Um Super El Niño continua a reforçar-se no Oceano Pacífico, e os mais recentes dados dos modelos de previsão voltam a aumentar a intensidade prevista, e aumentam a preocupação de toda a comunidade científica. É sabido há vários meses que este seria um episódio forte, mas agora várias previsões convergem, e apontam para um evento extremo, com as simulações mais recentes a elevarem ainda mais a intensidade esperada – sem dúvida o mais intenso desde que há registos
Embora os efeitos de um El Niño demorem normalmente algum tempo a propagar-se para o clima que sentimos, já começam a surgir sinais consistentes com este fenómeno em várias regiões do planeta: Desde temperaturas globais excecionalmente elevadas, até secas persistentes em parte da Europa, passando por alterações na atividade ciclónica dos oceanos. Vários indicadores mostram que o planeta começa a responder ao aquecimento anómalo das águas do Pacífico Equatorial, mostrado assim que mais que uma previsão, o El Niño já é realidade
Importa recordar que nenhum fenómeno climático se pode atribuir exclusivamente ao El Niño. A atmosfera é influenciada por diversos padrões de circulação, e pela própria tendência de aquecimento global antropogénica, o que significa que nem todos os impactos podem ser atribuídos exclusivamente ao El Niño. Ainda assim, quando ocorre um episódio desta magnitude, a sua influência torna-se dominante, e é natural que se lhe comece a atribuir a culpa de tudo o que acontece – o que não é correto
Os próximos meses poderão ser determinantes: À medida que este fenómeno continua a intensificar-se, aumenta também a probabilidade de fenómenos meteorológicos extremos em diferentes regiões do planeta, desde secas prolongadas a precipitação excessiva, ondas de calor persistentes e alterações importantes na atividade tropical. Dependendo da intensidade final verificada, que infelizmente não deve fugir muito das previsões, o risco de situações catastróficas é evidente

“SUPER” EL NIÑO CONTINUA A INTENSIFICAR-SE E AS PREVISÕES PIORAM
Os mais recentes modelos climáticos continuam a reforçar um cenário extremamente invulgar para a evolução do El Niño. Várias simulações apontam agora para que a anomalia da temperatura da superfície do mar na região ENSO 3.4 ultrapasse os 4ºC durante o início de 2027, um valor muito acima daquilo que caracteriza um evento forte (1.5ºC). O valor registado em 1877, um ano trágico, em que cerca de 50 milhões de pessoas perderam a vida em diversas catástrofes climáticas, foi de 2.7ºc
Caso estas projeções se confirmem, estaremos perante o episódio mais intenso alguma vez registado no planeta Terra, sendo que ultrapassar os 4ºC colocaria este fenómeno num patamar sem precedentes nas séries longas de observações, e, provavelmente, segundo alguns estudos climáticos, em milhares de anos. E, se é verdade que sempre houve “El Niño”, como comprova o fenómeno de 1877, nunca houve um fenómeno tão intenso num contexto de aquecimento prévio significativo
Embora exista sempre incerteza nas previsões de longo prazo, a tendência dos modelos tem sido consistente: em vez de enfraquecerem o sinal, têm vindo sucessivamente a aumentar a intensidade prevista. Isso significa que o risco de impactos climáticos globais relevantes continua a crescer à medida que novos dados são incorporados (dados de observações, o que significa que, até ver, as observações superam a previsão, o que é incrível). Cada vez mais acreditamos que estamos perante algo histórico, efetivamente
Os efeitos mais significativos de um El Niño desta magnitude normalmente prolongam-se durante muitos meses, podendo influenciar o clima até bem dentro de 2027, mesmo após o pico das temperaturas no Pacífico Equatorial – e dada a intensidade não surpreendia que durasse até 2028, pelo menos a primeira metade do ano

TEMPERATURAS GLOBAIS CONTINUAM A SUBIR E JÁ ULTRAPASSAM OS 17ºC
Outro dos sinais mais evidentes da evolução do fenómeno, e dos seus efeitos, encontra-se na temperatura média global da superfície terrestre. Nos últimos dias esta tem permanecido acima dos 17ºC, um valor muito elevado e raro nos registos modernos – apenas em 2023 e 2024 se tinha registado. A 26 de julho registava-se o 7º dia consecutivo acima deste patamar
Estes valores traduzem-se numa anomalia superior a 1,5ºC relativamente ao período pré-industrial, um limiar frequentemente utilizado como referência nos estudos climáticos internacionais. Embora um único dia acima desse valor não represente, por si só, o incumprimento dos objetivos do Acordo de Paris, demonstra claramente a intensidade do aquecimento atualmente observado. 2026 pode terminar, mais uma vez, próximo desse valor, em média anual, tal como 2024 e 2025 (a média a 3 anos atual é 1.54ºC, o que deve fazer questionar esse mesmos objetivos…)
O reforço do El Niño deverá contribuir para manter as temperaturas globais muito elevadas durante os próximos meses, somando-se ao efeito do aquecimento global provocado pelo aumento das concentrações de gases com efeito de estufa. Alguns modelos de previsão sugerem aquecimento até 2ºC a nível global e um pico de temperatura global de cerca de 17.3 a 17.5ºC dentro de um ano. Esperemos que abra os olhos de quem nos governa para o que realmente se está a passar, e se tomem medidas mais concretas!
À medida que o oceano continua a libertar mais calor para a atmosfera (e o oceano já regista 50 dias seguidos em valores recorde!) aumenta também a probabilidade de novos recordes de temperatura média global serem estabelecidos. Além disso aumenta, e muito, a quantidade de vapor de água, favorecendo também episódios de chuva extrema

