Apesar de se ter verificado muito ceticismo inicial em relação à formação de um “Super El Niño”, por parte de vários especialistas, as projeções a longo prazo começam a revelar-se inteiramente certeiras. Os dados mais recentes de monitorização oceânica não deixam margem para dúvidas, mostrando que a anomalia térmica na região 3.4 do ENSO já alcança os 1.5ºC de desvio positivo. Este valor confirma que estamos perante um El Niño forte, desde já, e a fortalecer rapidamente
Existe atualmente uma grande quantidade de água quente em subsuperfície acumulada no Pacífico Equatorial. Esta energia deverá continuar a emergir em direção à superfície nos próximos meses. Com base nestes últimos dados registados, os modelos de previsão têm vindo a ajustar consecutivamente as suas projeções, alinhando-se de forma muito clara – os mais “pessimistas” mantém a previsão pessimista, os mais “otimistas” infelizmente foram atrás
As simulações mais fiáveis dos vários modelos e centros de previsão mundiais apontam agora, de forma unânime, para a formação de um Super El Niño histórico. Os cenários mais severos sugerem que as anomalias de temperatura à superfície da água do mar poderão atingir uns impressionantes 3.5 a 4.5ºC acima da média. Este valor, a confirmar, colocaria este evento num patamar nunca observado na era moderna
Com este novos dados, os modelos de previsão sazonal começam finalmente a responder a este aquecimento extremo Oceânico, mostrando alterações profundas na circulação atmosférica global. À medida que a atmosfera reage a esta enorme energia no Pacífico, torna-se altamente provável que verifiquemos, ao longo dos próximos meses, o estabelecimento de padrões climáticos globais que nos podem trazer extremos meteorológicos
Se durante o presente verão temos assistido à persistência de altas pressões sobre o Noroeste Europeu, favorecendo o calor que temos visto, o cenário mudará no Outono. Os sinais apontam para uma reativação da atividade subtropical, o que poderá deslocar o trajeto das depressões Atlânticas para sul, trazendo um aumento substancial da precipitação e da instabilidade à Europa Ocidental – incluindo, possivelmente, Portugal

SUPER EL NIÑO – DEPOIS DO CALOR NO VERÃO, UM OUTONO E INVERNO COM CHEIAS?
Depois de um Verão quente, a transição para o outono poderá ser marcada por uma viragem radica no tempo, possivelmente brusca, com possíveis efeitos notórios na Península Ibérica. Com a atmosfera “sobrecarregada~2 de humidade, e um jato subtropical potencialmente amplificado, o cenário favorece chuvas excessivas a partir de outubro ou novembro, quando ainda temos na memórias as terríveis cheias do início de 2026
Historicamente, os anos sob a influência de episódios El Niño fortes traduzem-se, em Portugal, numa probabilidade superior de chuvas intensas e persistentes. Historicamente existe essa ligação, embora seja uma ligação ténue, considerada estatisticamente pouco relevante. Mas este não é um El Niño qualquer – e a atmosfera deve responder de forma mais intensa
A formação de rios atmosféricos pode vir a ser provável, com níveis recorde de água precipitável. Por outro lado, o Inverno costuma apresentar-se menos frio do que a média, reduzindo a probabilidade de grandes nevões, ou, pelo menos, a sua frequência

Outro fator que devemos realçar é a atividade tropical, que, como esperávamos, continua ausente do Atlântico. Esta situação, durante o pico do Verão, pode fazer com que a energia térmica acumulada persista para o Outono e Inverno. Este excedente de energia poderá fortalecer a corrente de jato polar, aumentando a possibilidade de ciclogéneses explosivas\tempestades
Globalmente, os impactos deste acoplamento oceano-atmosfera deverão ser dramáticos em várias regiões. Esperam-se secas severas em alguns locais, particularmente no Sudeste Asiático e na Austrália, contrastando com dilúvios e inundações catastróficas na costa Oeste Americana e na América Central\Sul. Embora persista a habitual incerteza na localização exata dos impactos locais mais graves, devemos ficar desde já preparados para estas possibilidades

COMO SE COMPARA ESTE EL NIÑO COM ANTERIORES?
As previsões atuais colocam este evento num patamar superior, potencialmente recorde absoluto na climatologia moderna. Os dados sugerem que a intensidade deste Super El Niño poderá superar marcas históricas de eventos (catastróficos) do passado, ultrapassando mesmo o famoso evento do ano de 1877. Estamos perante uma anomalia que poderá reescrever história
Ao analisarmos outros episódios famosos de El Niño, como 1982/83, 1997/98 ou o mais recente de 2015/16, as simulações atuais indicam que este novo episódio será bastante mais intenso. A taxa de aquecimento observada no Pacífico Leste é atualmente muito mais rápida, e ameaça gerar efeitos socio-económicos e ecológicos substancialmente mais drásticos
Numa altura em que o planeta se encontra numa situação limite (1.5ºC de anomalia vs 1850-1900), arriscamo-nos a aproximar-mo-nos, ou quebrarmos, temporariamente, a barreira crítica de 2ºC de aquecimento global em relação à era pré-industrial
Embora o ENSO seja um fenómeno natural e cíclico bem conhecido, a verdade é que o contexto atual das alterações climáticas antropogénicas potencia a intensidade deste fenómeno particular. Por essa razão, o mundo poderá enfrentar situações humanitárias e infraestruturais muito complicadas nos próximos meses (anos?), com fortes e inevitáveis impactos nas populações mundiais

Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 15:20H de quarta, 8 de julho de 2026
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