Frio na Europa? Trovoadas em Portugal em breve? A circulação atmosférica no hemisfério Norte começa finalmente a mostrar sinais de mudança. O vórtice polar estratosférico apresenta previsões de enfraquecimento muito significativo e os modelos meteorológicos determinísticos começam a representar alterações na circulação sobre a Europa, com bloqueios em latitudes elevadas e possibilidade de depressões retrógradas (que se deslocam de leste para oeste, em vez de seguirem a circulação habitual)
Os primeiros dias de novembro poderão, assim, trazer uma descida acentuada das temperaturas a várias regiões da Europa, com entrada de ar de origem polar, geadas e até nevões em algumas regiões, sobretudo nas zonas montanhosas, obviamente. Curiosamente, Portugal deverá viver uma situação praticamente oposta, com temperaturas muito elevadas para a época e possibilidade de uma nova onda de calor, num contraste térmico bastante significativo!
Quando massas de ar com características tão diferentes se aproximam, podem criar-se condições favoráveis ao desenvolvimento de instabilidade atmosférica, incluindo aguaceiros fortes e trovoadas. Contudo, como temos observado nas últimas semanas, isso nem sempre se traduz em precipitação sobre Portugal. A localização das depressões, a disponibilidade de humidade e a distribuição das massas de ar são fatores determinantes para perceber onde ocorrerão os fenómenos mais intensos
Para já os primeiros sinais dos modelos continuam a mostrar uma maior probabilidade de precipitação e trovoadas na região do Mediterrâneo (novamente…) O contraste entre o ar mais frio proveniente do norte da Europa e as águas ainda muito quentes poderá favorecer episódios de instabilidade significativa, especialmente no Mediterrâneo Ocidental. O leste de Espanha merece particular atenção, uma região que nos últimos anos tem enfrentado episódios de precipitação extrema e inundações
E Portugal? Continuaremos sem chuva significativa ou poderemos finalmente assistir a uma mudança? Depois de várias semanas de previsões pouco animadoras, começam a surgir alguns sinais de alteração durante a primeira metade de novembro. Se tivéssemos de apostar, diríamos que alguma instabilidade acabará por chegar, possivelmente acompanhada por trovoadas… chuva persistente? Isso ainda não é visto pelos modelos

TROVOADAS DEPOIS DO CALOR DE VERÃO?
Sim, calor de verão! É precisamente isso que continuamos a prever para o período entre 29 de outubro e 2 ou 3 de novembro, com temperaturas muito acima dos valores habituais para esta altura do ano. Em algumas localidades poderá mesmo verificar-se uma nova onda de calor, que, a confirmar-se, será a décima de 2026, depois de um ano marcado por calor persistente, por vezes fora de época
Os dias de calor mais intenso poderão estar contados. O anticiclone deverá começar a deslocar-se para latitudes mais elevadas, permitindo alterações na circulação atmosférica e uma eventual aproximação de ar mais fresco. A grande questão será perceber se este movimento permitirá finalmente a chegada de alguma instabilidade a Portugal, ou se voltaremos a assistir a mais um bloqueio desfavorável à precipitação
Neste momento, consideramos dois cenários principais: No primeiro, uma nova depressão atlântica mais intensa poderá reorganizar a circulação e favorecer o estabelecimento de altas pressões sobre a Europa Ocidental, prolongando o tempo seco em Portugal. No segundo, que nos parece atualmente mais provável, o ar mais fresco acabará por se aproximar da Península Ibérica, favorecendo a formação ou deslocação de uma bolsa de ar frio em altitude, com possibilidade de aguaceiros e trovoadas, sobretudo entre dias 5 e 15 de novembro

É importante distinguir uma situação de instabilidade ocasional, mesmo que localmente intensa, de uma circulação atlântica verdadeiramente ativa, com sucessivas depressões e frentes características do inverno. Esse segundo cenário continua sem surgir de forma convincente nas previsões. Estamos já a pouco mais de um mês do início do inverno meteorológico, a 1 de dezembro, mas o Atlântico continua longe de nos “enviar” depressões à nossa latitude
Também importa reconhecer que a nossa previsão sazonal para o outono acabou por falhar significativamente, pelo menos até agora. Esperávamos um período bastante mais chuvoso, mas a realidade tem sido praticamente oposta, com temperaturas persistentemente elevadas e precipitação escassa. Setembro foi mesmo o mais quente em registo, segundo o IPMA, e outubro está a terminar sob condições igualmente pouco habituais. Se esta tendência persistir, poderemos terminar com um dos outonos mais quentes e secos das últimas décadas.
Agora que os modelos começam a mostrar uma tendência para maior precipitação ao longo de novembro será necessário acompanhar a evolução dos bloqueios atmosféricos e das depressões no Atlântico. Para já, um período de instabilidade ocasional, possivelmente com trovoadas entre 5 e 15 de novembro, parece-nos mais provável, embora ainda com confiança limitada na previsão exata!

E NAS ILHAS, COMO VAI ESTAR O TEMPO?
Nos Açores a primeira semana de novembro poderá trazer condições bastante diferentes das previstas para Portugal Continental. O anticiclone deverá manter-se relativamente afastado do arquipélago, permitindo uma maior exposição à circulação atlântica e à passagem de perturbações. A tendência aponta para tempo mais húmido, com períodos de chuva ou aguaceiros, vento ocasionalmente mais intenso e temperaturas relativamente amenas, embora com possibilidade de descidas temporárias.
As cartas do modelo climático CFSv2, por exemplo, referentes ao período entre 4 e 11 de novembro, mostram anomalias negativas da pressão atmosférica na região central do Atlântico Norte, incluindo as proximidades dos Açores. Ao mesmo tempo, surgem sinais de precipitação acima da média em parte da região do arquipélago. Esta configuração é compatível com a passagem de depressões ou sistemas frontais
Na Madeira esta situação apresenta maior incerteza. O arquipélago poderá ficar numa zona de transição entre a circulação mais perturbada a Norte e as massas de ar relativamente quentes que persistem nas latitudes subtropicais. Para já as previsões favorecem temperaturas amenas, com períodos de maior nebulosidade, possibilidade de alguma precipitação e vento variável. Não existem, contudo, sinais suficientemente consistentes para antecipar um episódio de chuva significativa
As águas do Atlântico continuam relativamente quentes para a época em várias regiões, contribuindo para manter uma elevada disponibilidade de humidade na atmosfera. Caso alguma depressão se aproxime dos arquipélagos, este fator poderá favorecer precipitação mais intensa, particularmente quando combinado com ar frio em altitude. Há sinais ocasionais nos modelos (em algumas execuções) de surgimento de alguma depressão de origem tropical, que teremos de acompanhar para novembro
Em resumo: os Açores apresentam uma probabilidade mais elevada de tempo húmido e instável durante os primeiros dias de novembro, enquanto na Madeira a evolução permanece mais incerta, com tendência para condições menos perturbadas. No Continente, continuamos atentos à possibilidade de mudança depois do calor anómalo do início do mês. Novembro poderá finalmente trazer alguma chuva e trovoadas, mas ainda falta perceber de que forma. Podemos estar perante uma mudança rápida e repentina, ou o Verão ainda volta em novembro? Vamos ver…

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo às 17:30H de 28 de outubro de 2026
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