A partir de sexta-feira, 6 de novembro, Portugal poderá entrar num período prolongado de instabilidade atmosférica, devido a uma depressão a que estará associado um rio atmosférico, com vários dias de chuva, por vezes intensa, intercalada com períodos de abertas. A situação deverá ser marcada sobretudo por aguaceiros e trovoadas, embora também estejam previstas algumas frentes mais organizadas. Na sua passagem, estas perturbações poderão provocar inundações e fenómenos meteorológicos localmente severos
Conforme já referimos nas nossas previsões anteriores, a depressão responsável por esta mudança poderá vir a ser nomeada Bruna, provavelmente pelo IPMA, caso se confirmem os impactos significativos previstos para Portugal. Os modelos continuam a mostrar acumulados elevados de precipitação, rajadas ocasionalmente fortes e possibilidade de trovoadas intensas, numa situação que poderá afetar grande parte do território durante vários dias consecutivos
Os algoritmos da Luso Meteo começam também a identificar condições favoráveis à ocorrência de rajadas convectivas bastante significativas, que poderão ultrapassar os 100 km/h em alguns locais. Estas rajadas são amplificadas pelos fenómenos de instabilidade atmosférica, especialmente durante a passagem de trovoadas mais intensas. Ao mesmo tempo, os nossos modelos começam a sinalizar uma possibilidade significativa de ocorrência de granizo, outro fenómeno que merece acompanhamento
Contudo, existem dois fatores que nos preocupam particularmente nesta situação. O primeiro é a enorme quantidade de humidade tropical que poderá chegar diretamente das Caraíbas, formando um verdadeiro rio atmosférico, capaz de transportar grandes quantidades de vapor de água para Portugal. Dependendo da evolução e persistência deste fluxo, poderão ocorrer episódios de precipitação muito intensa, com risco de inundações e até cheias em algumas regiões
O segundo fator é a possibilidade de interação com um sistema de origem tropical em desenvolvimento no Atlântico. Algumas simulações mostram que esta perturbação poderá ser arrastada para latitudes mais elevadas, eventualmente aproximando-se das ilhas ou de Portugal Continental. A conjugação entre a circulação depressionária, a elevada humidade e a possível influência tropical torna esta uma situação meteorológica particularmente complexa, com potencial para alterações rápidas nas previsões

É POSSÍVEL UM FURACÃO EM PORTUGAL?
Alguns modelos meteorológicos têm simulado a possibilidade de um ciclone de origem tropical, eventualmente uma tempestade tropical ou até um furacão, se aproximar de Portugal dentro de 7 a 10 dias, aproximadamente entre 10 e 13 de novembro. Já recebemos algumas mensagens de leitores a questionar se isso poderá realmente acontecer, pelo que consideramos importante esclarecer aquilo que sabemos neste momento
Para já, com os dados disponíveis, não podemos dizer que sim, mas também não podemos excluir essa possibilidade. As previsões continuam bastante complexas. Ainda ontem, 2 de novembro, algumas simulações mostravam que este potencial ciclone poderia deslocar-se mais para norte, interagir com a corrente de jato polar e acabar por ser arrastado para Portugal. Hoje, contudo, essa possibilidade parece perder alguma expressão, com cenários que apontam para a dissipação do sistema
É importante perceber que este potencial ciclone ainda não está consolidado. O sistema encontra-se sob monitorização do NHC, com uma probabilidade estimada de formação de 40% nos próximos dias. Caso consiga desenvolver-se, teremos gradualmente previsões mais fiáveis sobre a sua intensidade e trajetória. Um sistema mais intenso poderá também interagir de forma diferente com a circulação atmosférica, aumentando, em determinados cenários, a possibilidade de deslocação para leste, em direção à região de Portugal

Independentemente da sua evolução exata, consideramos importante acompanhar esta situação com enorme atenção. A eventual interação tropical poderá influenciar indiretamente o estado do tempo em Portugal, contribuindo para maior disponibilidade de água precipitável, mais instabilidade e maior forçamento atmosférico. Estes fatores, quando combinados com depressões atlânticas e frentes ativas, poderão favorecer episódios de precipitação particularmente intensa
Estamos, portanto, perante uma situação meteorológica bastante relevante, que poderá justificar a emissão de avisos pelas autoridades nos próximos dias. Para já, não existe razão para alarme imediato, mas é necessário um acompanhamento constante das previsões. Caso a evolução o justifique, publicaremos uma análise mais detalhada sobre este potencial sistema tropical e os seus possíveis efeitos no território português

