CICLONES NO ATLÂNTICO? O QUE SIGNIFICA PARA O NOSSO PAÍS?
Depois de um mês de novembro com elevada variabilidade, com alguns períodos chuvosos (o mês, no geral, terá sido chuvoso, embora seja necessário confirmação pelo IPMA através do relatório climático) e outros períodos mais secos, principalmente agora na segunda quinzena, com o surgimento do anticiclone, dezembro pode vir a trazer ainda mais variabilidade e imprevisibilidade – com a atividade de ciclones a disparar no fim do mês de novembro
Já falámos muito sobre o vórtice polar, e, efetivamente, pela primeira vez desde que há registos tivemos um aquecimento súbito da estratosfera em novembro, com reversão temporária dos ventos em altitude a 60°N -Leste para Oeste – contudo, e apesar deste ser um fator importante para a evolução meteorológica nas próximas semanas, certamente, é impossível prever com exatidão de que forma pode afetar o tempo – não deixando de ser algo notável
Aquilo que nos parece evidente, de momento é que esta situação, inicialmente, não se traduzirá na reversão dos ventos nas camadas baixas da troposfera – o que traria mais frio – mas o contrário, uma intensificação do jato polar, e, por consequência, a formação de ciclones profundos no Atlântico Norte, enquanto o padrão atmosférico muda
As depressões formam-se quando ar quente e húmido encontra ar frio, criando uma zona de baixa pressão que gera nuvens, ventos fortes e, dependendo da evolução tempestades – aquelas que depois podem vir a ser nomeadas, dependendo dos efeitos. Sim, dezembro entrará com atividade ciclónica no Atlântico – mas o que isso significa em Portugal? Não é fácil de prever, mas continue a ler para perceber a possível evolução!

NAO+ VAI PREDOMINAR – DE QUE FORMA AFETARÁ O TEMPO EM PORTUGAL?
Novembro termina então com variações, e com transição rápida de padrões atmosféricos, o que é típico de alterações profundas na atmosfera. Não é nada de anormal, contudo, e faz parte dos ciclos do clima anualmente – e é isso que faz com que ora chova, ora esteja sol, mudando rapidamente – ao contrário dos padrões de bloqueio, que tendem a prolongar o mesmo estado atmosférico mais dias

Mas o que significa afinal NAO+, o regime atmosférico com que começará dezembro? Bem, significa que o anticiclone na região dos Açores está mais intenso que na região da Gronelândia (pressão mais alta nas latitudes subtropicais em comparação com as polares e subpolares). Isto significa, geralmente, que as depressões que se possam formar não afetam diretamente Portugal (não garantindo, no entanto). NAO significa oscilação do Atlântico Norte (ou Northern Atlantic Oscillation, em Inglês)
Mas prever apenas com base neste índice (positivo ou negativo) é algo muito simplificado, e não dá bom resultado – apesar de um índice positivo (NAO+) estar associado, efetivamente a regimes mais secos em Portugal, nem sempre assim é – e os efeitos indiretos podem ser bem sentidos dependendo da evolução das depressões – mesmo que o centro passe, por exemplo, no Reino Unido, podemos ser “presenteados” com frentes intensas, e frio, eventualmente
Dezembro deve, então, até começar com chuva, mas mais detalhes em breve – para já é impossível prever! Fica apenas a nota que este padrão climático anula, normalmente, entradas de frio mais intenso, pelo que, para já, podemos ter frio, sim, mas tudo normal
De notar também que isto é apenas o início de dezembro – depois muito pode acontecer, com o ECMWF a favorecer o padrão mais bloqueado depois, algo que é compatível com a MJO (Oscilação de Madden-Julian), outra teleconexão importante relacionada com a atividade de trovoadas nos Oceanos, a entrar nas fases 7 e 8 de forma notável, o que favorece, de facto, este tipo de regime
As cores azuis a serem substituídas gradualmente pelo vermelho – significa, nesta previsão ECMWF, a instalação de bloqueio ao longo de dezembro
Devemos realçar que estamos a falar de Portugal Continental, mas nos Açores os efeitos de NAO+ são, normalmente, mais notórios – pois, como já explicámos, a alta pressão tende a dominar sobre o arquipélago, afastando as depressões
Isso explica a ausência de sinal para precipitação significativa na primeira semana de dezembro, segundo os modelos de previsão numéricos. Também na Madeira, dada a proximidade do anticiclone, tende a haver tempo estável, embora ainda com incertezas, obviamente!

DE QUE FORMA UM BLOQUEIO PODERÁ TRAZER MUDANÇAS A PORTUGAL?
Para percebermos de que forma esta situação nos pode trazer mudanças, e significativas, temos de perceber, primeiro, o que é um bloqueio atmosférico, afinal?
Trata-se de um padrão atmosférico em que a corrente de jato enfraquece, e, por essa razão, os elementos sinóticos (depressões\anticiclones) se tornam mais estáticos – com uma corrente mais fraca as depressões acabam por se movimentar mais lentamente, e, por essa razão, as condições dinâmicas para formação de ciclones deixam de se registar. Ao mesmo tempo os anticiclones “relaxam”, e, não havendo forçamento do Atlântico as altas pressões tendem a estabilizar e “bloquear”
Isso traduz-se, muitas vezes, no Inverno, em instalação de altas pressões sobre o Reino Unido, por exemplo, que, em Portugal, na maioria dos casos, nos traz tempo seco, entre o frio e o ameno – as noites, tendencialmente, e por serem de céu limpo, são frias, mas as tardes soalheiras e amenas. Como há pouco vento com este padrão pode haver nevoeiros, por vezes persistentes. Não é incomum haver pressão de 1040hPA, ou mais, no inverno, em Portugal
Assim, por norma, traduz-se em algo mais seco em Portugal, contudo, caso haja uma reversão da corrente de jato, e mais influência de leste, podemos ver massas de ar frio a chegar ao nosso país, e mais frio – é esse o “risco” que existe com as perturbações do vórtice polar – ao mesmo tempo que essas massas de ar podem “empurrar” o anticiclone mais para Norte, em direção a latitudes mais elevadas, e permitir que alguma depressão se aproxime
Obviamente que ar Atlântico e ar frio em interação podem gerar tempestades, e, havendo precipitação e frio pode haver, também, queda de neve, ocasionalmente – é uma situação a seguir, certamente, na segunda quinzena do mês. Deve ser notado, no entanto, que apenas os primeiros 4 de 5 dias de dezembro parecem mais previsíveis para já, devendo havendo alguma chuva mais a Norte e Centro, algum vento, e até neve na Serra da Estrela, pelo menos. Depois? O melhor é ir acompanhando!

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