ONDA DE CALOR MARINHA – MEDITERRÂNEO
A Europa viveu recentemente, como todos sabemos, a onda de calor mais severa já registada, com uns impressionantes (pelo menos) 15 países europeus a ultrapassarem os seus recordes absolutos de temperatura máxima. Quase todos estes países registaram valores acima dos 40ºC, devido à persistência de uma cúpula de calor sufocante, que bloqueou a circulação atmosférica entre os dias 21 e 29 de junho
Este bloqueio atmosférico prolongado não se limitou a transformar a massa terrestre no Continente Europeu num autêntico forno: a radiação solar contínua e a ausência de vento transferiram uma quantidade enorme de energia para os oceanos. O Mar Mediterrâneo é historicamente o mais propício a sofrer este tipo de impacto drástico por ser um mar quase fechado, o que acelera a retenção de calor nas suas águas superficiais
Como consequência direta, desenvolveu-se uma severa onda de calor marinho, que está já a ser acompanhado pela comunidade científica, de perto. A temperatura da água disparou para valores invulgarmente elevados para esta época do ano, criando uma ameaça que pode alterar profundamente as dinâmicas meteorológicas das regiões circundantes nos próximos meses

Os efeitos colaterais na biodiversidade marinha serão facilmente visíveis e são um cenário preocupante. O aquecimento acelerado das águas provoca a migração forçada de espécies nativas, potencia a proliferação de outras espécies, e causa a mortalidade em massa de corais e ecossistemas sensíveis que não sobrevivem a variações térmicas tão abruptas e prolongadas
Além deste desastre, do ponto de vista, ecológico, esta energia acumulada no mar serve de combustível para a atmosfera, aumentando drasticamente a probabilidade de eventos severos no final do Verão (historicamente falando) O risco de formação de “medicanes” – ciclones tropicais do Mediterrâneo – e de episódios de chuva torrencial destrutiva dispara, deixando os países costeiros à mercê de tempo extremo, como, aliás, já temos visto nos últimos anos, com destruição desde Valencia até à Sicília…
A temperatura da água no Mediterrâneo ronda atualmente os 25 a 29ºC, aproximando-se mesmo de 30ºC em algumas regiões. Estamos apenas em junho, pelo que não espantaria ver valores ainda mais elevados nas próximas semanas, comparáveis aos oceanos mais quentes do planeta. No Golfo da Biscaia a água atinge 24ºC, algo também “impensável”

PREVISÕES PARA AS PRÓXIMAS SEMANAS
As previsões para as próximos semanas não trazem qualquer alívio, apontando de forma quase unânime para um cenário de bloqueio atmosférico persistente, que irá criar uma onda de calor em Portugal, com uma cúpula de calor instalada sobre a região. A continua presença de sistemas de alta pressão vai causar um severo défice de chuva, impedindo a aproximação de frentes atlânticas e consolidando um ciclo vicioso de seca e calor extremo sobre toda a bacia Mediterrânica
Para agravar substancialmente esta situação, que podemos chamar mesmo de crise ambiental, os modelos meteorológicos mostram, então, o desenvolvimento de uma nova (e potente) onda de calor. Esta massa de ar muito quente começará a progredir de forma gradual a partir da Europa Ocidental, expandindo-se em direção à Europa Central ao longo dos próximos dias (mais para a segunda semana de Julho)
A progressão desta nova onda de calor vai ser mais uma acha para a fogueira, aumentando a anomalia que já se verifica no Oceano Mediterrâneo. O fluxo de ar extremamente quente e seco impedirá o arrefecimento das águas superficiais, acelerará a taxa de evaporação e pode elevar as temperaturas marítimas para patamares nunca antes registados
Com o mar cada vez mais quente e a atmosfera bloqueada pelas altas pressões, cria-se uma autêntica “bomba relógio” meteorológica, onde qualquer pequena infiltração de ar fresco em altitude poderá despoletar tempestades severas nas zonas Costeiras. Para já, não há previsão que tal venha a acontecer, pois o regime atmosférico favorece que o tempo seco persista (alta pressão), contudo, se alguma bolsa de ar fresco e húmido surgir na região, poderá ser complicada

No Oceano Atlântico a situação não é tão notória, pelo simples facto de termos uma muito maior massa de água, um oceano aberto, e onde o calor intenso não foi tão sentido nas últimas semanas – inclusivamente com algumas perturbações\depressões
Nos próximos dias, no entanto, o calor extremo expande-se para o Atlântico Oriental, e também para o Atlântico Ocidental (costa leste dos EUA), e irá levar a que aqueça, também, de forma rápida – sendo, para já, pouco sentido na Costa Ocidental em Portugal, uma vez que o regime de nortada arrefece a água
Por volta de dia 10 de julho, e após vários dias de calor intenso, e com pouco vento na costa Ocidental, teremos temperaturas da água do mar pouco comuns na Costa Portuguesa, eventualmente chegando aos 21-23ºC na Costa Ocidental, e 23 a 25ºC na Costa Sul do Algarve. Serão, sem dúvida, dias fantásticos para praia, embora as consequências na vida marinha, e no sistema “atmosfera” seja, infelizmente, uma grande preocupação

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo no dia 29 de junho de 2026, às 10:45H
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