A tragédia no Nepal, mais precisamente na região fronteiriça entre o Nepal e o Tibete, voltou a mostrar, mais uma vez, um dos grandes perigos do aquecimento global: o derretimento acelerado do gelo em zonas montanhosas e o colapso de glaciares. Tudo indica que um enorme pedaço de gelo se desprendeu e desencadeou uma inundação repentina e devastadora, levando tudo o que encontrou pela frente, com centenas de mortes e milhares de desaparecidos a serem confirmados, infelizmente
A informação ainda não é totalmente confirmada, é certo, mas encaixa perfeitamente no que sabemos sobre estes fenómenos. Além disso as imagens de satélite indicam mesmo isto: uma enorme massa de gelo e rocha desprendeu-se de uma zona glaciar, desencadeando então a avalanche que atingiu o vale e o sistema fluvial da região. Esta situação levou a que os cursos de água fossem rapidamente inundados, sendo ainda incerto como tal aconteceu – provavelmente pelo rebentamento de barragens, e\ou bloqueio dos cursos de água devido ao arrastamento de detritos e rochas
Inicialmente chegou mesmo a ser avançada a possibilidade de ter sido um sismo a desencadear toda esta tragédia. No entanto, e segundo o US Geological Survey, o abalo registado terá sido produzido pelo próprio colapso de gelo e rochas, e não por um verdadeiro sismo de origem teutónica. O fenómeno terá produzido uma energia equivalente a um evento de magnitude 5,2, demonstrando a enorme dimensão do colapso
Para garantirmos informação correta, que não podemos afirmar com 100% de certeza que as alterações climáticas tenham sido a causa direta e exclusiva deste colapso em específico, mas sabemos que o aquecimento global está a acelerar a perda de gelo nos Himalaias e a alterar a estabilidade das montanhas, criando condições potencialmente mais favoráveis a fenómenos deste género. O Nepal, por exemplo, já perdeu uma parte significativa da sua área glaciar nas últimas décadas
É precisamente esta tendência que deve servir de alerta: à medida que o gelo desaparece,, aumentam as zonas instáveis e podem formar-se grandes volumes de água junto ou dentro dos sistemas glaciares. Uma avalanche, um colapso ou uma ruptura podem então transformar-se rapidamente numa inundação catastrófica. O problema não está apenas no aumento das temperaturas…

TRAGÉDIA NO NEPAL: PORQUE É UM ALERTA PARA O FUTURO?
A sequência dos acontecimentos ajuda a perceber a dimensão do fenómeno, que tem imagens verdadeiramente assustadoras. Algumas pessoas imediatamente escreveram nas redes sociais, inclusivamente nas redes sociais da Luso Meteo, que pareciam cenas do filme “O Dia Depois de Amanhã”. Mas não foram cenas de filme, foram a dura realidade de uma catástrofe que levou tudo à frente
A força da água foi suficiente para destruir pontes, estradas, casas e outras estruturas, além de várias outras infraestruturas. E tudo isto aconteceu sem um aviso. Quem estava no caminho desta tragédia não teve qualquer tempo de fuga, infelizmente. O perigo é ainda maior em vales estreitos, onde a água fica canalizada e ganha ainda maior capacidade destrutiva. Ao contrário de outros fenómenos, é muito difícil prevenir estas situações, embora os satélites atuais sejam muito mais avançados

Este tipo de situação não é exclusiva do Nepal – também em maio de 2025 o colapso de uma parte do glaciar Birch, nos Alpes suíços, atingiu a localidade de Blatten, destruindo uma boa parte da aldeia. Neste caso a população tinha sido previamente evacuada, evitando uma tragédia humana ainda maior. Esta situação mostrou, contudo, que também os Alpes enfrentam mudanças profundas devido ao recuo e à instabilidade dos glaciares (aqui o degelo é talvez ainda mais acelerado, uma vez que a Europa é o Continente a aquecer mais rápido)
O problema é global, e afeta-nos a todos. O aquecimento dos oceanos e da atmosfera está a favorecer fenómenos extremos em diferentes partes do planeta, desde ondas de calor e secas prolongadas, até precipitação torrencial, tempestades severas e inundações repentinas. Tornados e fenómenos convectivos extremos também continuam a ocorrer em regiões pouco habituadas a situações deste género (um exemplo recente é o tornado em França no dia 24 de agosto)
Não podemos atribuir uma única situação ao aquecimento global, mas a tendência é clara, e o cenário climático que temos pela frente não é particularmente tranquilizador. O El Niño de 2026\27está a intensificar-se rapidamente e os modelos apontam inequivocamente para um episódio potencialmente excecional, sendo quase certo que será o mais intenso já registado. Isto irá exacerbar o risco de mais episódios extremos nos próximos meses

