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Uma cúpula de calor histórica irá afetar os EUA a partir de dia 17 de março, com temperaturas próprias de Julho, naquela que deverá ser uma situação histórica, nunca antes vista nesta altura do ano, com valores máximos previstos de 45ºC no Sul da Califórnia!
Escusado será dizer que se devem bater centenas ou milhares de recordes de temperatura máxima, numa situação que tem um “desvio padrão” superior a 4 sigma, o que significa que, estatisticamente, é praticamente impossível de ocorrer no nosso clima
Ou melhor dizendo… no clima que tínhamos, e que usamos como base para calcular estes desvios. As alterações climáticas levam a que situações anteriormente tidas como impossíveis passem a ser mais prováveis, e, eventualmente, se tornem mais “normais”. Já fizemos referência ao facto de fevereiro ter registado um novo recorde de água precipitável (e, de certa forma, sentimos isso em Portugal), e agora falamos de outro evento que, teoricamente, não seria possível
Mas, realmente, o que significa este desvio “4 sigma”? Não queremos falar muito em matemática, pois não há necessidade para explicar em linguagem acessível: Um desvio padrão superior a 4 sigma, como o previsto, significa uma probabilidade de ocorrência de 0,006%, ou 1 em cada 15800. Uma situação cuja probabilidade de ocorrer é 1 em cada 15800, como devem compreender é quase como ganhar o Euromilhões (não exatamente, mas percebem a ideia)
Isto quer dizer que pode acontecer, mas é extremamente improvável e muito raro – são eventos de uma vida, uma geração. Quando passam a ocorrer com mais frequência, por vezes 2 vezes no mesmo ano, ou pelo menos na mesma década, como temos visto, significa que o clima que conhecíamos mudou drasticamente, alterando todas estas probabilidades – é exatamente o que está a acontecer!

CÚPULA DE CALOR NOS E.U.A. – HISTÓRICO – O QUE SE PREVÊ?
A formação de uma crista anticiclónica sobre o Pacífico Leste irá criar as condições para aquilo que chamamos de “cúpula de calor”. O ar desce, e comprime-se (compressão adiabática), aquecendo, o que, em conjunto com o sol já mais forte de Março, e pouco vento, cria condições para as temperaturas irem aumentando, levando a esta verdadeira cúpula em que o calor fica retido
Como se pode ver na imagem acima a mesma ficará sobre o Sudoeste dos Estados Unidos da América, em variados estados, havendo previsão de que tanto o geopotencial como as temperaturas fiquem em recordes absolutos para a época, e em valores médios de Julho – impressionante!
Para efeitos de comparação com o nosso país, seria o mesmo que registarmos, a meio de Março, temperaturas superiores a 32\33ºC – impressionante! Obviamente que, para isto acontecer, há 2 fatores essenciais:
1 – Os “drivers” perfeitos na atmosfera, com o vórtice polar a ter “colapsado”, criando condições para uma alteração drástica da configuração atmosférica, e levando a que fossem criados bloqueios nas latitudes médias. Se, em alguns locais, foi favorecida a descida de massas de ar frio, noutros locais, como será o caso, ocorre o oposto
2 – Nos locais onde está mais frio que a média, não está frio a níveis recorde – isto porque o aquecimento global cada vez mais impede que isso aconteça. Por outro lado, e também com influência das águas mais quentes que o normal no Pacífico, o calor torna-se facilmente recorde – sim, há os 2 extremos, locais muito frios, e locais muito quentes, mas os locais quentes acabam sempre por ser bem mais extremos em comparação com o normal

A imagem acima é simplesmente incrível, e impressionante – valores de temperatura de 43ºC previstos pelo modelo Europeu ECMWF nos locais mais quentes da Califórnia (locais de deserto\vale, mas com vastas áreas habitadas)
Estas temperaturas, como referidos, são típicas em Julho, mês em que, quase todos os dias, os termómetros batem os 40ºC. Em Março, contudo, são uma “aberração”, com impacto significativo nos ecossistemas e nas populações
Esta anomalia avança desde o Sudoeste para o Centro dos EUA, onde, localmente, se alcançam valores mais de 20ºC acima da média! Esta situação não está, ainda, ligada á chegada iminente de El Niño, contudo esse fenómeno terá tendência a amplificar estes extremos nos próximos meses (e no próximo ano)
A duração do episódio é significativa, entre 3 a 5 dias, estendendo-se, como referido, do Sudoeste para o Centro Americano, e depois para o Sudeste, em enfraquecimento. Este tipo de cristas anticiclónicas sobre o Pacífico Leste são muitas vezes percursoras de mudança de tempo em Portugal – continue a ler para mais informação!

O QUE ESTE REGIME PODE SIGNIFICAR PARA PORTUGAL?
Não há uma ligação definitiva e direta entre este regime atmosférico, e o regime no Atlântico, contudo, sabemos que tudo na atmosfera é interligado, e até já falámos há bem pouco tempo que, caso surgisse uma crista no Pacífico (a que estamos a prever agora), podia haver mudanças por cá
Pois bem, haverá de facto mudanças – com a previsão de uma depressão a alterar o tempo, significativamente, depois de dia 18. Contudo, e porque estamos na primavera, a previsão é agora mais difícil, e o significado destas alterações mais imprevisível – será apenas algo passageiro, ou pode haver mesmo mudança para um regime muito diferente?
Continua a ser a “pergunta para 1 milhão”, e ainda não temos resposta, mas, para já, parece que o Sul será afetado por chuvas mais intensas, com aquela que deve ser nomeada como depressão “Samuel” ( a confirmar ), e que afetará primeiro as Ilhas. Depois disso pode instalar-se um bloqueio em latitudes altas, sendo incerto onde se formará
Se o bloqueio for mais sobre a Escandinávia pouco mudará, e até tenderá a predominar o sol. Se o bloqueio for mais sobre a Gronelândia podemos vir a ser afetados por um regime mais chuvoso... Por outro lado, se o bloqueio se instalar perto do Reino Unido podemos vir a ter algo temporariamente instável, mas, esse regime não costuma ser duradouro – o anticiclone irá “escolher” outro local para se instalar, entre os 2 referidos, ou então na zona mais natural – os Açores
Qual o mais provável? Para já um bloqueio com o anticiclone a evoluir entre a Gronelândia e Islândia parece possível, mas, ao mesmo tempo, o Atlântico pode estar algo suprimido – permitindo assim depressões do tipo “cut-off”, com trovoadas, mas também com sol, e poeiras – um tempo altamente variável para as próximas 2 semanas. Ainda assim fique atento, pode mudar rapidamente, e a previsão após dia 20 está longe de estar fechada

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