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Calor, tempestades… A sinótica atual na Europa apresenta um cenário de forte contraste e divisão meteorológica nesta quarta-feira, 15 de julho. Por um lado, um potente anticiclone encontra-se estabelecido sobre o Norte da Europa (sobre a Escandinávia), onde se registam temperaturas muito elevadas para estas latitudes. Por outro lado, uma depressão em altitude posicionada sobre o Norte da Alemanha interage com uma perturbação secundária que “desliza” entre a França e a Áustria, gerando uma dinâmica altamente instável
Esta complexa configuração atmosférica irá propiciar o desenvolvimento de forte instabilidade ao longo da fronteira sul deste sistema depressionário em altitude. Este choque térmico estende-se por uma vasta área geográfica, tendo sido já emitido um aviso de tempestades severas em várias regiões que vão desde o centro e leste de França, passando pela Suíça, sudoeste da Alemanha, Áustria, e incluindo diversos países vizinhos situados mais a leste
O principal foco de preocupação centra-se, contudo, no Norte de Itália. Nesta região, a acumulação de energia potencial convectiva (valores de CAPE a atingirem uns brutais 3500 J/Kg), e forçamento suficiente para iniciar convecção, levam o risco a níveis muito elevados. Os modelos meteorológicos de alta resolução, como o francês AROME, começam a desenhar um cenário muito severo, onde o risco principal será a queda de granizo gigante, com tamanho pontualmente que pode aproximar-se dos impressionantes 10 centímetros
Para o final da tarde e noite de quarta-feira, as condições dinâmicas tornam-se ainda mais propícias à organização de sistemas de tempestades complexos (MCS?). Espera-se a formação de supercélulas de longa duração e forte rotação a deslocarem-se do norte de Itália em direção à Eslovénia e à Croácia. Além do granizo de dimensões destrutivas, estas tempestades trazem associado um risco muito elevado de vento extremo localizado (rajadas com força de furacão) e forte atividade elétrica, além da possibilidade de algum tornado

Os pontos críticos do mau tempo na Europa nesta quarta-feira
O maior foco de perigo para esta quarta-feira parece concentrar-se sobre as planícies do Norte de Itália, afetando diretamente regiões como a Lombardia e a Emilia-Romagna. Nestas zonas, a probabilidade de ocorrência de tempestades severas e organizadas é extremamente elevada, trazendo um risco de granizo gigante e rajadas de vento destrutivas. Adicionalmente, a interação destas células com a brisa marítima vinda do Norte do Mar Adriático eleva a preocupação com a possível formação de tornados na faixa costeira, embora pareça um risco baixo
Um pouco mais a Norte, a forte instabilidade deve afetar também a Suíça, a Áustria, a Eslovénia… As tempestades ganham força nas zonas montanhosas (efeito da orografia) e progridem para as terras mais baixas, e devem provocar queda de granizo de dimensões consideráveis, vento muito forte e episódios de precipitação excessiva em curtos períodos de tempo
Mais a leste, o cenário já é um pouco diferente, com o perigo principal a ser a chuva persistente e as cheias rápidas em países como a Chéquia, Polónia, Eslováquia e o nordeste da Alemanha…. As células de tempestades devem deslocar-se de forma muito lenta. Este fator aumenta drasticamente o potencial para inundações locais, prevendo-se que algumas áreas possam acumular entre 50 a 150 mm de chuva em poucas horas (ou apenas numa hora, localmente)
Existe também o risco de mau tempo no nordeste de Espanha e no sul de França, embora aqui com maior divergência nos cenários previstos, e maior inibição. Com o calor diurno intenso, e alguma humidade a surgir, talvez possa ser quebrado o “bloqueio inibido”, e, principalmente nas zonas de montanha e ao final da tarde, poderão explodir rapidamente algumas células de tempestade isoladas, mas severas, capazes de gerar granizo grande e fortes rajadas de vento
Se está nas regiões afetadas deve seguir à risca os conselhos das autoridades locais, sabendo sempre que neste tipo de situações, muitas vezes domina a imprevisibilidade

O combustível do Mediterrâneo para estas tempestades e a tendência futura…
O calor extremo que se tem feito sentir sobre o Sul da Europa, associado a uma potente cúpula de calor que se prevê continuar pelo menos mais uns dias, é o principal alimento para estas tempestades severas – por um lado criando condições de calor intenso, e choque térmico com massas de ar que provêm de Norte, e, ao mesmo tempo, levando as águas do Mar Mediterrâneo a registarem atualmente anomalias térmicas brutais, com marcas na casa dos 30ºC – o que liberta uma quantidade enorme de humidade para os níveis baixos da atmosfera
Com o Mar Mediterrâneo a registar temperaturas tão elevadas e comparáveis às águas tropicais do Golfo do México, o risco de fenómenos severos continuará a ser uma constante preocupação não só para o que resta deste verão, mas especialmente durante a transição para o outono – quando o anticiclone começa, tipicamente, a ceder
Caso as primeiras grandes depressões atlânticas comecem a descer em latitude mais cedo, o choque térmico com esta água “a ferver” poderá abrir caminho à formação de sistemas tropicais mediterrânicos extremamente destrutivos, denominados como “Medicanes” (que vêm do Inglês Mediterranean Hurricanes, que pode ser traduzido literalmente para furacões no Mediterrâneo)
Em sentido inverso, no Norte e Noroeste do continente Europeu, sob a forte influência do bloqueio anticiclónico estabelecido, a tendência mais provável aponta para a continuidade de um padrão caracterizado por tempo muito seco, sol e calor acima da média para a época. Continuaremos atentos a esta situação, para percebermos quais os efeitos no nosso país ao longo das próximas semanas

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 16H de 14 de julho de 2026
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