Aquecimento extremo, El Niño recorde, super-tufão Champi – tem ouvido falar disto na TV? Provavelmente não (ou pouco)… Enquanto tanto se fala de guerras, crise do petróleo, e outras notícias que ocupam os telejornais 24\7, o planeta continua a aquecer a um ritmo impressionante, e o pior está para vir, com as previsões atuais a apontarem para dias com anomalias de temperatura global superiores aos +2ºC relativamente à era pré-industrial, numa altura em que o El Niño de 2026 continua a intensificar-se
Depois de uma breve estabilização, o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial volta a apresentar sinais de intensificação, especialmente nas regiões mais a Leste, sendo plausível que continue a intensificar. Este fenómeno continua a atingir valores extraordinários, contrariando quem nunca acreditou que pudesse ser tão forte, com temperaturas oceânicas muito superiores ao habitual e uma quantidade enorme de energia armazenada no oceano. Tudo indica que ainda não atingimos o pico deste episódio
Os efeitos sobre a atmosfera começam também a tornar-se cada vez mais evidentes, apesar de existir normalmente algum atraso entre o aquecimento do Pacífico e a resposta da temperatura média global. É precisamente por essa razão que os meses seguintes ao pico do El Niño podem apresentar as temperaturas globais mais elevadas, mesmo quando o fenómeno pode já estar a enfraquecer, e por essa razão que em 2027 esperamos o ano mais quente de sempre
Segundo a previsão GFS, analisada através da série de anomalias globais disponibilizada por Karsten Haustein (e visível no gráfico abaixo) as temperaturas médias do planeta poderão apresentar valores diários próximos de +1,2 a +1,3ºC relativamente à média de 1981-2010, por volta de 24 de outubro. Considerando a diferença entre este período de referência e a era pré-industrial de 1850-1900, falamos de anomalias próximas dos 2.1ºC – sim, são valores diários, e não mensais ou anuais, mas impressionam…

Tudo isto surge depois de agosto de 2026 ter sido o agosto mais quente já registado, empatando com julho de 2023 como o mês mais quente em termos absolutos, e de setembro ter terminado como o segundo setembro mais quente da história. Outubro segue na mesma linha – provavelmente será o mais quente em registo. Este aquecimento não é provocado exclusivamente pelo El Niño, que funciona sobretudo como um amplificador temporário de uma tendência de aquecimento antropogénico já muito evidente

EL NIÑO – DIAS MAIS QUENTES JÁ REGISTADOS NA TERRA A CAMINHO?
O gráfico de anomalias globais que apresentamos mostra uma evolução particularmente preocupante desde o início do Verão. Depois de várias oscilações durante os primeiros meses do ano, a temperatura média global começou a apresentar uma tendência de subida mais consistente a partir de junho e julho, coincidindo com o desenvolvimento do atual El Niño. Desde então, tanto as observações como as previsões têm mostrado valores progressivamente mais elevados, especialmente no Hemisfério Norte
É importante analisar corretamente estes números: o gráfico utiliza como referência o período de 1981-2010, que já era consideravelmente mais quente do que a era pré-industrial. A diferença entre as duas referências é de aproximadamente 0,7 a 0.8ºC, pelo que uma anomalia global diária de +1,3ºC relativamente a 1981-2010 corresponde a cerca de 2 a 2.1ºC face a 1850-1900. São valores extraordinários que nos levam a questionar “o que andamos afinal a fazer?”
Outro aspeto a ter em conta é que os meses de Inverno do Hemisfério Norte apresentam frequentemente algumas das maiores anomalias globais relativamente às respetivas médias climatológicas. Isto não significa que sejam os meses mais quentes em temperatura absoluta, mas sim que podem apresentar os maiores desvios face ao normal. Assim consideramos perfeitamente plausível que os próximos meses apresentem novos episódios diários com anomalias superiores a 2ºC em relação à era pré-industrial, com dias individuais perto de… 2.5ºC

