JUNHO – O 4º MAIS QUENTE DESDE 1931, E COM REGRESSO DA SECA
A seca está de regresso, depois de um mês de junho, que, de acordo com os dados oficiais do IPMA, se classificou como muito quente e muito seco, registando uma temperatura média de 22.41 °C, 2,06ºC acima do valor normal. Foi o 4º junho mais quente desde 1931, tendo havido também a ocorrência de duas ondas de calor significativas. A primeira afetou as regiões do Interior, e o Sul, entre os dias 9 e 24, enquanto a segunda começou no dia 29, prolongando-se pelo início de julho (esta mais severa)
O calor intenso verificou-se durante boa parte do mês no Interior, enquanto no litoral apenas se verificou mais perto do fim do mês. Registaram-se também três novos máximos históricos de temperatura mínima mais alta para o mês de junho nas estações de Vinhais, Bragança e Montalegre. Ao mesmo tempo, o total de precipitação mensal fixou-se em apenas 6.9 mm, o que representa apenas 30% do valor normal médio para junho
O mês ficou marcado por bastante variabilidade sinótica. Numa primeira fase verificamos um anticiclone ainda relativamente fraco, e as depressões em circulação a Norte da Península, com tempo algo húmido, e relativamente fresco. Gradualmente houve um posicionamento do anticiclone mais a norte, e foram surgindo depressões isoladas a oeste da Península Ibérica, que foram canalizando o ar quente diretamente para o Noroeste da Europa, assim como para o Centro, posteriormente.
No final do mês assistimos a um reforço intenso do anticiclone dos Açores, que se foi estendendo em direção ao golfo da Biscaia, o que acabou por criar uma cúpula de calor sobre a Península Ibérica, com fluxo leste significativo, tendo, assim, acabado por surgir a segunda onda de calor do mês, já nos últimos dias. Esta onda de calor, que teve pico já em julho, caracterizou-se pela duração e intensidade no litoral
Como consequência direta deste cenário de escassa precipitação e forte evapotranspiração, verificou-se uma diminuição generalizada da água disponível no solo. A redução foi substancialmente mais acentuada na região do interior Norte, onde alguns concelhos terminaram o mês com valores inferiores a 10%. Este défice hídrico levou ao surgimento da seca meteorológica em vários distritos do Litoral norte e a sul de Coimbra (dados IPMA)

SECA – DEVE PREOCUPAR?
A seca meteorológica é calculada com base no índice PDSI (Palmer Drought Severity Index), uma ferramenta matemática que cruza os dados de precipitação com a temperatura do ar para estimar o balanço hídrico. É muito importante esclarecer que o surgimento de seca meteorológica, segundo este índice, não significa, de imediato, que as nossas barragens estejam sem água. O armazenamento das grandes albufeiras nacionais continua estável, felizmente
Graças a um inverno e primavera generosamente chuvosos, as reservas mantêm um excelente nível de armazenamento. Contudo, o facto de este índice ter “invertido” e ter surgido uma situação de seca de forma tão rápida, indica que os níveis de evaporação foram extraordinariamente elevados, impulsionados pelas temperaturas muito altas registadas em junho – é um dos problemas que enfrentamos, com cada vez maior severidade
Embora a situação não seja alarmante ou preocupante a nível de abastecimento, existem alguns fatores que merecem vigilância. A nível florestal, o risco de incêndio dispara uma vez que os combustíveis finos secam rapidamente. Nos ecossistemas destacamos que a vegetação entra em stress hídrico, e, a médio prazo, caso a ausência de precipitação se prolongue, poderão surgir quebras na atividade agrícola, entre outros problemas, que, para já, não equacionamos

O QUE ESPERAR NOS PRÓXIMOS MESES?
Olhando mais para a frente, o mês de julho será inevitavelmente muito quente, no geral, e bastante seco. Apesar de estarmos a atravessar um período central do mês (aproximadamente entre os dias 10 e 20) com valores de temperatura mais “contidos”, com influência marítima refrescante, e alguma humidade, a ausência de precipitação significativa continuará a ser o cenário dominante em quase todo o território de Portugal Continental
Com esta previsão, a seca meteorológica irá agravar-se e expandir-se territorialmente ao longo das próximas semanas. O mês de agosto deverá seguir a mesma tendência, apresentando-se tipicamente quente e seco, o que é de resto natural para o pico do Verão. É altamente provável que o país assista ao regresso mais generalizado da seca moderada a severa até ao meio\final de setembro
Contudo, para já, não há qualquer motivo para entrarmos em pânico. As primeiras projeções sazonais de longo prazo começam a desenhar um outono chuvoso na Península Ibérica. Ainda assim, a cautela e a prevenção não devem ser ignoradas: as previsões a longa distância são falíveis e, sem uma gestão inteligente das reservas de água atuais, os níveis das barragens podem descer a um ritmo que muitas vezes nos surpreende…

Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo no dia 9 de julho, às 15:32H
Se encontrou este artigo no seu feed da Google Notícias\Discover clique em “Seguir” para ver mais das nossas previsões e informações e não perder nada! Siga também a página Luso Meteo – Meteorologia e Clima, nas nossas redes sociais e na Google Notícias AQUI para mais atualizações e informações! As previsões Luso Meteo são atualizadas diariamente AQUI
Se desejar ajudar com donativos para o projeto, para suportar custos de website\manutenção e serviços de subscrição para vos trazer o melhor conteúdo pode fazê-lo, ficamos muito agradecidos! Pode fazê-lo através de MBWay para 918260961, ou IBAN para PT50 0007 0000 0029 3216 7422 3
Especial agradecimento à WebDig, o nosso serviço de alojamento do website – altamente recomendado, com uma fiabilidade e apoio incríveis!

