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A mudança de tempo em Portugal, com o fim da onda de calor (e trovoadas), que muitos já aguardam com ansiedade, pode surgir por volta de dias 8\9 de julho, com o arrefecimento a começar a surgir nas previsões, depois de 10 dias de intenso calor – e, surpreendentemente, o ciclone Bavi, que se encontra bem longe, pode ser, indiretamente, o elemento que desencadeia toda a mudança!
À primeira vista, pode parecer impossível que um tufão a milhares de quilómetros de distância tenha qualquer influência no estado do tempo em Portugal. No entanto, a atmosfera funciona como um sistema interligado, onde um fenómeno extremo numa região pode desencadear uma cadeia de acontecimentos capaz de alterar os padrões meteorológicos em grande parte do Hemisfério Norte
É precisamente esse cenário que vários modelos meteorológicos, incluindo os mais fiáveis, começam a sugerir. O poderoso tufão Bavi, atualmente em desenvolvimento no Pacífico Ocidental, poderá tornar-se um dos ciclones tropicais mais intensos dos últimos anos. Para além dos impactos locais, que podem ser severos, existe a probabilidade de modificar significativamente a circulação atmosférica, desencadeando efeitos que poderão sentir-se, primeiro, na América do Norte como, e, mais tarde, na Europa

BAVI – ALÉM DO VENTO E CHUVA, EFEITOS ATMOSFÉRICOS
Quando pensamos num tufão, imaginamos imediatamente ventos destrutivos, chuvas torrenciais e mar extremamente agitado, e, obviamente, é isso mesmo que ocorre, e, para quem está no seu caminho, são os efeitos que nunca devem ser menosprezados. No entanto, estes sistemas representam, também, enormes fontes de energia para a atmosfera
Um ciclone tropical intenso transporta quantidades enormes de calor, humidade e energia desde as profundidades do Oceano para as camadas superiores da troposfera. À medida que essa energia é libertada, pode perturbar a corrente de jato (jet stream), originando ondas atmosféricas ( ondas de Rossby ), que se propagam, por vezes, por milhares de quilómetros
Estas alterações desencadeiam, muitas vezes, mudanças profundas atmosféricas, mesmo a longas distâncias do local onde se regista o impacto do ciclone. São fenómenos extremamente poderosos, e imponentes, que são sempre uma “caixa de surpresas”

EFEITOS NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
Segundo vários modelos de previsão de médio prazo, uma das primeiras consequências da influência do ciclone Bavi na circulação de larga escala, poderá ser o favorecimento do desenvolvimento de uma poderosa crista anticiclónica sobre o oeste da América do Norte, em resposta à energia ciclónica
Algumas simulações de modelos como GFS, ECMWF ou AIFS chegam mesmo a sugerir valores excecionalmente elevados de geopotencial em altitude, (altura de 500hPA > 6000m) indicadores de uma atmosfera extremamente estável e quente. Caso este cenário se confirme, poderá formar-se uma intensa cúpula de calor (Heat Dome) sobre o oeste dos Estados Unidos, como já temos visto nos últimos anos, aliás
As cúpulas de calor são sistemas persistentes de alta pressão que comprimem e aquecem o ar nas camadas inferiores da atmosfera. Como consequência, o calor acumula-se durante vários dias consecutivos, favorecendo temperaturas excecionalmente elevadas, noites muito quentes e elevado risco de incêndios florestais – o mesmo fenómeno que se vai registando na Europa
Em alguns cenários, esta configuração poderá aproximar-se de valores raramente observados para a região, embora ainda seja cedo para afirmar se serão batidos recordes

COMO PODEMOS SER AFETADOS EM PORTUGAL
Quando uma crista anticiclónica com esta intensidade se estabelece sobre uma determinada região, a circulação atmosférica tende a reorganizar-se em grande escala, no fundo “em busca do equilíbrio”. No caso atual, e se esta alta pressão permanecer durante vários dias, poderá favorecer bloqueios atmosféricos em latitudes elevadas, alterando profundamente o percurso habitual da corrente de jato, que se torna mais errática
Como resposta, começam frequentemente a desenvolver-se bolsas de ar frio mais frequentes noutras regiões do Hemisfério Norte, particularmente no Atlântico, que se podem, posteriormente, aproximar de Portugal Continental
Em vários cenários atualmente simulados pelos modelos globais, uma dessas bolsas de ar frio poderá evoluir em direção ao Atlântico Nordeste e, posteriormente, aproximar-se da Península Ibérica depois de dias 8\9 de de julho, com descida das temperaturas, e chegada da instabilidade. Há que referir, contudo, que não será impossível que uma dessas bolsas de ar frio fiquem mais a Oeste da Europa, levando a uma nova onda de calor sobre a Europa Central – são sempre imprevisíveis!

POSSÍVEL FIM DA ONDA DE CALOR E TROVOADAS?
Se esta evolução se confirmar, Portugal poderá assistir a uma mudança significativa do estado do tempo após vários dias de calor extremo, que tem estado a afetar, inicialmente, com maior intensidade o litoral, onde este tipo de fenómenos é muito mais raro!
A aproximação de ar mais frio em altitude aumentaria a instabilidade atmosférica, favorecendo o desenvolvimento de nuvens de evolução, aguaceiros e trovoadas, especialmente no Interior. Ao mesmo tempo, a circulação poderia permitir a entrada de massas de ar mais frescas, de origem Atlântica, conduzindo a uma descida gradual das temperaturas e ao fim da onda de calor (primeiro no litoral, depois no Interior)
Importa, contudo, sublinhar que esta é ainda uma tendência de médio prazo e que pequenas alterações na posição dos elementos atmosféricos, além da intensidade real do tufão Bavi, poderão modificar significativamente como tudo se desenrola. As previsões para além dos sete dias apresentam sempre um grau de incerteza considerável, sobretudo quando estamos a falar da interação entre um ciclone tropical e a circulação atmosférica global
Pequenas diferenças na intensidade, velocidade ou trajetória do tufão podem (e vão) alterar significativamente o padrão atmosférico previsto pelos modelos. Ainda assim, é importante perceber que o ciclone Bavi pode mesmo desempenhar um papel importante na reorganização da circulação do Hemisfério Norte durante os próximos dias, sendo um dos fatores que acompanharemos com atenção, e nos pode salvar (ou não), de calor mais intenso e mais prolongado
Independentemente da evolução final, tudo isto recorda-nos que a atmosfera não tem fronteiras. O estado do tempo em Portugal começa a ser desenhando dias antes, a milhares de quilómetros de distância, por fenómenos que ocorrem do outro lado do planeta. A meteorologia é fascinante… e por vezes muito imprevisível!

Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 15H de dia 3 de julho de 2026
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