Uma onda de calor extremo está a começar em Portugal Continental, com o posicionamento do anticiclone diretamente sobre o nosso território. Esta configuração sinóptica vai cortar a habitual influência marítima e estabelecer um persistente fluxo de leste e Sudeste, injetando uma massa de ar extremamente quente e seca, vinda de África
Para agravar, também o Continente Europeu tem muito calor acumulado, o que ajuda a que o ar que vem da Europa não atua como um moderador. Como consequência direta da lesta, o calor intenso não ficará confinado ao interior, como por vezes acontece, propagando-se com intensidade até às regiões do litoral.
Os principais modelos meteorológicos globais, como o europeu ECMWF e o americano GFS, mostram atualmente algum desacordo nas máximas. Enquanto o GFS exibe uma tendência natural para sobrestimar os picos de temperatura, o ECMWF apresenta-se ligeiramente mais conservador, tendendo a subestimar. Cruzando os dados de ambas as simulações, podemos assumir que o máximo provável de temperaturas máximas absolutas ronda os 43ºC a 46ºC.
Seja como for, isso nem é o mais preocupante: A abrangência geográfica e a extensão temporal desta onda de calor serão invulgares. Este bloqueio atmosférico leva esta massa de ar de Norte a Sul, e poucos ficam a salvo dos valores extremos – até mesmo Peniche, conhecido por (quase) nunca ter calor pode cruzar a marca dos 30ºC num ou outro dia. As noites serão excecionalmente quentes. Os modelos apontam para temperaturas mínimas invulgarmente elevadas em grande parte do território (entre os 25 a 30ºC)
Esta previsão coloca Portugal num cenário de risco extremo, após uma onda de calor na Europa, que felizmente não nos afetou. Reforçamos que este não é um episódio de verão habitual, mas sim um evento extremo, com grande abrangência e intensidade, pelo que pedimos que tome as devidas precauções, e não interprete a situação como “apenas mais uma”

ONDE SE SENTIRÁ MAIS ESTA ONDA DE CALOR?
Na fase inicial do evento, o calor extremo começará a manifestar-se de forma mais intensa na na metade sul do país. Logo a partir de quinta e sexta-feira, os vales do Alentejo, Sado, assim como o Algarve Interior, deverão registar valores de temperatura muito elevados, a roçar os 44ºC. A partir daí, a dorsal anticiclónica ganha força, e empurrará progressivamente o ar quente para Norte
Esta progressão faz-se sentir com intensidade na faixa litoral já durante o dia de quinta-feira, com o fluxo predominante leste. De acordo com os cenários mais prováveis, no litoral o calor deverá permanecer, mesmo junto ao mar, pelo menos até sábado ou domingo. Assim algumas praias podem chegar aos 40ºC ao longo da faixa costeira Ocidental, o que é menos comum – com noites tropicais
O período entre os dias 4 e 7 de julho deverá ser o pico inicial desta onda de calor em Portugal Continental, com as noites mais quentes (localmente é possível que não baixe dos 30ºC), sendo esperados valores de temperatura máxima muito elevados em todo o país, com 40ºC quase generalizados, e com probabilidade de 45ºC com especial incidência nos Vales do Tejo, do Sado e nas planícies do Alentejo. Apesar de não serem máximos históricos (Portugal já registou 47ºC no passado) a duração é o principal problema, como referido
Olhando para o conjunto dos indicadores dos modelos, estes primeiros 8 dias do mês de julho têm forte potencial para serem os mais quentes alguma vez registados em Portugal. A persistência diária de valores tão acima da média (alguns dias até 12ºC), além de mínimas tão elevadas torna esta uma onda de calor “especial”, que deve ser encarada com seriedade, e que as recomendações das autoridades devem ser seguidas à risca

E DEPOIS, QUANDO ARREFECE O TEMPO?
O cenário desenhado pelos modelos não é muito animador, uma vez que a situação de bloqueio se poderá prolongar no tempo. O modelo europeu ECMWF, nas suas atualizações operacionais, assim como “ensemble”, sugere, com probabilidade moderada, que esta onda de calor se pode estender até aos dias 13 ou 14 de julho. Se esta tendência de persistência se vier a materializar (esperemos que não) poderá transformar-se numa das ondas de calor mais intensas e duradouras que já registamos (comparável a 2003, ou à do ano passado)
E, quando falamos do ano passado, todos se lembrarão imediatamente da tragédia dos fogos florestais. É também uma preocupação, e, nesse sentido, é muito importante prevenir, limpando os terrenos em volta das casas, evitando comportamentos negligentes, e, da parte da Proteção Civil, emissão de avisos de nível mais elevado, prontidão especial, para que o combate seja eficaz na fase inicial – depois será difícil de conter os fogos, até porque o vento pode ser pontualmente intenso, de leste
Importa, também, mencionar a margem de incerteza natural associada a previsões que ultrapassam uma semana de distância. Embora o anticiclone se mostre extraordinariamente robusto nas simulações, pequenas oscilações na sua posição, ou a rotação, mesmo que ligeira, do vento, podem alterar esta situação. Para já é um 50-50, o que não é bom – o facto de termos 50% de probabilidade de viver 14 dias de onda de calor com 42 a 45ºC é alarmante, mesmo que não se verifique

Assim, a gravidade do cenário atual é comparável à situação vivida em França recentemente, apresentando contudo uma duração ligeiramente superior no nosso caso (mesmo que termine por volta de dia 8, no melhor cenário). Uma situação desta magnitude causará um impacto severo e inevitável nos nossos ecossistemas, e também nas infraestrutura, particularmente as energéticas, com a demanda por energia para AC a aumentar
Haverá, obviamente, uma pressão generalizada e muito considerável nos serviços de saúde e urgências hospitalares, devido às complicações associadas à desidratação e ao golpe de calor, principalmente nas faixas etárias mais vulneráveis. Esta situação afeta os serviços de saúde em geral, cujo tempo de resposta habitualmente já não é o melhor, e poderá agravar, sendo historicamente previsível que a mortalidade aumente excessivamente
Terminamos respondendo à pergunta: os modelos começam a sugerir que um arrefecimento, ainda que de caráter temporário, poderá surgir um pouco antes do meio do mês, pelo menos em Portugal Continental. A MJO “bloqueada” nas fases 7\8, a convecção no Pacífico e os padrões de larga escala sugerem, contudo, que este pode ser um Verão recorde na Europa, e mais situações de calor extremo se seguem ao longo dos próximos meses

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo no dia 30 de junho de 2026, às 8:48H
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