Um fenómeno invulgar, ou mesmo inédito, pode surgir no início de novembro: o vórtice polar poderá sofrer uma perturbação verdadeiramente extraordinária numa altura do ano em que deveria estar a fortalecer-se progressivamente com a aproximação do Inverno. As últimas previsões mostram um enfraquecimento muito acentuado da circulação estratosférica sobre o Ártico, com alguns cenários a apontarem mesmo para uma inversão completa dos ventos em altitude
Como temos vindo a explicar nas nossas últimas análises, a circulação atmosférica do Hemisfério Norte começa a apresentar sinais evidentes de reorganização. Depois de várias semanas dominadas por uma corrente de jato muito deslocada para Norte e por fortes bloqueios anticiclónicos, surgem agora perturbações capazes de afetar profundamente a circulação sobre o Ártico, a cerca de 30-40 quilómetros de altitude
A situação é especialmente invulgar porque estamos apenas no início de novembro. Os grandes aquecimentos súbitos estratosféricos acontecem geralmente durante o Inverno, sobretudo entre dezembro e fevereiro. Nas séries modernas, não encontramos episódios classificados como grandes aquecimentos estratosféricos (major SSW) tão cedo como aquele que alguns cenários atualmente sugerem. Contudo, uma perturbação muito forte não significa obrigatoriamente que venha a ocorrer um evento dessa magnitude
E é aqui que surge a pergunta mais importante: poderá esta alteração ajudar finalmente a mudar o tempo em Portugal? O nosso país continua sob influência de um anticiclone extremamente persistente, com temperaturas pouco habituais para a época e uma ausência prolongada de precipitação significativa. Uma reorganização da circulação atmosférica seria, naturalmente, muito interessante, mas ainda não podemos garantir que venha a favorecer a chegada da chuva
Nas próximas semanas teremos, por isso, de acompanhar dois acontecimentos distintos: aquilo que vai suceder na estratosfera e, sobretudo, a forma como essas alterações poderão influenciar a troposfera, a camada inferior da atmosfera onde se desenvolvem as depressões, as frentes e praticamente todos os fenómenos meteorológicos que sentimos à superfície

O QUE ESTÁ A ACONTECER AO VÓRTICE POLAR?
Durante o Outono, à medida que o Ártico perde radiação solar, a estratosfera polar arrefece e estabelece-se uma circulação de ventos fortes de Oeste para Leste. Esta circulação constitui o chamado vórtice polar estratosférico, que normalmente se organiza e intensifica ao longo dos meses mais frios
Contudo, o vórtice não está isolado do resto da atmosfera. Grandes ondulações da circulação, conhecidas como ondas planetárias ou ondas de Rossby, podem transportar energia da troposfera para a estratosfera, perturbando o escoamento habitual. Quando essa energia é absorvida, os ventos podem abrandar, o vórtice pode deslocar-se do Polo Norte, alongar-se ou, em determinadas circunstâncias, dividir-se em duas estruturas
É precisamente este processo que começa a surgir de forma muito evidente nas previsões. A presença de fortes bloqueios anticiclónicos sobre os Urais, a Escandinávia e regiões próximas do Ártico favorece a propagação de energia para níveis elevados da atmosfera. O resultado poderá ser uma perturbação excecionalmente intensa e precoce, acompanhada por um aumento significativo da temperatura na estratosfera polar
Para já parece que teremos um episódio de alongamento do vórtice, e não a sua divisão. Contudo há incerteza, e nenhum dos dois fenómenos nos dá necessariamente maiores probabilidades de chuva ou vento (ou o seu contrário). É o posicionamento da corrente de jato, que terá de ser avaliada diariamente, que poderá definir isso (entre outros fatores)
É mesmo para isso que chamamos à atenção: um vórtice polar enfraquecido não significa automaticamente uma grande mudança do tempo, especialmente quando não temos qualquer certeza que será um “grande aquecimento súbito estratosférico” . Tudo dependerá da intensidade da perturbação, da evolução das ondas planetárias e, principalmente, da resposta dos ventos na troposfera (acoplamento estratosfera-troposfera)

