O verão de 2026 tem sido, até agora relativamente “normal” em Portugal, sem ondas de calor de grande destaque, nem grandes extremos. Depois de um mês de junho que foi o quarto mais quente desde que há registos, segundo o IPMA, e de uma intensa onda de calor no início de julho, havia receio que pudesse continuar na mesma “onda”, mas tal não sucedeu, e o resto do mês de julho acabou por ser um pouco diferente, na realidade
Desde essa onda de calor Portugal tem tido semanas relativamente amenas, em que surgem apenas episódios pontuais de calor mais intenso, mas sem ocorrência de temperaturas excecionais, nem calor muito prolongado, em contraste com outros países europeus, onde o calor extremo persistiu e continua a persistir durante vários dias ou mesmo semanas. No nosso país a circulação atmosférica tem permitido estes períodos mais frescos constantes, felizmente
Ainda assim há algumas particularidade muito interessantes que temos de destacar: A temperatura da água do mar na costa Ocidental tem mantido valores sempre acima da média, por vezes bastante acima, o que tem proporcionando noites mais quentes junto ao litoral (variadas noites tropicais menos comuns). Isto deve-se à falta da tradicional nortada, tão característica de julho e agosto, e que tem estado ausente, surgindo apenas de forma ocasional
Esta situação explica-se pela persistência de depressões a oeste do território, inseridas num regime de bloqueio atmosférico que tem favorecido a entrada de ar marítimo e limitado a chegada prolongada de massas de ar extremamente quentes. Esse padrão tem impedido as ondas de calor mais severas, mas, curiosamente, tem permitido que o litoral tenha temperaturas mais elevadas que o habitual nas praias, e sem o vento desagradável
Mas será que o pico do verão já passou? Há indicações que provavelmente não. Os sinais mais recentes dos modelos meteorológicos sugerem uma possível alteração do padrão atmosférico durante a segunda quinzena de agosto, aumentando a probabilidade de um período mais quente, de forma mais persistente. Ainda há muito verão pela frente, e os próximos dias poderão ser decisivos para perceber a evolução do tempo no que falta!

MUDANÇA DE REGIME NO ATLÂNTICO? PODE TRAZER UMA ONDA DE CALOR?
Um dos sinais mais importantes atualmente observados na meteorologia, na tentativa de prever os padrões atmosféricos, é a evolução da MJO (Oscilação Madden-Julian). Trata-se de um fenómeno tropical que percorre o planeta de Oeste para Leste, influenciando a distribuição da convecção no planeta, e, de forma indireta, a circulação atmosférica em várias regiões do globo. A maioria dos ensembles aponta agora para uma entrada da MJO na fase 6, associada a forte atividade convectiva sobre o Pacífico Oeste
Ao mesmo tempo há vários modelos que indicam uma crescente tendência para uma fase NAO positiva (NAO+), acompanhada por uma diminuição dos bloqueios atmosféricos em latitudes elevadas. À medida que o vórtice polar começa lentamente a reorganizar-se, começam também a surgir depressões mais cavadas junto à Gronelândia, que podem alterar a circulação no Atlântico Norte
Caso este cenário se confirme, as altas pressões sobre a Gronelândia e Escandinávia poderão enfraquecer temporariamente, permitindo ao Anticiclone dos Açores fortalecer-se. Nessa situação, torna-se mais provável a formação de uma crista anticiclónica em direção ao Golfo da Biscaia, uma configuração muito típica dos episódios de calor persistente em Portugal durante o verão

Se esta alteração de padrão realmente se confirmar, o calor poderá regressar de forma mais significativa. Era, aliás, a previisão presente na nossa análise mensal. Apesar de já termos ultrapassado o pico da radiação solar anual, continuam perfeitamente possíveis temperaturas entre 40 e 43ºC, ou até 44-45ºC nos locais habitualmente mais quentes, caso se estabeleça uma massa de ar mais quente, durante vários dias (aquecimento por subsistência)
Importa, contudo, salientar que esta tendência poderá ainda ser influenciada pela eventual formação de sistemas tropicais no Atlântico. Para já continuam pouco prováveis, mas alguns ensembles e algumas saídas deterministas dos modelos Europeus começam a sugerir essa possibilidade. Assim, a mudança de padrão poderá iniciar-se apenas depois de dia 10 de agosto, aumentando as probabilidades de calor persistente – lembrando sempre que não há certezas, são apenas tendências de previsão – corroboradas também pelos modelos Americanos
Na meteorologia mais de 10-15 dias por vezes parece “futorologia”, mas há cosias que conseguimos ir percebendo, e, realmente, se há período favorável a calor este ano, efetivamente parece ser o período 12-15 de agosto a 10 de setembro, aproximadamente – durante estes 20 a 30 dias é quando o calor pode surgir com maior persistência em Portugal, e ser o pico do Verão, tardio, é certo. Se vai acontecer? Não podemos garantir, claro, mas é a nossa análise atual sustentada nos modelos e regimes atmosféricos

FURACÕES NO ATLÂNTICO – PODEM SURGIR?
A época de furacões no Atlântico continua muito abaixo do que é habitual para esta altura do ano, quando estamos praticamente no pico sazonal. As previsões mantêm um cenário de windshear muito elevado sobre as Caraíbas, dificultando significativamente a sobrevivência de qualquer ciclone tropical proveniente da Região Principal de Desenvolvimento (MDR). Mesmo que algum sistema consiga formar-se (duvidoso…), terá muitas dificuldades em manter a organização
Além disso, a própria MDR continua a apresentar temperaturas da superfície do mar ligeiramente abaixo da média climatológica (uma raridade no planeta!). Esta combinação entre águas menos favoráveis e forte cisalhamento vertical do vento reduz substancialmente a probabilidade de desenvolvimento tropical significativo nas regiões tradicionalmente mais ativas do Atlântico (qualquer onda tropical que sai de África tem probabilidade mais baixa de desenvolvimento significativo)

Nos subtrópicos, contudo, a situação é ligeiramente diferente. A Sudoeste dos Açores, e mesmo entre os Açores e a Madeira, continuam a existir áreas com águas entre 26 e 28ºC, onde pequenas depressões poderão, ocasionalmente, adquirir características subtropicais ou mesmo tropicais. Estas situações continuam a ser pouco prováveis, mas são precisamente aquelas que merecem maior acompanhamento nas próximas semanas
Mantemos, por isso, a previsão de uma época de furacões muito abaixo da média, podendo mesmo tornar-se a menos ativa do século XXI como adiantámos há alguns meses atrás. Ainda assim, basta existir uma curta janela favorável para que um único furacão intenso consiga formar-se, razão pela qual toda a época deverá continuar a ser acompanhada com grande atenção
Entretanto, merece destaque o desenvolvimento do TC-AIFS, um novo modelo de Inteligência Artificial do ECMWF dedicado especificamente à previsão de ciclones tropicais. Os primeiros testes têm mostrado resultados bastante promissores, numa fase em que vários organismos meteorológicos norte-americanos enfrentam limitações orçamentais e menor investimento na área da previsão

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 8:30H de 5 de agosto de 2026
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