TEMPO EM AGOSTO – CALOR, SIM, EXTREMOS? TALVEZ NÃO…
O tempo em Agosto deverá manter a tendência de temperaturas acima da média em praticamente todo o território Português, que já verificámos em junho e julho. Parte desta anomalia explica-se pela temperatura anormalmente elevada da água do Atlântico junto à Costa Ocidental, que favorece noites mais quentes e máximas ligeiramente superiores ao normal nas regiões litorais, mesmo quando não existem massas de ar particularmente quentes sobre a Península Ibérica
Ao mesmo tempo, continuará a existir uma tendência para entradas ocasionais de massas de ar muito quente provenientes do Norte de África. No entanto, os atuais sinais atmosféricos sugerem que estes episódios poderão ser relativamente curtos e intercalados com períodos de maior influência marítima. A tendência para MJO (Madden-Julian Oscillation) nas fases 6 e 7 durante o início do mês favorece um anticiclone mais deslocado para Norte, permitindo a aproximação ocasional de perturbações atlânticas que deverão moderar o calor
No Interior do país continuarão a ser frequentes máximas superiores a 35ºC, sendo provável que em vários dias sejam novamente atingidos 40ºC em algumas regiões. Apesar disso, a maior mobilidade da circulação atmosférica torna menos provável a ocorrência de ondas de calor prolongado. Recorde-se que uma onda de calor exige, pelo menos, seis dias consecutivos com temperaturas cerca de 5ºC acima da média climática. Ainda assim, picos isolados entre 43 e 45ºCc ontinuam perfeitamente possíveis caso se estabeleça uma massa de ar quente sobre a Ibéria
A partir da segunda metade do mês aumenta significativamente a incerteza das previsões. Além da habitual redução da previsibilidade a longo prazo, existe também a possibilidade de desenvolvimento de ciclones tropicais ou subtropicais, cuja evolução poderá alterar de forma significativa a circulação atmosférica. Por esse motivo, os últimos 10 a 15 dias de agosto apresentam um grau de confiança da previsão inferior ao da primeira quinzena, e mesmo inferior ao normal neste tipo de previsões
Podemos desde já ver no gráfico do ensemble GEFS que as linhas superiores (temperatura) são uma “montanha-russa”, com subidas e descidas, e apesar da incerteza, notamos desde já a palavra chave do mês: variabilidade! Logo de seguida pode ler a previsão resumida, que lhe dá logo uma boa ideia de como pode ser o mês!

RESUMO DA PREVISÃO
- Temperatura: Prevemos um mês com temperaturas 1 a 2ºC acima da média em Portugal Continental, assim como nos Açores e Madeira. Ondas de calor são possíveis, mas, para já, a probabilidade é baixa a moderada, embora episódios\picos de calor intenso continuem a ocorrer – provavelmente com destaque para o período 8 a 15 de agosto, e, posteriormente, mais perto do final do mês, novamente
- Precipitação: Espera-se precipitação dentro ou ligeiramente abaixo da média no Continente, com possibilidade de alguns episódios de chuva fraca (principalmente na primeira semana) e trovoadas, sobretudo durante a segunda quinzena. Na Madeira a precipitação deverá ficar abaixo da média, enquanto nos Açores poderá ser superior ao habitual
- Vento: Os primeiros dez dias deverão ser marcados por vento de Oeste ou até de Sudoeste, seguindo-se provavelmente alguns dias de nortada. Na segunda metade do mês aumenta a probabilidade de regressarem fluxos de Sul ou mesmo de Leste. Na Madeira o vento deverá manter-se geralmente fraco a moderado, enquanto os Açores poderão voltar a ser influenciados por algumas depressões, com mais vento
- Praias: A temperatura da água do mar deverá permanecer acima da média na Costa Ocidental durante grande parte da primeira quinzena. No Algarve espera-se uma tendência inversa, com águas mais quentes durante a segunda metade do mês. Açores e Madeira deverão continuar com águas muito agradáveis, ou até quentes
- Nebulosidade: Continuará a ser frequente a formação de neblinas e nevoeiros matinais no litoral, mas dissipando geralmente ao longo do dia. Prevê-se um número reduzido de dias com nebulosidade persistente