O QUE É UM AQUECIMENTO SÚBITO ESTRATOSFÉRICO, OU SSW?
Um aquecimento súbito estratosférico, conhecido pela sigla inglesa SSW, corresponde a uma perturbação em que a temperatura da estratosfera polar aumenta rapidamente, por vezes várias dezenas de graus em poucos dias. Este aquecimento não significa que o ar quente esteja a subir diretamente da superfície até ao Polo Norte, mas resulta sobretudo de alterações dinâmicas da circulação, incluindo a descida e compressão do ar estratosférico
Os acontecimentos podem apresentar diferentes intensidades. Num SSW menor, observa-se um aquecimento expressivo e uma perturbação da circulação, mas os ventos médios de Oeste podem continuar a dominar. Já num SSW maior, ou major SSW, o critério usado é a inversão dos ventos zonais médios, que passam de Oeste para Leste, normal, para ventos de Leste para Oeste, à latitude de 60ºN e aproximadamente 10 hPa, perto dos 30 quilómetros de altitude
E é aqui que começa logo uma das maiores incertezas. Alguns cenários apontam para um enfraquecimento muito acentuado, mas sem inversão completa dos ventos, enquanto outros sugerem valores negativos já durante a primeira semana de novembro. Se a inversão se confirmar, poderemos estar perante o “SSW” mais precoce das séries modernas, um sinal extraordinário para esta fase do Outono
Contudo, mesmo uma perturbação menos intensa poderá ter consequências relevantes. O fator decisivo não será apenas o valor mínimo da velocidade do vento, mas também a duração do enfraquecimento, a sua distribuição vertical e a capacidade de alterar a circulação atmosférica nas semanas seguintes

COMO PODEMOS PREVER O QUE ACONTECERÁ DEPOIS?
Para perceber a evolução, não basta observar mapas de temperatura a 10 hPa. É necessário acompanhar a velocidade dos ventos a 60ºN (pode fazer no nosso site, na secção de clima global), o transporte vertical de energia, a estrutura do vórtice e a propagação das anomalias para a baixa estratosfera, nomeadamente para os níveis próximos de 100 – 300 hPa (onde circula a corrente de jato de que tantas vezes falamos!)
É também fundamental analisar os conjuntos de previsões, ou “ensembles”. Cada membro representa uma evolução possível da atmosfera e, neste momento, encontramos diferenças muito significativas entre os cenários. Alguns sugerem uma inversão completa dos ventos, enquanto outros mantêm uma circulação enfraquecida, mas ainda de Oeste. Isto significa que existe um sinal bastante forte de perturbação, mas ainda não temos certeza sobre a sua intensidade final (os modelos IA sugerem que será apenas um enfraquecimento…)
Além disso teremos de procurar sinais de propagação descendente das anomalias. Quando existe acoplamento entre a estratosfera e a troposfera, podem ocorrer alterações na Oscilação Ártica, ou AO, e na Oscilação do Atlântico Norte, ou NAO. Uma tendência para valores negativos destes índices pode favorecer bloqueios anticiclónicos em latitudes elevadas e uma deslocação da corrente de jato para Sul
Este processo, quando acontece, pode demorar vários dias ou semanas e os efeitos nem sempre surgem nas mesmas regiões. Um SSW não significa automaticamente frio na Europa, neve em Portugal ou chuva abundante na Península Ibérica. Há acontecimentos com consequências expressivas à superfície e outros cuja influência acaba por ser limitada ou dominada por outros padrões atmosféricos

E EM PORTUGAL? PODERÁ FINALMENTE CHEGAR A CHUVA?
Para Portugal, o cenário mais interessante seria uma reorganização da circulação atlântica, com o anticiclone a deslocar-se para latitudes mais elevadas e as depressões a conseguirem circular mais a Sul. Uma fase negativa da NAO, dependendo da localização dos centros de pressão, poderia favorecer a aproximação de frentes atlânticas e o regresso de períodos de precipitação mais frequente
A localização dos bloqueios anticiclónicos será determinante, e para já não nos parecem favorecer. Se as altas pressões continuarem centradas sobre a Europa Ocidental ou a Península Ibérica, poderemos continuar com tempo seco, mesmo com um vórtice polar perturbado. E se as principais depressões se desenvolverem sobre o Mediterrâneo ou o Centro da Europa, Po
rtugal poderá voltar a ficar relativamente afastado das zonas de maior instabilidade (como tem acontecido)
Os primeiros sinais de maior instabilidade sobre a Europa poderão resultar diretamente das ondulações da corrente de jato, enquanto uma eventual resposta ao enfraquecimento do vórtice poderá tornar-se mais evidente apenas durante a segunda metade de novembro ou em dezembro. Contudo, se o episódio for curto, e o vórtice se reorganizar rápido, podemos não notar nada, e rapidamente o anticiclone ganhar força, novamente…
Assim, a ameaça de seca mantém-se, mas é necessário precaver para uma mudança rápida e inesperada – vários anos anteriores mostraram o que pode acontecer assim que o Atlântico desbloqueia – a chuva vem toda de uma vez, e este ano há mais água precipitável que nunca, pelo que o risco poderá ser maior
Depois de um Outono marcado por calor persistente, bloqueios anticiclónicos e ausência de chuva, uma coisa parece cada vez mais evidente: a atmosfera do Hemisfério Norte poderá estar prestes a entrar numa fase mais dinâmica e com mudanças significativas. Falta saber os efeitos em Portugal, imprevisíveis, e a duração desta situação. Precisamos de chuva, mas preocupa-nos passar rapidamente de uma situação de seca para cheias

Fábio Félix | Luso Meteo – 27 de outubro de 2026
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1 comentário
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