A partir da tarde deste domingo o tempo irá sofrer um agravamento, com previsão de trovoadas, risco de granizo, chuva forte e, ainda, fenómenos de vento localizados. A entrada de ar mais frio irá criar condições favoráveis ao desenvolvimento de instabilidade atmosférica acentuada. Segundo os modelos meteorológicos, os valores de energia potencial convectiva disponível (CAPE) poderão atingir 1000 a 2000 J/kg, que, em conjunto com outros parâmetros atmosféricos favoráveis, como o cisalhamento vertical do vento, a helicidade e a disponibilidade de humidade, poderão favorecer a formação de fenómenos meteorológicos extremos localizados
Vários modelos meteorológicos começam já a representar este cenário, incluindo o nosso algoritmo experimental de previsão de fenómenos extremos de vento, inicialmente nas regiões do Sul e do litoral Oeste\Sul, evoluindo posteriormente para Norte e para o interior do território. É importante salientar que estas previsões representam condições de risco, e não certezas quanto à ocorrência de fenómenos extremos
Como referimos há alguns dias a depressão Bruna apresenta algumas semelhanças com a depressão Cláudia, de novembro de 2025, e as últimas previsões continuam a reforçar essa “comparação”. Apesar de estar mais longe, inicialmente, deverá agora trazer períodos de chuva abundante, trovoadas, vento por vezes forte e agitação marítima significativa
A persistência da instabilidade e os elevados acumulados de precipitação podem ser o maior fator de risco nos próximos dias. Em termos de vento à escala nacional, e apesar do risco de fenómenos extremos localizados, não se prevê uma situação excecional (rajadas de 70 a 90km/h no litoral e terras altas, respetivamente, de uma forma geral)
Nos últimos dias assistimos a um afastamento bastante significativo da depressão em relação às trajetórias inicialmente previstas, devido sobretudo à influência de uma dorsal anticiclónica de origem africana. Esta alteração acabou por atrasar a chegada da instabilidade mais significativa a Portugal Continental, permitindo um fim-de-semana mais quente e seco do que inicialmente antecipado. A mudança deverá começar a fazer-se sentir com maior intensidade no final da tarde deste domingo, com a aproximação de uma frente. De seguida explicamos os principais riscos para as próximas horas e o que poderá acontecer ao longo da semana

TROVOADAS, RISCO DE FENÓMENOS EXTREMOS DE VENTO E CHUVA FORTE
A partir do final da tarde deste domingo, dia 8 de novembro, e depois de um início de dia muito quente para a época do ano, as temperaturas deverão começar a descer significativamente em várias regiões de Portugal Continental. A aproximação de ar mais frio, acompanhada pelo aumento da nebulosidade e da humidade, irá favorecer o desenvolvimento de instabilidade atmosférica, com possibilidade de formação de células convectivas bastante fortes. Em algumas regiões poderão existir condições favoráveis à formação de supercélulas
Mas o que é, afinal, uma supercélula? Trata-se de um tipo de trovoada organizada, caracterizada pela presença de uma corrente ascendente de ar persistente e em rotação. Ao contrário das trovoadas mais comuns, que tendem a ter uma duração relativamente curta, as supercélulas podem manter-se ativas durante períodos mais prolongados e percorrer largas distâncias, produzindo chuva muito intensa, granizo de grandes dimensões e rajadas de vento destrutivas. Em determinadas condições, podem também originar tornados, embora nem todas as supercélulas os produzam
Neste contexto não podemos excluir a ocorrência de fenómenos meteorológicos severos localizados nas próximas horas. As regiões inicialmente mais expostas deverão ser a Área Metropolitana de Lisboa, o Oeste, a Costa Alentejana e o Algarve, tendo em conta a orientação prevista do fluxo atmosférico, predominantemente de Sudoeste para Nordeste. O agravamento poderá ocorrer entre o final da tarde e a noite de domingo, com passagem de células de trovoada potencialmente intensas

Com o avanço da frente durante a madrugada e manhã de segunda-feira, as condições mais favoráveis à ocorrência de episódios semelhantes poderão deslocar-se progressivamente para o interior e para regiões mais a Norte. Algumas localidades poderão registar apenas chuva e trovoada moderada, enquanto outras, eventualmente próximas, poderão ser atingidas por fenómenos bastante mais intensos – são sempre situações imprevisíveis e localizadas
Mesmo com modelos meteorológicos de elevada resolução a previsão deste tipo de fenómenos continua a ser um enorme desafio. O que podemos fazer é identificar as regiões onde a combinação dos diferentes parâmetros atmosféricos torna a sua ocorrência mais favorável. É precisamente isso que mostram os mapas experimentais da Luso Meteo, apresentados abaixo, que devem ser interpretados como indicadores de risco e não como previsões de ocorrência garantida