As consequências deste aquecimento são evidentes: Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor de água, aumentando o potencial para precipitação intensa quando existem condições favoráveis à sua formação. Ao mesmo tempo, temperaturas elevadas favorecem uma maior evaporação e podem agravar as secas em regiões onde a precipitação diminui. Isto tem sido demonstrado em diversas regiões do planeta
Obviamente não podemos atribuir automaticamente cada inundação ou tempestade ao El Niño ou às alterações climáticas sem uma análise específica. O que sabemos é que o aquecimento global está a aumentar o potencial de determinados fenómenos extremos, enquanto o El Niño altera a distribuição da precipitação e da circulação atmosférica
Mesmo durante episódios de La Niña, que normalmente favorecem um arrefecimento temporário da temperatura média global, continuámos a observar temperaturas extraordinariamente elevadas. Isso demonstra que o problema é muito mais profundo do que uma simples oscilação natural do Pacífico

SUPER TUFÃO CHAMPI – UM DOS MAIS FORTES JÁ REGISTADOS NA TERRA?
Enquanto acompanhamos as temperaturas globais, com apreensão existe outro fenómeno que merece destaque: o tufão Champi, atualmente em desenvolvimento no Pacífico Ocidental, e que poderá tornar-se um dos ciclones tropicais mais intensos dos últimos anos. As previsões apresentam condições particularmente favoráveis à sua intensificação, incluindo temperaturas oceânicas muito elevadas, bastante humidade e uma diminuição significativa do cisalhamento vertical do vento durante os próximos dias
O ensemble do Google DeepMind Weather Lab, um dos melhores modelos de previsão de ciclones tropicais, apresenta cenários que impressionam. A previsão média aponta para um tufão muito intenso, enquanto alguns membros individuais chegam a simular ventos máximos próximos dos 160 a 170 nós, valores compatíveis com a categoria 5 na escala Saffir-Simpson. Na pressão atmosférica a previsão média aproxima-se dos 915-920 hPa, com algumas soluções individuais a descerem dos 900 hPa
Também os modelos meteorológicos tradicionais mostram potencial para uma intensificação muito significativa. O GEFS apresenta uma redução do wind shear para valores próximos dos 5 a 10 kts nos dias mais favoráveis, temperaturas da superfície do mar próximas dos 29 a 30ºC e humidade relativa elevada nos níveis médios da atmosfera. Esta combinação favorece a organização do ciclone e poderá permitir um processo de rápida intensificação, especialmente se o núcleo interno conseguir desenvolver-se sem perturbações significativas

Outras simulações de modelos especializados, incluindo saídas do HWRF e HAFS-A, também têm apresentado cenários com pressões próximas dos 900 a 920 hPa, enquanto algumas soluções individuais do ECMWF poderão mesmo descer para valores ainda mais extremos, próximos dos 880 hPa!
Estes cenários mais agressivos devem ser interpretados com cautela, uma vez que não representam o consenso dos modelos. Um tufão com 880 hPa seria absolutamente excecional, mas ainda não podemos afirmar que “Champi”, nome atribuído pela JMA, atingirá essa intensidade
A trajetória continua igualmente incerta. O cenário mais consistente favorece uma deslocação inicial para Oeste/Noroeste, com aproximação à região das Filipinas e posteriormente a Taiwan. Existe também a possibilidade de uma viragem para Norte, dependendo da evolução do anticiclone subtropical, que poderá colocar outras regiões do Leste Asiático, incluindo eventualmente o Japão, sob ameaça durante os próximos dias. Toda a área deve acompanhar com muita atenção a evolução prevista…

