Neve nos Açores é algo que não é inédito nas previsões do tempo, e, nas montanhas mais altas, não é propriamente muito raro. Contudo ver neve prevista nos Açores a altitudes de 500 metros é muito menos comum – pelo efeito moderador do oceano, e pela humidade. Mas será que vai mesmo nevar a essa altitude? E porque é que em Portugal Continental há previsão de poeiras?
Bem, na realidade são questões pertinentes e interessantes! Muitas vezes olhamos para os modelos meteorológicos, e pensamos que são tão bons que nos conseguem dar informação meteorológica que nunca estará incorreta e assumimos tudo como certo: mas na meteorologia nada é certo, e, no caso das cotas de neve previstas nos Açores, há mesmo um fator que os modelos não mostram: o efeito marítimo nas temperaturas e cotas de neve
Uma vez que o arquipélago tem, naturalmente, ar muito mais húmido nas várias camadas da troposfera do que, por exemplo, neste tipo de entradas frias no Continente, e que tende a ter alguma moderação devido à temperatura da água do mar por volta de 16ºC, a previsão de neve a 500 metros de altitude pelos modelos é pouco provável – talvez comece a ver-se algum floco aos 600, e a acumular acima de 750-800m – o que ainda assim é notável!
Agora, respondendo à segunda pergunta: as poeiras… Afinal porque surgem em Portugal Continental tão frequentemente este ano? Bem, é o que acontece quando temos um bloqueio, e regimes atmosféricos sempre tão semelhantes – mais uma vez uma depressão a Oeste, com o fluxo no sentido contrários dos ponteiros do relógio, a arrastar ar mais quente, e pó de África. Além de tornar a qualidade do ar má, vai inibir um pouco as trovoadas, e talvez impedir alguma chuva

FRIO E NEVE NOS AÇORES – ONDE VAI NEVAR?
Começamos desde já por dizer que não vai nevar nos locais mais baixos das Ilhas, nas praias, por exemplo – isso é algo que não é possível com o tipo de massa de ar – com humidade e com temperaturas a 850hPA (1400m) de aproximadamente -4ºC (muito pouco comum!)
No entanto, os -4ºC previstos aos 1400m de altitude dão-nos uma “pista” sobre a cota de neve, e assumindo uma subida de temperatura média de cerca de 0.6 a 0.7ºC por cada 100m (que é o típico, e aproximadamente o previsto) podemos ver que, mesmo a 0 metros de altitude podem registar-se menos de 10ºC no período mais frio, e, com uma conta simples percebemos que o ponto de congelação (0ºC) se pode encontrar nos 800 metros, ou um pouco abaixo. Com a alta humidade é, aproximadamente, essa a cota de neve de previsão mais segura
Poderá, assim, nevar em pontos menos comuns, incluindo o Pico do Carvão, e até das Caldeirinhas em São Jorge, Santa Bárbara na Terceira, Cabeço Gordo no Faial, Morro Alto nas Flores (e outros picos próximos dos 800\900m). Em Santa Maria, Corvo e Graciosa não há pontos acima de 800 metros, pelo que não se prevê que neve significativa, no máximo podem cair uns flocos no Morro dos Homens (Corvo). Onde não nevar, contudo, pode cair granizo
Não descartamos qualquer surpresa em locais aos 500-600 metros, mas aí, com temperaturas de 1-2ºC, o mais provável é ser uma neve muito húmida, e de muito difícil acumulação. Já nas montanhas acima de 800-900 metros pode mesmo haver uma boa acumulação, especialmente para os Açores, em alguns locais acima de 5-8cm. Não seria de estranhar um aviso amarelo por queda de neve nos Açores (raro!) emitido pelo IPMA

POEIRAS EM PORTUGAL CONTINENTAL?
Apesar de estarem previstas, devemos dizer que a concentração prevista é VASTAMENTE diferente da concentração que se registou noutras situações este ano, pelo menos nesta fase inicial. Contudo não sabemos, ainda, se a partir do fim-de-semana não se pode preparar uma nova vaga de poeiras na Europa, pois as previsões têm vindo a mudar
Entre dias 18 e 20\21 de março (quarta a sábado) parece, de facto, haver condições para chuva ocasionalmente forte, que pode ter 2 ou 3 períodos de especial intensidade no Centro e Sul, como referido inclusivamente com risco de alguma cheia, mas, posteriormente, o anticiclone deve retomar sobre Portugal Continental (dorsal Africana)
Assim nos dias 18-19-20 podemos ter poeiras e aguaceiros, o que pode gerar chuvas de lama em alguns locais, e depois, nos dias 21-22 podemos ter uma maior estabilização, mas com pó, e céu algo esbranquiçado – baixa qualidade do ar. Se as previsões estiverem corretas as poeiras vão mesmo afetar grande parte do Continente Europeu – incluindo em parte Açores e Madeira (baixa concentração, fim-de-semana)

As poeiras, geralmente, significam temperaturas acima da média, e é isso mesmo que prevemos – o frio que afeta os Açores não chega, de todo, cá – uma vez que a massa de ar frio vai sendo “estrangulada” entre o anticiclone dos Açores e da Escandinávia, e vai descendo em latitude, aquecendo
Esse choque de massas de ar, com o Atlântico relativamente quente, levará à formação de linhas de instabilidade algo intensas, que serão, no entanto, sensíveis a pequenas alterações no posicionamento da depressão Therese. Isso determinará quanto vai, realmente, chover em Portugal Continental, e na Madeira
É uma situação complexa, com risco elevado de inundações no arquipélago Madeirense entre quinta e sábado\domingo, e com risco moderado no Continente principalmente entre quinta à noite e sexta de manhã, período em que boa parte dos modelos simulam condições para precipitações mais intensas, e mais instabilidade, com potencial para algum comboio de células estacionário, que nos poderia trazer muita água ao litoral Centro\Sul, assim como Algarve. Iremos acompanhar, e atualizar toda a informação!

Muito obrigado pela sua confiança e preferência, e esperamos que tenha gostado desta informação!
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