FURACÕES PODEM SURGIR FINALMENTE EM AGOSTO
Apesar do mês de agosto corresponder normalmente ao pico da época de furacões no Atlântico, a Região Principal de Desenvolvimento (MDR) continua sob influência de cisalhamento vertical do vento intenso, consequência do atual episódio de El Niño. Estas condições continuam a dificultar o desenvolvimento de ciclones tropicais nas latitudes tropicais, sem os habituais ciclones do tipo “Cabo Verde” que percorrem milhares de quilómetros e se tornam “monstros”
Por outro lado os modelos meteorológicos mostram uma subida gradual da temperatura da água do mar para valores entre 26 e 28ºC nas latitudes subtropicais, algumas centenas de quilómetros a sul dos Açores e da Madeira. Estas condições poderão tornar essa região mais favorável ao desenvolvimento de ciclones subtropicais ou mesmo tropicais, principalmente entre a segunda semana e a segunda metade do mês (e setembro\outubro, claro) uma vez que ai o referido cisalhamento, que inibe desenvolvimento, deve ser menos significativo
Caso esses sistemas tropicais se desenvolvam, existe uma probabilidade superior ao habitual de afetarem os arquipélagos. A configuração atmosférica prevista, com um anticiclone frequentemente localizado mais a Norte, entre a Gronelândia e a Escandinávia, poderá facilitar trajetórias mais orientadas para Nordeste, permitindo uma maior aproximação aos Açores ou, em alguns casos, à Madeira
Para já, continua a ser pouco provável que algum destes eventuais ciclones afete diretamente Portugal Continental. O cenário mais provável continua a ser uma curva para Norte antes da aproximação ao Continente, situação que frequentemente favorece entradas de ar muito quente sobre a Península Ibérica
Olhando já para o outono, e tal como temos referido em artigos anteriores, a redução gradual da radiação solar e o fortalecimento progressivo do vórtice polar poderão favorecer uma maior frequência de fluxos subtropicais húmidos, aumentando o potencial para períodos de precipitação mais significativa

RISCO DE INCÊNDIO SERÁ MUITO ELEVADO EM AGOSTO
As condições meteorológicas previstas para agosto continuam a apontar para um risco de incêndio muito elevado em grande parte do território continental. As temperaturas acima da média, os baixos valores de humidade relativa, pelo menos durante a tarde, e a escassez de precipitação significativa contribuirão para manter a vegetação extremamente seca e “disponível”
Embora não se preveja um mês dominado por ondas de calor persistentes, bastarão alguns dias consecutivos de temperaturas muito elevadas, associados a vento moderado ou forte, para criar condições muito favoráveis à rápida propagação de incêndios. Os episódios de nortada, ou algum fluxo Sul podem aumentar esse risco. Se surgir algum fluxo leste o risco é maior, devido a redução de humidade noturna (segunda quinzena, eventualmente)
Ao longo das últimas semanas Portugal já enfrentou vários incêndios de grande dimensão, mas infelizmente a época crítica está longe de terminar. Nos últimos anos tem-se observado uma tendência clara para o prolongamento da época de incêndios, com ocorrências relevantes não apenas durante agosto, mas também em setembro e, por vezes, até durante o outono – isto deve-se, claro, à extensão do Verão durante mais e mais tempo nos últimos anos
Por esta razão será essencial manter elevados níveis de prevenção durante todo o mês. Evitar comportamentos de risco, cumprir as eventuais restrições em vigor e adotar todas as medidas de prevenção continua a ser fundamental para reduzir o número de ignições e minimizar o impacto de eventuais incêndios

PREVISÃO DO TEMPO EM AGOSTO NO PLANETA
Na Europa o mês de agosto deverá começar com condições relativamente mais húmidas no Norte do Continente devido à passagem de algumas depressões Atlânticas. No entanto, essa tendência deverá inverter-se rapidamente, sendo provável um mês geralmente mais seco no Norte da Europa. Por outro lado, mais a Sul, e especialmente na região do Mediterrâneo, poderá haver maior instabilidade, com episódios de chuva intensa, trovoadas e fenómenos localmente severos
Nos Estados Unidos a persistência de calor extremo continua a ser o cenário mais provável, sobretudo nos estados do Oeste e Centro, como já verificamos em julho. Os modelos mantêm a formação frequente de cristas anticiclónicas sobre a Costa Oeste, que podem ser reforçadas pela presença de ciclones tropicais intensos no Pacífico Leste, favorecendo novas ondas de calor e um agravamento do risco de incêndio em várias regiões, especialmente no estado da Califórnia
Na Ásia podemos observar os sinais clássifcos de um episódio forte de El Niño, com tempo mais seco no Sudeste Asiático, enquanto o Pacífico Noroeste deverá manter uma atividade tropical muito acima da média, com formação de vários tufões intensos, que podem afetar particularmente a China, Taiwan, Japão e as Coreias. Na América Central deverá predominar tempo mais seco, enquanto grande parte da América do Sul poderá registar mais precipitação e até algumas situações de tempestade
Globalmente tudo indica que agosto voltará a ser um mês excecionalmente quente. Depois de alguns meses em que a anomalia da temperatura média global se situou próxima de 1,4ºC acima do período de referência de 1850-1900, prevê-se um novo aumento, podendo voltar a ultrapassar 1,5ºC, muito por culpa da temperatura dos oceanos, que bate recordes há 2 meses consecutivos…

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 10:15h de 31 de julho de 2026
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