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Início»Análise Climática»Não vão estar temperaturas de 50ºC, mas não vai andar assim tão longe. E, francamente, pouco importa! Informação meteorológica 20-25 de junho
Análise Climática

Não vão estar temperaturas de 50ºC, mas não vai andar assim tão longe. E, francamente, pouco importa! Informação meteorológica 20-25 de junho

Luso MeteoPor Luso Meteo17 de Junho de 2026Sem comentários6 min de leitura3.827 Visualizações
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Não vão estar temperaturas de 50ºC, mas não vai andar assim tão longe. E, francamente, pouco importa! Informação meteorológica 20-25 de junho
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Nos últimos dias, as redes sociais e alguns títulos mediáticos foram inundados por previsões alarmistas que apontam para temperaturas de 50ºC em Portugal entre os dias 20 e 25 de junho. É o clássico mediatismo do clique? Sim, um pouco. No entanto, quando tiramos os excessos e olhamos para os modelos meteorológicos, apesar da incerta há previsões que apontam para máximas entre os 44ºC e os 46ºC. Dizer que “apenas” vamos chegar aos 46ºC parece, por momentos, um alívio. Mas não se enganem: a diferença prática entre estes dois números, para a vida humana e para o território, é (praticamente) irrelevante

O verdadeiro problema desta vaga de calor não é o pico máximo que os termómetros registam numa tarde, mas sim a persistência e a abrangência do fenómeno. Estamos a falar de quatro a cinco dias consecutivos de calor muito intenso, sufocante. Quando as temperaturas máximas ultrapassam consistentemente os 42ºC ou 43ºC, o corpo humano deixa de conseguir recuperar de forma eficiente durante o dia. O calor extremo, quando é cumulativo, desgasta e sobrecarrega o organismo, sobretudo dos mais vulneráveis

Para agravar este cenário diurno, enfrentamos as noites tropicais e tórridas/equatoriais, com mínimas que podem não baixar dos 25ºC aos 30ºC. É aqui que reside um dos maiores perigos para a saúde pública: Sem o arrefecimento noturno, as habitações transformam-se em autênticos “fornos”, e torna-se difícil descansar, aumentando o risco de desidratação, privação de sono… o AC será um aliado, para quem os tenha, mas aí entra outro fator: o custo associado a ter um AC 24H por dia

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Temos de encarar a realidade com honestidade: não estamos preparados para isto. Embora Portugal seja um país historicamente quente, a frequência, a precocidade e a intensidade destas ondas de calor em pleno mês de junho ultrapassam largamente a nossa resiliência. As nossas casas foram maioritariamente construídas para reter o calor no inverno (e também não o fazem eficazmente, é uma verdade), transformando-se em fornos no Verão. Não há uma cultura generalizada de mitigação do calor – na realidade muitos ainda “gozam” com esta situação

Esta normalização do extremo é o reflexo mais claro das alterações climáticas no dia a dia. O que antes era um evento que acontecia uma vez em cada década, surge agora quase todos os anos, e cada vez mais cedo no calendário – Junho vai a meio e já tivemos uma onda de calor intensa (Maio), um pico de calor intenso anteriormente este mês, e agora discutimos temperaturas que seriam excecionais mesmo em Agosto. Discutir se vão estar 43, 45 ou 50ºC  é desviar o foco do debate que realmente importa: o nosso país está a tornar-se progressivamente mais insuportável durante estes picos, e a nossa capacidade de resposta está cada vez mais comprometida

Não há temperaturas de 50ºC previstas, mas ainda há modelos que mostram algo acima dos 45ºC
Não há temperaturas de 50ºC previstas, mas ainda há modelos que mostram algo acima dos 45ºC

Os impactos desta realidade estendem-se muito além do desconforto humano, atingindo em cheio os nossos ecossistemas, cada vez mais fragilizados. Com vários dias acima dos 44ºC, a humidade do solo e da vegetação evapora a um ritmo muito elevado, criando o cenário perfeito para os grandes incêndios rurais – com intensidade como raramente vemos (2025 foi um bom exemplo)

A biodiversidade sofre um choque térmico imediato, com os animais a “sucumbirem” à desidratação e à falta de refúgios frescos, cada vez mais raros. A natureza não tem ar condicionado, como as nossas habituações, e a velocidade a que estas ondas de calor extremo ocorrem impede qualquer processo de adaptação natural

A infraestutura também sofre: A rede elétrica pode enfrentar picos de consumo históricos devido ao uso massivo de sistemas de refrigeração, ameaçando falhas no abastecimento. O asfalto das estradas pode nem resistir (sim, pode derreter),, e os próprios transportes públicos tornam-se locais de risco para os passageiros. As cidades, com betão e alcatrão, transformam-se em ilhas de calor que retêm a radiação solar, amplificando a sensação térmica elevada

O sistema de saúde será, inevitavelmente, a última linha de defesa a ser testada ao limite. As urgências hospitalares, que já operam sob enorme pressão, podem facilmente ser inundadas por casos de insolação, desidratação e descompensação de doenças, principalmente respiratórias e cardíacas. A mortalidade excessiva associada às ondas de calor não é uma projeção, é uma estatística que se repete a cada verão, aumentando cada vez mais

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Por tudo isto, o alarmismo em torno do “número mágico” dos 50ºC é uma distração: eventualmente irá atingir esse patamar, mas para já o importante é mesmo importante perceber que o prolongamento e maior frequência destas ondas de calor é o verdadeiro perigo. Quando a “fasquia do pânico” é colocada tão alta, corremos o risco de que a população respire de alívio ao ver “apenas” 45ºC nas previsões, descurando os cuidados essenciais.  O foco deve estar na preparação, na proteção dos mais vulneráveis. Devemos também aceitar que o clima que conhecíamos já não existe – e temperaturas acima de 40ºC durante dias e dias não são normais

A massa de ar quente prevista é recorde para a época do ano. Sujeito a confirmação, claro
A massa de ar quente prevista é recorde para a época do ano. Sujeito a confirmação, claro

RESUMINDO… focar a discussão nos 50ºC é algo errado, e que não devemos fazer. É certo que falar em 50ºC, sem que haja qualquer evidência disso pode causar outro fenómeno perigoso (banalização de previsões extremas, e descredibilização), mas o foco de momento é mesmo o episódio de calor que vamos enfrentar

O que o período de 20 a 25 de junho nos vai trazer é (mais) um teste de esforço à nossa sociedade, à nossa saúde, com máximas muito elevadas e noites que não dão tréguas. Mais do que discutir valores exatos, precisamos urgentemente de adaptar à nova realidade, e mudar os nossos hábitos diários. É importante que as autoridades estejam atentas, e tomem as devidas medidas para que esta situação possa ser mitigada

O Norte do país aquece mais (em relação ao normal) que o resto do território, com valores mais de 12ºC acima da média
O Norte do país aquece mais (em relação ao normal) que o resto do território, com valores mais de 12ºC acima da média

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