Há alguns anos atrás ( décadas, talvez) era relativamente fácil distinguir as quatro estações do ano em Portugal:. a Primavera trazia temperaturas progressivamente mais amenas, o Verão era quente e seco, o Outono marcava o regresso da chuva e do tempo mais fresco, e o Inverno apresentava temperaturas mais baixas e períodos de precipitação frequente e muita neve nas montanhas. Naturalmente, sempre existiram exceções, mas cada estação parecia ter uma “identidade própria”. E agora?
Estamos a 27 de outubro de 2026 e, em grande parte do país, continuamos a falar de temperaturas próximas dos 30ºC, ausência de chuva e dias que mais parecem de Verão. Não é a primeira vez que acontece, nos últimos anos começa a ser assim, embora este ano se esteja a prolongar ainda mais. A repetição de episódios de calor fora da época habitual levanta uma questão cada vez mais frequente: estaremos a caminhar para um clima com apenas duas estações, uma longa estação quente e outra chuvosa (e não necessariamente fria?)
A própria evolução deste ano de 2026 sustenta esta sensação. Depois de um início de ano marcado por precipitação excecionalmente abundante, com janeiro e fevereiro entre os mais chuvosos das últimas décadas, o padrão atmosférico mudou bruscamente. Março e abril foram secos e quentes, o Verão trouxe novos episódios de calor, e setembro acabou por se tornar o mais quente desde 1931 em Portugal Continental, com uma temperatura média quase 3ºC acima do normal. Entretanto, o Outono meteorológico já vai bastante avançado e a chuva continua a não aparecer
Será que isto significa realmente que a Primavera e o Outono estão a desaparecer ou é apenas variabilidade? A resposta científica é complexa e não podemos dizer com 100% de certeza um “sim ou não”. As estações não vão deixar de existir, nem podemos concluir que Portugal passou oficialmente a ter apenas duas, mas os dados mostram alterações tão significativas na temperatura, na frequência dos extremos e na distribuição mensal da precipitação, que, efetivamente, a transição parece ser Inverno – Verão e vice-versa, sem estações intermédias
Portugal sempre teve um clima marcado por uma estação seca e outra mais chuvosa, especialmente no Continente… faz parte do nosso clima. A verdadeira questão não é, portanto, o calor no Verão, ou a chuva no Inverno, mas sim se o período quente e seco se está a prolongar cada vez mais e os meses de transição estão a perder algumas das características que durante décadas considerámos habituais – e aí parece-nos evidente que sim. Não fossem os dias mais curtos e seria difícil distinguir, muitas das vezes!

PORQUE PARECE QUE A PRIMAVERA E O OUTONO ESTÃO A DESAPARECER?
Uma das principais razões para esta perceção é relativamente simples: o calor está a tornar-se mais frequente e persistente fora dos meses tradicionais de Verão. Quando temos temperaturas superiores a 25-30ºC em março, abril ou, até mesmo, finais de outubro ou novembro, a distinção entre as estações torna-se menos evidente. E nem sequer precisamos de atingir temperaturas extremas para sentir essa diferença – no Verão também temos muitos dias que não vão além dos 25-30ºC
A Primavera continua a existir, naturalmente, mas tem apresentado períodos de calor bastante antecipados, sendo que efetivamente dá ideia que um dos meses de Primavera já foi perdido nos últimos anos, com o desaparecimento das trovoadas de Maio, e com o calor acentuado constante nesse mês. Ainda temos oscilações de temperatura e regimes atmosféricos, que não são novos, mas acontecem agora num contexto de temperaturas médias muito mais elevadas
No Outono está a acontecer algo semelhante, sendo que parece que desde os últimos 10 anos, pelo menos, perdemos um mês, ou mais, de outono propriamente dito, e passamos diretamente ao Inverno. Setembro tem prolongado constantemente as condições de Verão, e outubro tem continuado quente e seco, sendo que tem havido tendência para uma mudança repentina algures entre o meio de outubro e novembro. Isto não significa que seja sempre assim, mas a tendência é clara (basta lembrar, infelizmente, outubro de 2017…)

O problema que achamos importante realçar é que temos tendência a passar a extremos opostos: depois de várias semanas sem chuva, surgem depressões Atlânticas sucessivas, frentes muito ativas e episódios de precipitação intensa que nos atiram para grandes cheias com frequência. A mudança torna-se então bastante brusca, dando a impressão de que passámos diretamente do Verão para o Inverno. É precisamente este contraste que alimenta a ideia de um país com apenas duas estações. E o mesmo acontece depois – de repente “fecha a torneira”, o calor aparece, e o Verão chega… antes do tempo
Convém recordar que mesmo o próprio inverno perdeu boa parte do frio habitual: cada vez há menos geada, e, na maioria dos anos, também há pouca neve. A memória meteorológica nem sempre é totalmente fiel, costumamos dizer que é “traiçoeiras”, pois tendemos a recordar os episódios mais marcantes, como ondas de calor, cheias, nevões ou tempestades, esquecendo semanas de tempo relativamente normal. Mas olhemos então para os dados climáticos. O que nos dizem?