RIO ATMOSFÉRICO E VENTO SEVERO – DAS ILHAS AO CONTINENTE…
No seguimento da previsão publicada ontem voltamos a atualizar a situação, trazendo as informações mais recentes dos modelos meteorológicos. Na realidade, pouco mudou relativamente ao cenário geral, embora exista uma diferença importante: a depressão parece agora ficar mais bloqueada inicialmente, reduzindo a probabilidade de precipitação generalizada logo na sexta-feira. Durante o fim de semana poderão, por isso, ocorrer ainda boas abertas em várias regiões do território
Por outro lado, este atraso na deslocação da depressão para leste poderá fazer com que os seus efeitos se prolonguem durante mais dias. Atualmente, não descartamos um período de instabilidade entre 6 e 12 ou 13 de novembro, ou seja, aproximadamente uma semana com possibilidade de chuva, aguaceiros, trovoadas e passagem ocasional de frentes mais organizadas.
Para já, segunda-feira, 9 de novembro, continua a destacar-se como o dia com maior instabilidade prevista. É também na segunda que os nossos modelos apontam para precipitação forte em praticamente todo o território, possivelmente com maior destaque para as regiões Centro e Sul. O ambiente deverá manter-se relativamente ameno, com vento de sul, por vezes forte, e condições favoráveis ao desenvolvimento de trovoadas
O risco de trovoada ultrapassa os 50% em regiões como o Vale do Tejo, Ribatejo, Área Metropolitana de Lisboa, Alentejo e Algarve, segundo as nossas previsões atuais. Nos dias seguintes, com a possível rotação do vento para oeste e posteriormente noroeste, a instabilidade poderá estender-se com maior facilidade às regiões do Norte, onde também poderão ocorrer aguaceiros e trovoadas, ocasionalmente intensos.
Existem ainda alguns indicadores atmosféricos que nos motivam preocupação. As simulações continuam a apresentar cisalhamento vertical do vento superior a 30 m/s nas camadas inferiores da atmosfera (LLS), acompanhado por valores de CAPE que poderão ultrapassar 1000 J/kg em algumas regiões. Esta combinação favorece o desenvolvimento de tempestades convectivas organizadas, aumentando o risco de fenómenos severos, incluindo rajadas muito fortes, granizo e, eventualmente, tornados

Consideramos que o risco de ocorrência de algum tornado poderá ser superior ao habitual nesta situação, especialmente nas regiões do Sul. Naturalmente, isso não significa que seja possível confirmar a ocorrência destes fenómenos, muito menos antecipar exatamente onde poderão surgir. Ainda assim, os ingredientes atmosféricos previstos justificam uma atenção especial, sobretudo se as próximas atualizações dos modelos mantiverem estes índices de instabilidade\condições
Os primeiros efeitos mais significativos deverão sentir-se nas ilhas. Ao longo da semana já teremos períodos de instabilidade nos Açores e Madeira, mas será provavelmente durante o fim de semana que o agravamento se tornará mais evidente. A Madeira merece particular atenção, pois não descartamos acumulados de precipitação muito superiores ao habitual, associados à persistência de um fluxo tropical bastante húmido.
O arquipélago madeirense poderá ficar diretamente exposto a este transporte de humidade durante vários dias, favorecendo períodos prolongados de chuva, por vezes muito intensa. Esta situação poderá aumentar significativamente o risco de cheias rápidas, inundações e derrocadas, especialmente nas zonas montanhosas, encostas e locais historicamente mais vulneráveis. Será uma evolução que acompanharemos com especial atenção, dadas as características do relevo da Madeira

Nos Açores a instabilidade também deverá manter-se, com períodos de chuva, aguaceiros e vento, ocasionalmente fortes. A passagem de frentes e a proximidade das depressões poderão contribuir para acumulados significativos, e ainda mais para acumulados horários muito significativos. Em ambos os arquipélagos, será importante acompanhar os avisos meteorológicos, especialmente se as previsões de chuva mais intensa se confirmarem
Por fim, acreditamos que poderá ocorrer uma melhoria das condições meteorológicas a partir de 13 ou 14 de novembro, com possibilidade de alguns dias relativamente mais secos e estáveis. Contudo, não descartamos que a precipitação regresse posteriormente, precisamente como já tínhamos referido na nossa previsão mensal para novembro. A circulação Atlântica poderá continuar bastante ativa, alternando períodos de instabilidade com melhorias temporárias
Continuaremos a atualizar esta previsão à medida que os modelos meteorológicos apresentem maior confiança.Para já, recomendamos especial atenção à evolução da depressão, aos avisos oficiais e às próximas atualizações da Luso Meteo

Artigo elaborado por Fábio Félix | Luso Meteo Às 19H de 3 de novembro de 2026
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