE CALOR NA EUROPA – ATÉ QUANDO?
Continuamos muito atentos à evolução dos modelos, mas a tendência repete-se de forma quase sistemática: sempre que as simulações desenham o enfraquecimento e o desaparecimento do calor, o padrão quente, ou mesmo tórrido, volta a intensificar-se logo de seguida. Tem havido uma presença constante e quase estacionária de depressões em altitude posicionadas a oeste da Península Ibérica, que impulsionam o calor sobre a Europa Ocidental
Felizmente, Portugal tem conseguido ficar consideravelmente mais resguardado sob este regime específico, beneficiando de ventos marítimos – excetuando, como recordamos, o pico de calor muito intenso vivido no final de junho e início de julho. Porém, em Espanha, França, em BeNeLux e até em Inglaterra, a persistência do calor tem sido absolutamente implacável e sem precedentes conhecidos na história moderna
Os valores de temperatura registados nestes países vizinhos revelam algo completamente absurdo… Em Inglaterra, por exemplo, nunca os registos meteorológicos tinham contabilizado um verão com tantos dias acima dos 34ºC, um dado assustador, se pensarmos que ainda nem sequer chegámos ao meio da estação. Da mesma forma, em França, multiplicam-se os locais que nunca tinham testemunhado uma sequência tão longa de dias com marcas superiores a 40ºC
Embora as previsões de médio prazo apontem para a tendência de uma quebra temporária nas temperaturas pouco depois do meio do mês de julho, tudo indica que será um intervalo muito breve. Efetivamente, o clima previsível que outrora conhecíamos parece já não existir: com os valores de temperatura “normais” atualmente, a ocorrência de um verão sem ondas de calor na Europa será um cenário cada vez mais impossível se continuarmos a usar as médias climáticas antigas – e francamente desatualizadas

PORTUGAL VAI ESCAPANDO, MAS PODE O CALOR INTENSIFICAR NO FIM DE JULHO?
Estamos a acompanhar de forma atenta os modelos meteorológicos, e as tendências para o final de julho, focando a atenção no período que se seguirá ao afastamento da atual depressão isolada em direção a leste (que se deve dar por volta de 17 a 19 de julho). De momento, a incerteza ainda é considerável, havendo várias soluções e cenários possíveis nas saídas dos principais modelos, o que exige maior precaução em avançar com uma previsão
Alguns dos modelos de referência continuam a insistir na formação e no cavamento de uma nova depressão a Oeste do território. Se esta solução se materializar, assistiremos a uma repetição das subidas da temperatura na Europa Ocidental, com o calor a intensificar-se de forma severa em França e Espanha. Para Portugal, este cenário mantém as dúvidas sobre até que ponto a o efeito marítimo conseguirá travar o avanço do calor africano
Por outro lado, várias simulações apostam num cenário radicalmente diferente, onde o anticiclone ganha força e surge mais estendido sobre a região do Golfo da Biscaia. Esta configuração resultaria num fluxo continental direto sobre Portugal, provocando uma onda de calor muito mais generalizada e intensa no nosso país, que inevitavelmente acabaria por se estender aos restantes países vizinhos Europeus – semelhante ao final de junho (?)

Por fim, e num cenário com probabilidade bastante mais baixa, há ainda a hipótese de um aumento de pressão na Gronelândia associado a um enfraquecimento acentuado do jato polar. Esta dinâmica poderia abrir caminho a um fluxo de Norte capaz de trazer, finalmente, ar mais fresco e temperado ao Sudoeste e Centro da Europa. Contudo, face ao que temos assistido nas últimas semanas, esta hipótese parece muito pouco provável
Para já, os dados de longo prazo mostram uma provável nova intensificação do calor em Portugal após os dias 18 a 20 de julho, num movimento que se deverá propagar rapidamente ao resto do continente, consolidando um julho que promete ser histórico em muitos países. Ainda não há qualquer certeza sobre a intensidade e duração deste calor, contudo
Resta-nos continuar a monitorizar as cartas meteorológicas e esperar que o nosso território continue, na medida do possível, a escapar ao pior deste verão extremo no “Velho Continente”, sabendo que, como já referimos anteriormente, estamos agora no período historicamente mais crítico para a ocorrência de ondas de calor severas no nosso território

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 18H de dia 10 de julho de 2026
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