PORQUE SE FORMAM AS TROVOADAS NO VERÃO?
Portugal durante o verão tem, frequentemente, uma diversidade meteorológica impressionante. Num território relativamente estreito, é perfeitamente possível que, enquanto os termómetros no Alentejo ou na Beira Baixa disparam para lá dos 40ºC, essas mesmas regiões sofram com trovoadas intensas e queda de granizo, e a faixa litoral ocidental amanheça coberta por nevoeiro denso e fresco. Somos um país tão pequeno, mas de tanto contraste meteorológico, que compreender o tempo por cá exige olhar com muita atenção para a forma como a nossa geografia influencia a atmosfera
A explicação para estas diferenças de temperaturas tão acentuadas começa, precisamente, nas zonas mais quentes, como o interior alentejano e os Vales do Tejo, Sado, Douro… Quando o sol de Verão incide continuamente sobre o solo mais seco, a terra aquece de forma rápida. Este ar muito quente, por ser menos denso, começa a subir rapidamente para as camadas superiores da atmosfera. Este processo cria uma zona de baixas pressões térmicas à superfície, que propicia a instabilidade que se desenvolve depois
É esta subida vertical e violenta do ar quente que desencadeia as típicas trovoadas de verão. Quando está muito calor, e o tempo fica abafado, certamente já disse, ou já ouviu dizer “está sol de trovoada!”. Não é (totalmente) errado dizer isso, pois isolar o calor extremo é efetivamente o que gera estas trovoadas, pois à medida que essa massa de ar quente sobe, encontra camadas de ar muito mais frias em altitude, causando um choque térmico imediato
A humidade presente nesse ar condensa-se, dando origem a nuvens imensas que crescem verticalmente em poucas horas, ou mesmo minutos (os chamados Cumulonimbus), que transformam uma tarde de sol num cenário de tempestade muito rapidamente (como aconteceu nesta quarta-feira). Dentro das nuvens a circulação de ar é tão forte que a “fricção” gera a eletricidade que resulta em relâmpagos e trovões
À superfície, isto traduz-se num ambiente muito abafado, seguido de uma queda repentina da temperatura e de chuvadas concentradas. No entanto, estas tempestades são fenómenos muito localizados, de difícil previsão. Estas áreas de baixa térmica são circundadas por áreas de alta pressão relativa, o que explica porque é que pode estar uma chuvada num local, e sol e calor logo ao lado

NEVOEIROS NO LITORAL, QUAL A RAZÃO?
Entretanto, o cenário no litoral ocidental é completamente oposto, com temperaturas baixas e uma neblina que obriga muitas vezes ao uso de agasalhos, mesmo no Verão. Enquanto o interior “ferve”, a faixa costeira é influenciada pelo oceano Atlântico e por um fenómeno marítimo designado “upwelling“, ou afloramento costeiro. Quando os ventos de norte, a famosa nortada, sopram junto à costa, empurram a água superficial do mar, que está mais quente, para o largo, fazendo com que a água das camadas profundas, consideravelmente mais frias, suba à superfície
Quando o ar vindo do oceano encontra esta faixa de água costeira muito fria, arrefece rapidamente, fazendo com que a humidade condense. É assim que se formam os extensos bancos de nevoeiro que cobrem as praias do litoral Ocidental, e que avançam um pouco pelo interior do litoral durante a manhã, mantendo o ambiente fresco e húmido. Por vezes surgem também nos vales, e só dissipam da parte da tarde. Se o vento for fraco, podem mesmo ser persistentes!
A transição entre estas duas realidades torna-se evidente numa curta viagem de carro do litoral para o interior. É possível arrancar de uma praia sob o nevoeiro com menos de 20ºC e, poucos quilómetros depois, encontrar um céu completamente limpo e o termómetro a marcar quase 40ºC. As nossas serras também ajudam, pois funcionam como uma “parede” que confina a humidade à costa e protege o interior
A proximidade com o Atlântico Norte, a influência das massas de ar quente vindas do norte de África e as variações de altitude do nosso relevo criam um equilíbrio dinâmico e complexo. Uma pequena alteração na intensidade ou na direção do vento basta para arrastar o nevoeiro mais para o interior ou para deslocar as trovoadas, daí, por vezes, ser muito difícil prever o tempo com exatidão
No fundo, o Verão em Portugal não se resume a um padrão único de sol e calor igual para todos. O nosso clima é dinâmico, muitas vezes com uma enorme dualidade, onde “coabitam” o ambiente fresco do litoral, e o calor escaldante do Interior. Além disso tudo ainda temos as famosas trovoadas de Verão, que muitas vezes tantos prejuízos causam, demonstrando que a proximidade geográfica não garante que o tempo vá ser igual ao dos “vizinhos”. Lembre-se sempre disso ao analisar previsões meteorológicas!

Olhar para o mapa de previsão e ver máximas de 40ºC, e, simultaneamente, avisos de trovoada e praias cobertas de neblina não é uma contradição, é apenas a geografia e o clima do nosso país a funcionar
O calor intenso que se faz sentir no interior é o mesmo “motor” que gera a instabilidade nas serras e acentua os contrastes com a costa. No final, esta diversidade mostra que, num território de dimensões reduzidas, convivem realidades atmosféricas muito distintas, transformando qualquer deslocação pelo país numa viagem entre vários microclimas completamente diferentes (e muitos mais há, que não mencionámos, fica para a próxima…)

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