PACÍFICO MUITO ATIVO, ATLÂNTICO QUASE PARADO – O QUE EXPLICA ESTA DIFERENÇA?
A atividade tropical no Pacífico continua bastante intensa, contrastando com uma temporada atlântica extraordinariamente calma. Esta diferença está de acordo com aquilo que seria esperado num ano de El Niño forte, uma vez que o fenómeno tende a favorecer condições mais propícias à organização de ciclones em determinadas regiões do Pacífico, enquanto aumenta o cisalhamento vertical do vento sobre grande parte do Atlântico tropical
No Atlântico, apesar de já termos registado o furacão Isaias, que atingiu a categoria 3, e provocou danos importantes nos Estados Unidos, a atividade ciclónica continua muito reduzida para a época, especialmente quando comparada com temporadas mais ativas do século XXI. Ainda falta mais de um mês para o final oficial da temporada, a 30 de novembro, pelo que não podemos considerar a atividade encerrada, mas os sinais continuam relativamente pouco favoráveis ao desenvolvimento generalizado de novos furacões intensos
E o próximo ano? A situação poderá ser bastante diferente. Se o El Niño começar a enfraquecer durante 2027, o cisalhamento atmosférico sobre o Atlântico poderá diminuir, criando condições mais favoráveis ao desenvolvimento tropical, particularmente na área de desenvolvimento tropical principal (MDR)
Isto não significa que a energia acumulada no oceano tenha necessariamente de ser libertada através de furacões – vai sendo gradualmente libertada para a atmosfera, também (aquecendo ainda mais o planeta). A temperatura da água é, contudo, um dos ingredientes principais para a intensificação de furacões e a atividade tropical de 2027 começa já a ser uma preocupação, embora ainda sem previsões concretas

O PERMAFROST DERRETE, GLACIARES DERRETEM… PONTO DE NÃO RETORNO?
Outro dos sinais mais preocupantes do aquecimento global está a surgir nas grandes regiões montanhosas: damos o exemplo da Ásia, especialmente nos Himalaias. O Nepal tem enfrentado sucessivas situações de cheias rápidas, aluviões e deslizamentos de terras, algumas delas com consequências devastadoras para as populações e infraestruturas. O aquecimento das regiões em latitudes mais altas está a transformar profundamente a estabilidade das encostas, dos glaciares e dos lagos de origem glaciar
No passado dia 11 de outubro ocorreu mais uma cheia rápida no sistema do rio Budhi Gandaki, que provocou destruição significativa depois de um deslizamento de terras ter bloqueado temporariamente o curso de água. A posterior libertação da água acumulada originou uma onda de cheia que afetou comunidades a jusante. Este episódio junta-se a outras catástrofes recentes na região
Nas regiões de grande altitude, as anomalias de temperatura estão a ser extraordinárias, chegando pontualmente a valores de temperatura 10 a 15ºC relativamente às médias climáticas… O recuo dos glaciares e a degradação do permafrost podem desestabilizar encostas, favorecer deslizamentos de rochas e todos estes fenómenos destrutivos descritos. Quando as barreiras naturais destes lagos glaciares cedem podem ocorrer cheias súbitas destrutivas, mesmo sem episódios de precipitação particularmente intensa
O problema não termina aí, infelizmente… O permafrost contém grandes quantidades de matéria armazenada há milhares de anos e, à medida que descongela, parte desse carbono pode ser libertada para a atmosfera através de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4). O metano é um gás com forte capacidade de retenção de calor, ainda mais que o CO2, pelo que tudo isto tende a agravar o aquecimento, com efeitos de “feedback”
A palavra permafrost vem do inglês “permanent frost”, traduzido para “congelamento permanente”, e trata-se de massa que nunca deveria descongelar, em condições climáticas normais. Estamos, portanto, com sinais cada vez mais preocupantes de aproximação a limiares críticos, Com um El Niño extraordinariamente forte a amplificar temporariamente o aquecimento provocado pelas atividades humanas, os próximos meses poderão trazer novos extremos, com os riscos continuamente a aumentar…

Análise elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo a 17 de outubro de 2026 às 5:34H
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