UM PLANETA MAIS QUENTE, COM MAIS EXTREMOS E MAIOR RISCO CLIMÁTICO
O fenómeno El Niño é um fenómeno natural, cíclico, e não pode ser considerado consequência direta das alterações climáticas. No entanto agora está a ocorrer num contexto de base climática alterada, e esse é o verdadeiro perigo. É cientificamente comprovado, de forma estatística, que este fenómeno eleva temporariamente a temperatura global até 0.5\0.6ºC, o que, por si só, não seria um problema demasiado relevante. Mas, quando temos um planeta que já se aproxima muito de 1.5ºC de aquecimento em relação ao pré-industrial, este aquecimento adicional pode ser catastrófico
O planeta está a caminhar para meses perto ou acima de 2ºC em relação ao período pré-industrial, um valor limite de temperatura para o qual os cientistas nos avisaram ao longo de muitos anos... Não significa que todos os fenómenos extremos sejam provocados pelo aquecimento global mas significa que as alterações estão a ser demasiado rápidas – uma “bomba relógio” para fenómenos climáticos extremos, e mais catástrofes
Estes efeitos podem surgir de formas muito diferentes, e não só através de aquecimento. Em determinadas regiões o resultado será mais seca e calor extremo, mas noutras podem ser chuvas torrenciais e inundações. Podem surgir episódios de tempestade mais intensos em certas regiões, com os oceanos mais quentes, e com maior vapor de água, além de outros fenómenos extremos, com mais energia na atmosfera. O degelo acelera, o nível do mar sobe, e, como neste caso específico, os glaciares derretem
Agosto de 2026 irá terminar como mais quente de sempre, mas é sempre importante referir que esta medição é global, ou seja a média de todo o planeta, para evitar confusões, uma vez que em Portugal, apesar de ter tido períodos quentes, alternou com períodos mais frescos, e não foi excecional. A nível global, contudo, ficará entre 1.6 a 1.7ºC acima do período pré-industrial 1850-1900, segundo os dados das análises ERA5\Copernicus
As previsões apontam de forma clara para temperaturas acima do normal em grande parte do planeta nos próximos meses, e o risco não é apenas uma questão de décimas de grau na temperatura média, como esta tragédia no Nepal comprova: pode significar alterações físicas profundas no território, capazes de desencadear acontecimentos catastróficos em questão de minutos

Assim, de forma trágica, recebemos uma mensagem que vai muito além do registado nos Himalaias: Não estamos perante uma previsão qualquer para daqui a décadas: estamos a observar em tempo real os efeitos do aquecimento global em sistemas que permaneceram estáveis durante milhares de anos…
A solução? Não sabemos, infelizmente. Reduzir as emissões de GEEs é essencial, mas parece óbvio que há pouco interesse nisso, com os lobbies do petróleo a “funcionarem” – e mesmo que venha a ocorrer, os danos já estão feitos, e alguns já são irreversíveis – os próximos anos serão muito complicados, infelizmente
Temos assim, também, de nos adaptarmos, e de tentar prevenir da melhor forma os riscos das alterações climáticas. Sobre este caso em específico é essencial melhorar a monitorização dos glaciares, os sistemas de alerta e o planeamento. Se conseguíssemos ter emitido um aviso com alguns minutos de antecedência poderia ter sido possível a população fugir para zonas altas, e pelo menos salvar as vidas humanas…

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo às 8H de 27 de agosto de 2026
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