Várias depressões e frentes prometem marcar o tempo no fim-de-agosto, que, segundo algumas previsões, se pode tornar num dos mais chuvosos já registados. Depois de um período prolongado de tempo muito quente e seco, a atmosfera prepara-se para uma mudança bastante significativa, com várias perturbações Atlânticas a aproximarem-se da Península Ibérica
Com as alterações climáticas, os extremos são favorecidos, e este ano temos notado muito isso na Europa: ora está calor extremo, ora surge uma tempestade repentina no mesmo local poucas horas depois. A atmosfera está cada vez mais “carregada de energia” e com potencial para alternar rapidamente entre situações muito diferentes, e o final deste mês poderá ser mais um exemplo disso
Depois de uma semana muito quente em Portugal, com onda de calor registada em alguns locais, e de um Verão excessivamente seco, em que até aqui quase não choveu, ainda durante o mês de agosto, surgem pelo menos duas, talvez três depressões, com várias frentes associadas, que prometem trazer precipitação relevante… (quantidades de chuva que seriam perfeitamente normais para um mês de outono ou inverno mas que são, nesta altura do ano, bastante incomuns)
Uma dessas situações tem mesmo possibilidade de se tornar numa tempestade subtropical, embora a previsão ainda seja difícil e esteja sujeita a alterações. Por essa razão, seria uma situação ainda mais rara, embora não inédita: Portugal já teve no passado sistemas com características subtropicais ou tropicais, como aconteceu com a tempestade Alpha, em 2020
Ainda assim, é evidente o sinal para o surgimento de chuvas mais intensas e repentinas, com risco de inundações, num contexto de oceanos muito quentes. Este ano poderá, sem dúvida, ser muito complicado em vários pontos da Europa precisamente por causa desta combinação entre águas oceânicas muito quentes, elevada disponibilidade de humidade e mudanças na circulação atmosférica: o final de agosto pode ser apenas um “cheirinho” do que pode estar para chegar no outono

DEPRESSÃO SUBTROPICAL – OS EFEITOS EXPECTÁVEIS
Está a formar-se nesta sexta-feira uma depressão cavada no Atlântico, que deverá apresentar um aspeto bastante imponente nas imagens de satélite ao final do dia. Nesta fase, provavelmente ainda não terá características tropicais, uma vez que se encontra sobre águas relativamente frescas, na ordem dos 22-23 ºC
Contudo, ao mover-se um pouco mais para Sul durante o fim-de-semana e ao separar-se do cavado localizado mais a Norte, o sistema poderá entrar em águas de 24-25 ºC. Esta mudança poderá permitir a aquisição de características tropicais, subtropicais ou híbridas, numa situação relativamente rara e que já está a ser monitorizada pelo NHC, o centro de furacões em Miami
É importante, contudo, esclarecer que é quase impossível um cenário de furacão em Portugal, ou de qualquer sistema com intensidade semelhante. Mesmo os cenários mais agressivos não simulam, neste momento, rajadas superiores a 100 km/h, de forma generalizada. A complexidade destes sistemas exige, ainda assim, alguma cautela, porque pequenas alterações na trajetória podem modificar bastante os efeitos locais

É provável que se formem condições favoráveis à ocorrência de fenómenos de tempo severo, nomeadamente chuva forte a torrencial em curtos períodos de tempo ou algum fenómeno localizado de vento extremo, como um tornado. A elevada quantidade de água disponível na atmosfera poderá fazer com que, caso uma linha de instabilidade ou uma célula convectiva atravesse determinada região, os acumulados aumentem rapidamente
As regiões mais afetadas, à partida, serão o Norte e o Centro, com o núcleo da depressão a poder cruzar o litoral entre o Cabo Carvoeiro e a Galiza na segunda-feira. Haverá uma frente no domingo, “espremida” entre a depressão e o anticiclone, que poderá ficar essencialmente no mar ou aproximar-se do litoral. E isso fará toda a diferença: há muita água para cair, mas ainda existe bastante incerteza sobre quanta dessa precipitação cairá efetivamente em terra
Na segunda-feira deverá ocorrer o pico da situação, embora os detalhes ainda estejam por confirmar. Não será uma situação comparável às tempestades Leslie ou Kristin em termos de intensidade, mas poderá ainda assim produzir efeitos potencialmente intensos e localizados, sobretudo através de chuva muito forte, trovoadas e rajadas de vento localmente muito intensas e repentinas

NOVAS DEPRESSÕES DEPOIS, E FRENTES ASSOCIADAS
Depois desta primeira situação esperamos a aproximação de pelo menos mais uma depressão, potencialmente duas, mantendo-se o anticiclone enfraquecido, com a alta pressão posicionada mais a Norte e a Oeste dos Açores. A primeira destas perturbações poderá surgir logo na terça ou quarta-feira, prolongando o período de instabilidade sobre a Europa Ocidental
Esta será uma depressão Atlântica mais clássica, e a “mergulhar” de forma significativa, tendo em conta que estamos em agosto. Isso significa que poderá trazer ar bastante mais fresco ao território, além de frentes ativas, com chuva, vento e, possivelmente, trovoada. As temperaturas deverão ficar abaixo da média
Depois disso, e por volta dos dias 27-28 de agosto, ainda existe possibilidade de uma nova depressão, embora mais afastada, nos afetar com mais precipitação, sobretudo nas regiões do Norte. A posição exata deste sistema será determinante, mas este tipo de circulação poderá favorecer novamente a entrada de humidade e precipitação no Minho e nas regiões montanhosas
Por essa razão, pelo menos nas regiões tendencialmente mais chuvosas neste tipo de fluxo, como o Minho e algumas zonas montanhosas do Norte e Centro, agosto poderá ultrapassar os 100 l/m² de precipitação acumulada. Depois de um mês que até agora tem sido marcado por uma secura muito significativa, pode ser uma mudança extraordinária! Não descartamos que agosto evolua rapidamente de um mês muito seco, até ver, para um dos mais chuvosos, ou mesmo o mais chuvoso de que há registo em algumas regiões
Além da possível diminuição da seca que já se vai agravando no território, esta mudança teria ainda outra consequência positiva: uma redução significativa do risco de incêndio, depois de um período prolongado de calor, baixa humidade e vegetação muito seca. Continuaremos a acompanhar a situação nas previsões diárias, e, se necessário, através de novas previsões detalhadas e atualizadas

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 8H de 21 de agosto de 2026
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