OS DADOS MOSTRAM QUE O CLIMA PORTUGUÊS ESTÁ DE FACTO A MUDAR!
Quando analisamos esses dados, encontramos sinais evidentes de mudança. Segundo estudos desenvolvidos, inclusivamente com participação do IPMA, a temperatura média em Portugal Continental aumentou cerca de 0,3ºC por década desde meados dos anos 70, um ritmo significativo (perto de 2ºC desde então). O aquecimento não se manifesta apenas nas tardes mais quentes, mas também nas temperaturas mínimas, com menos noites frias e maior frequência de noites muito quentes
Os dados IPMA identificam igualmente uma tendência para mais ondas de calor, episódios mais prolongados e aumento da frequência de dias e noites muito quentes. E estas ondas de calor não ocorrem só no Verão – já começam a ocorrer com frequência também na Primavera e Outono (até inverno!)
Quanto à precipitação… a análise da situação é mais complexa. Portugal apresenta uma enorme variabilidade de ano para ano e de região para região, pelo que não podemos afirmar que está a chover cada vez menos em todos os meses ou em todo o território. Há sinais evidentes de menos chuva no Sul do país, embora alguns anos acabem por “compensar” a média, no tal cenário “8 ou 80” que muitas vezes descrevemos. Existem sinais claros de redução da precipitação na Primavera, ainda assim, ao olharmos para as séries climáticas

Olhando especificamente a 2026, novamente, vemos bem como estes contrastes podem ser impressionantes. Em fevereiro, a precipitação média em Portugal Continental atingiu cerca de 242l/m2, cerca de 3 vezes o valor habitual. Já em setembro caíram apenas 12,7l/m2 (em média), aproximadamente 30% da média, sendo que em outubro ainda choveu menos em relação à média. Num intervalo de poucos meses passámos de solos saturados e cheias para uma situação de seca evidente e crescente
O que os dados nos permitem afirmar é que o aquecimento global está bem documentado, e é fácil de perceber, e está a alterar as condições em todo o mundo. Em Portugal os episódios de seca aumentam, o calor aumenta e surge fora de época e a precipitação é mais imprevisível. Uma atmosfera mais quente pode transportar mais vapor de água, mas isso não significa automaticamente que vá chover mais em Portugal – o anticiclone por vezes bloqueia tudo, e temos seca. Apenas para ser seguida por mais um período de chuva extrema!

VAMOS MESMO PASSAR A TER APENAS DUAS ESTAÇÕES?
Se formos 100% rigorosos, não… Portugal continuará a ter Primavera, Verão, Outono e Inverno… A duração do dia, a altura do Sol continuarão a existir (naturalmente) e as diferenças sazonais de temperatura também. O que pode (e já está a mudar) são as condições meteorológicas que associamos a cada uma dessas épocas
É assim bastante possível que, durante as próximas décadas, passemos a ter uma estação quente e seca mais longa, acompanhada por períodos de transição bruscos e irregulares. Em algumas regiões, sobretudo no Sul e no Interior, esta evolução poderá tornar-se particularmente evidente, com maior pressão sobre os recursos hídricos, a agricultura e os ecossistemas!
É ainda importante separarmos o Continente dos Açores e Madeira. Os arquipélagos têm características climáticas bastante distintas, devido à influência do oceano, entre outras fatores. Nos Açores a maior mudança pode ser o risco crescente para calor abafado, e para situações de génese tropical, enquanto na Madeira podemos ter uma estação quase contínua, o Verão, com calor persistente, quase sem chuva… mas quando chove pode ser “tudo de uma vez”. O Inverno pode passar a ser apenas um ou dois meses, e não propriamente muito frios!
Mais cedo ou mais tarde, este ano, as depressões atlânticas poderão regressar, e estamos convictos de que teremos chuva, vento e temperaturas mais baixas – o inverno! Mas isso não altera a questão de fundo: episódios de tempo frio ou chuvoso não apagam uma tendência de aquecimento, da mesma forma que um dia de 30ºC em outubro, isoladamente, não demonstra uma alteração climática. O problema é mesmo acontecer de forma recorrente e consistente
A melhor forma de olhar para o futuro não é perguntar se as quatro estações vão desaparecer, mas sim até que ponto continuarão a parecer-se com aquelas que conhecíamos até há uns anos atrás. O calendário vai continuar exatamente igual, mas se esquecermos o calendário, e a duração dos dias, que nada tem a ver com meteorologia, naturalmente, será cada vez mais difícil dizer se estamos no outono ou no verão, por exemplo, e isso não é normal… Mas é a nova realidade, a que nos temos de adaptar

Fábio Félix | Luso Meteo – 27 de outubro de 2026 – 7H
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