EUROPA “SOB PRESSÃO”: SECA, CALOR EXTREMO E UM OUTONO QUE PODE SER MUITO CHUVOSO
Grande parte da Europa continua sob condições de seca persistente, particularmente nas regiões Ocidentais e Centrais. Em simultâneo, sucedem-se as ondas de calor, com vários países a registarem temperaturas excecionalmente elevadas e uma vaga de incêndios florestais, favorecidos pela vegetação extremamente seca, na sequência de meses quase sem precipitação
Alguns destes padrões são compatíveis com aquilo que normalmente se observa durante episódios fortes de El Niño. Contudo, a circulação atmosférica apresenta também características menos habituais, sugerindo que este poderá ser um evento com impactos ainda mais abrangentes do que os registados em episódios anteriores – e mais imprevisíveis
Caso o padrão atmosférico evolua como atualmente previsto, a seca poderá prolongar-se durante parte do verão, sendo posteriormente substituída por um período muito mais instável no outono, de forma repentina, quando massas de ar mais húmidas conseguirem finalmente penetrar sobre o Continente Europeu. Isso poderá favorecer episódios de chuva intensa e localmente excessiva – amplificadas por águas quentes e um regime NAO-, típico destes fenómenos intensos
Um dado particularmente impressionante desta seca é o caso de Londres, que poderá terminar julho sem qualquer precipitação mensurável durante todo o mês, algo que, a confirmar-se, é algo inédito desde o início dos registos naquela cidade. Não queremos com isto generalizar, mas quando Londres, habitualmente um local relativamente húmido, tem um mês consecutivo sem uma gota de água, e com média de temperaturas cerca de 4ºc acima do habitual, algo não está bem…

PACÍFICO MUITO ATIVO, ATLÂNTICO CALMO: O EL NIÑO MUDA A ATIVIDADE TROPICAL
Enquanto o Atlântico continua muito tranquilo para a época do ano (sem surpresas!), o Pacífico Ocidental continua a mostrar sinais claros de forte atividade ciclónica, um comportamento compatível com episódios intensos de El Niño, como já referimos em diversas ocasiões
O destaque dos próximos dias vai para o tufão Dolphin, que deverá intensificar-se rapidamente sobre águas muito quentes. Algumas simulações meteorológicas apontam mesmo para uma pressão central inferior a 900 hPa, o que, a confirmar-se, poderá permitir que atinja a categoria 5, entrando no grupo restrito de ciclones tropicais que alcançaram os sub-900 hPA no planeta. Não é certo, mas será muito intenso. Este ciclone pode afetar China ou Japão no início de Agosto, a confirmar…
Este poderá ser apenas um, de muitos, numa época particularmente ativa no Pacífico, onde vários modelos climáticos sugerem condições muito favoráveis ao desenvolvimento de novos super-tufões ainda durante os próximos meses. No Atlântico, pelo contrário, o El Niño continua a aumentar o cisalhamento do vento (wind shear), dificultando o desenvolvimento de ciclones tropicais. Por isso, apesar das águas quentes a tendência continua a favorecer uma época relativamente calma em termos de furacões
Dito isto é necessário manter a atenção: apenas 1 ciclone basta para causar estragos significativos, e basta que se forme no “local certo à hora certa” e consiga fugir ao shear para que se intensifique. Será difícil, contudo, porque o Atlântico está realmente hostil ao desenvolvimento vertical significativo

UM CLIMA EM RÁPIDA MUDANÇA
Os dados mais recentes reforçam, sobretudo, uma mensagem que devemos passar: os efeitos do El Niño estão apenas a começar a manifestar-se. As previsões continuam a agravar-se, os sinais tornam-se mais visíveis em diferentes regiões do planeta e tudo indica que os próximos meses poderão trazer impactos climáticos ainda mais evidentes
Temos de estar preparados para fenómenos muito intensos, potencialmente catastróficos nos próximos 18 a 24 meses, com impactos sociais e económicos. Dada a natureza extrema do fenómeno, algo inédito, os efeitos são mais imprevisíveis e vamos monitorizado a situação, trazendo atualizações quando necessário
Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 12H de 28 de julho 2026

