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Há uma onda de calor marinho severa nos Oceanos que banham a costa de vários países Europeus neste momento, com tendência a piorar. Este fenómeno é mais um sinal de grave desequilíbrio do clima, neste Verão de 2026. A temperatura da água do mar em várias costas Europeias está a registar valores muito elevados, muito acima do normal, com anomalias impressionantes que oscilam entre os 3ºC e os 7ºC!
Durante a atual semana, de 13 a 19 de julho, também a Costa Ocidental Portuguesa verifica esta situação invulgar, podendo registar valores de temperatura da água na Costa Ocidental da ordem dos 23ºC a 24ºC ,localmente. Trata-se de um cenário incomum para o litoral Oeste. Contudo, ainda mais incríveis são os registos de 25ºC a 27ºC na Costa Atlântica Francesa e até 21ºC na costa sul de Inglaterra
Os habitantes de Inglaterra, habituados a águas gélidas nas suas praias, e que tantas vezes escolhem o Algarve para passar as suas férias de verão, este ano nem precisam de viaja:. Têm calor e água quente com fartura mesmo à porta de casa, algo muito raro. Por um lado, este cenário parece bom – afinal quem não gosta de ir à praia e ter água quentinha para banhos? – mas há um “lado oculto” profundamente preocupante
Este aquecimento gigantesco da camada superficial dos oceanos acumula uma quantidade de energia muito significativa, que poderá trazer efeitos complexos e perigosos mais para a frente, conforme exploraremos ao longo deste artigo. Talvez um sinal ainda de maior alerta é o Mar Mediterrâneo, que tem atualmente um comportamento que mais parece o do Golfo do México, com a temperatura da água a atingir impressionantes 30 a 31ºC em várias localizações durante os próximos dias

ONDA DE CALOR MARINHO – FENÓMENO SEVERO, POTENCIALMENTE IMPACTANTE
Os efeitos desta onda de calor marinho severa nos países afetados fazem-se sentir logo na dinâmica atmosférica. A permanência de águas excessivamente quentes irá servir de “combustível” para a atmosfera. Caso se verifique a aproximação de depressões ou perturbações em altitude a estas regiões nas próximas semanas (algo que pode acontecer à medida que avançamos para agosto), o choque térmico e a imensa evaporação em curso vão aumentar drasticamente o risco de fenómenos severos
Existe, por isso, um risco significativamente aumentado de desenvolvimento de tempestades muito mais severas do que o habitual nestas regiões. A forte libertação de calor a partir da superfície oceânica tem o potencial de cavar sistemas depressionários de forma explosiva (ciclogéneses), mas, principalmente, de propiciar níveis de água precipitável muito incomuns
Tudo isto pode originar episódios de vento forte, e principalmente precipitação torrencial, que podem levar a situações de cheias repentinas severas, em locais que, para já, estão a ser afetados por uma forte seca
França, particularmente, passou do estado “verde” do Inverno para um estado bastante mais amarelado (falamos de aspeto em satélite) nos últimos 2 meses, fruto do Verão absurdamente quente que este país tem vivido. Infelizmente não há melhoria à vista, e, como estamos a analisar, quando mudar… pode ser do 8 para o 80

Para além do perigo meteorológico, este aquecimento contínuo tem um impacto (talvez) mais devastador nos ecossistemas marinhos. Todo este stress térmico prolongado provoca condições muito desfavoráveis para a diversidade marinha, e acelera o branqueamento de corais. Várias espécies nativas de algas e bivalves, por exemplo, enfrentam surtos de mortalidade massiva, uma vez que não conseguem aguentar águas tão quentes no seu habitat natural
Assistimos também a uma alteração forçada nas rotas de migração de peixes, com as espécies nativas a fugirem em direção a latitudes consideravelmente mais frias, mais a Norte. Por outro lado, este aquecimento abre também as portas à proliferação de espécies invasoras, além de microalgas tóxicas. Fala-se muito das ondas de calor quando afetam terra, mas as ondas de calor no mar são um problema igualmente enorme, que tem muito menos destaque (e não devia)

ATÉ QUANDO VAI CONTINUAR?
Até quando este bloqueio durar! A ausência prolongada da típica nortada em Portugal Continental tem impedido o habitual fenómeno de upwelling (afloramento de águas profundas e frias), surgindo apenas de forma muito pontual. Com a circulação geral bloqueada, com alta pressão a Norte, o resto do verão poderá ficar marcado por água excessivamente quente na nossa costa, o que se traduz num duplo cenário para o nosso país
- Por um lado garante banhos excecionalmente confortáveis para os praticantes, o que pode ser visto como algo positivo, podendo contribuir para um aumento até do turismo (embora muitos países que seriam origem desse mesmo turismo tenham condições tão boas, que possivelmente, como já referimos, nem precisam de vir à procura de tempo melhor)
- Por outro lado, contudo, a persistência destas anomalias térmicas positivas no Atlântico aumenta de forma preocupante o risco de aproximação e transição de algum sistema tropical ou subtropical em direção à Península Ibérica. Felizmente, como já tivemos oportunidade de referir, esta é uma época de furacões muito calminha. mas, para o outono, as condições para fenómenos subtropicais, com chuva excessiva, pode surgir
A atmosfera sobrecarregada de humidade encontrará condições ideais para gerar rios atmosféricos muito significativas, potenciados também pelo fenómeno El Niño, que continua a intensificar-se a ritmo recorde, algo que já mencionámos detalhadamente em análises anteriores – e que atinge o pico precisamente no outono e inverno
No Mar Mediterrâneo a tendência de curto e médio prazo aponta para a manutenção de águas muito quentes, talvez até em aquecimento. Com os modelos a projetarem o regresso da alta pressão sobre o Reino Unido durante a terceira semana de julho, torna-se muito difícil prever um arrefecimento das águas no Golfo da Biscaia, nas Ilhas britânicas e talvez até em países situados um pouco mais a Norte e a Leste. Este verão pode dar que falar, em todos os aspetos, e, para já, continuamos atentos à evolução – as alterações climáticas “não perdoam”…

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 8H de 13 de julho de 2026
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