Além das trovoadas, da chuva intensa e das rajadas de vento, os nossos modelos também simulam condições bastante favoráveis à ocorrência de granizo, com diâmetro que pode ultrapassar os 2 a 3cm. O IPMA já emitiu avisos meteorológicos relacionados com o agravamento previsto, enquanto os avisos Luso Meteo estão a ser gradualmente ativados em função da evolução da situação e dos riscos identificados pelos nossos modelos. Poderá acompanhar os avisos atualizados AQUI
A instabilidade não terminará com a passagem desta primeira frente, uma vez que a depressão Bruna manterá a sua influência durante vários dias, e a sucessiva interação entre massas de ar de diferentes características poderá voltar a criar condições favoráveis a trovoadas organizadas e a fenómenos de vento mais intensos ao longo da próxima semana. Estes possíveis episódios adicionais continuam em análise, não sendo ainda possível determinar com segurança os dias ou regiões onde o risco poderá ser mais elevado

SEMANA DE TEMPESTADES? CHUVA PODE SER EXCESSIVA
A próxima semana deverá ser muito chuvosa em Portugal Continental, com possibilidade de acumulados bastante elevados em apenas sete dias. Apesar de ainda existirem dúvidas sobre a distribuição e intensidade exatas da precipitação, a maioria dos modelos meteorológicos aponta para um período prolongado de instabilidade, associado à influência da depressão Bruna e à interação entre massas de ar de origem tropical e polar
Os sinais relativamente à quantidade de precipitação são bastante consistentes. A grande maioria dos modelos prevê acumulados superiores a 250 l/m² nos próximos sete dias em algumas zonas do Minho e em áreas montanhosas, enquanto grande parte de Portugal Continental poderá registar valores entre 70 e 150 l/m². Em várias regiões, estes quantitativos poderão representar o equivalente à precipitação normalmente registada durante um mês inteiro, concentrada em apenas uma semana
A persistência da precipitação poderá começar a criar problemas, especialmente se os episódios de chuva mais intensa afetarem sucessivamente as mesmas regiões. Apesar de os solos se encontrarem relativamente secos em muitas zonas, devido à escassez de chuva dos últimos meses, a capacidade de infiltração não é ilimitada. A acumulação de precipitação em períodos curtos poderá favorecer enxurradas, inundações localizadas e subidas rápidas dos caudais, sobretudo em áreas urbanas, pequenas bacias hidrográficas e zonas montanhosas

Vários modelos meteorológicos simulam também acumulados superiores a 400 l/m² em zonas montanhosas do Maciço Central espanhol, ao longo dos próximos dias. Parte desta precipitação poderá ter repercussões importantes nas bacias hidrográficas que alimentam albufeiras espanholas, incluindo na bacia do Tejo. Dependendo da distribuição da chuva, da capacidade de armazenamento disponível e da gestão das barragens, poderá verificar-se uma subida considerável das reservas de água, com possíveis reflexos também nos caudais a jusante, em Portugal
Para já, não antecipamos um cenário de cheias generalizadas no Tejo, embora a evolução da precipitação e das descargas das barragens deva ser acompanhada atentamente. Esta mudança do padrão atmosférico poderá trazer benefícios importantes, desde que não seja em excesso. Depois de um outubro muito quente e seco, é bastante provável que a precipitação prevista permita terminar ou aliviar significativamente a seca meteorológica em boa parte de Portugal Continental.
E há ainda outra situação que não podemos ignorar: quarta-feira, dia 11 de novembro, continua a apresentar um possível risco meteorológico moderado a elevado, associado à eventual formação de uma nova depressão no Atlântico, entre a Madeira e Portugal Continental. Alguns modelos, especialmente os baseados em inteligência artificial, continuam a simular a possibilidade de um ciclone com potencial para produzir condições adversas, embora ainda não possamos adiantar informação mais rigorosa (a acompanhar)
Mantenha-se atento às nossas atualizações e aos avisos meteorológicos, tanto para estes primeiros dias da semana, como para um eventual agravamento na quarta-feira

Artigo elaborado por Fábio Félix | Luso Meteo, às 8h40 de domingo, 8 de novembro de 2026
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