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Com um forte El Niño já instalado, confirmado pelas observações mais recentes, que mostram que a anomalia no Oceano Pacífico na zona “ENSO” já acima de 1.5ºC, os dados e as projeções provenientes dos principais modelos climáticos globais apontam agora, com uma margem de dúvida quase nula, para que este evento se venha a tornar no mais forte alguma vez registado na história moderna
Como resultado direto dos efeitos característicos que este fenómeno tem sobre a circulação atmosférica global, e em particular devido à intensidade extraordinária deste episódio, começam a surgir sinais claros de um padrão de “Inverno precoce”. O acoplamento Oceano\Atmosfera deverá favorecer um padrão de chuva excessiva e muito acima da média, além de persistente ,em várias regiões do globo
Com o foco da nossa análise centrado na Europa, os modelos sazonais começam a mostrar um cenário chuvoso, com uma probabilidade invulgarmente elevada para esta distância temporal. Há uma concordância pouco comum entre ensambles, além de multi-modelo, no sentido de precipitações muito acima da média climática para o outono, uma tendência húmida e instável que, segundo as projeções, se deverá prolongar ao longo do Inverno
É óbvio que, a esta distância temporal, existe sempre uma margem de incerteza inerente às previsões de longo prazo. Recordamos, como exemplo, que no ano passado os cenários apontavam para um outono e inverno secos e, como bem sabemos, essas previsões revelaram-se totalmente erradas, acabando o período por ser marcadamente chuvoso, instável, com o famoso “comboio de tempestades” que tantos estragos causou
Um sinal de anomalia tão prognosticado e persistente nos modelos de previsão não deve, de forma alguma, ser ignorado, particularmente quando quase todas as simulações dos modelos sazonais internacionais mostram um cenário muito semelhante e consistente entre si, um cenário que vai totalmente ao encontro do que, cientificamente, esperamos durante um fenómeno El Niño. Como é um fenómeno “em território desconhecido” de intensidade, pode haver surpresas que não conseguimos prever, no entanto

TEMPESTADES MAIS FREQUENTES NO OUTONO?
Um dos maiores riscos para o Outono que se avizinha prende-se com a rápida transição e fortalecimento do jato polar, associado ao recuo gradual das altas pressões que têm vigorado durante o Verão. Esta alteração gradual favorecerá o cavamento de baixas pressões a Norte, algo que é natural na transição Verão-Outono
Contudo, ao arrastarem ar significativamente mais fresco das latitudes árticas em direção a Sul, estas depressões encontrarão um Atlântico excessivamente quente. Este brutal choque térmico poderá potenciar ciclogéneses muito mais intensas e dar origem a tempestades severas. A ausência de fluxos de Norte neste Verão leva a que o Atlântico na nossa latitude esteja com uma temperatura muito elevada, que se deve manter até ao Outono
Mesmo na ausência de ciclogéneses explosivas, que só se podem prever com poucos dias de antecedência, o risco de chuva excessiva é muito elevado, devido aos níveis recorde de água precipitável. A atmosfera, sob forte evaporação oceânica a nível global, está carregada de humidade disponível para descarregar, e, tendo em conta a previsão de baixas pressões, não será difícil haver o “forçamento necessário” para que essa precipitação possa ocorrer
A nível global, o El Niño gera uma forte convecção e ar em ascensão num lado do planeta, provocando cheias na América do Sul. Do outro lado, o ar subsidente e seco gera secas severas na Ásia e Austrália, mostrando a dualidade potencialmente destrutiva deste padrão global

Para a Europa, este ano as condições parecem organizar-se claramente para um outono chuvoso devido à força inédita deste evento. Tendo em conta a reduzida capacidade de encaixe das barragens portuguesas após as cheias do último inverno, a situação poderá tornar-se rapidamente complicada, pelo que é necessário desde já adotar medidas de mitigação de risco
Infelizmente, e habitualmente, adotamos uma postura de “esperar para ver”, e desvalorizamos os sinais de longo prazo, com “medo” que se tomem medidas, e nada aconteça. Se não acontecer? Melhor, podemos todos respirar de alívio. Contudo, se acontecer, estaremos melhor preparados, e podemos evitar situações de catástrofe

TEMPERATURAS ACIMA DO NORMAL? RISCO DE DISRUPÇÃO DO VÓRTICE POLAR
Se no capítulo da precipitação podemos registar uma chegada precoce dos regimes de inverno, no que toca às temperaturas o cenário poderá ser exatamente o oposto. A prevalência de fluxos marítimos húmidos e a constante cobertura de nuvens tendem a impedir o frio prolongado, como aliás é habitual
É exatamente esta tendência que modelos de referência como o NMME e o ECMWF antecipam para o Continente Europeu. As projeções apontam para anomalias de temperatura positivas em praticamente todo o Continente Europeu durante o outono e parte do inverno, mantendo-se geralmente ameno durante grande parte dos dias, sem entradas frias relevantes e prolongadas
Embora este padrão não anule a hipótese de episódios pontuais de geadas ou frio decorrente de entradas polares ocasionais, que podem gerar queda de neve, a tendência é para que sejam fenómenos muito pontuais. Teremos de contar com noites menos frias, e dias mais amenos, pontualmente mais abafados – apesar de (provavelmente) escuros
No entanto, o comportamento do vórtice polar estratosférico será o grande elemento de incerteza a acompanhar. Historicamente, os invernos sob a influência de um Super El Niño forte registam uma probabilidade muito superior de perturbação ou divisão do vórtice, particularmente a meio da estação. Se ocorrer um aquecimento estratosférico repentino, com consequente quebra do vórtice polar, o padrão atmosférico pode sofrer uma reviravolta radical. Este é principal fator que nos faz acreditar que poderá trazer frio “a sério” e neve tardia às nossas latitudes no decorrer do Inverno

2ºC DE AQUECIMENTO EM RELAÇÃO AO PERÍODO PRÉ-INDUSTRIAL?
A intensidade projetada para este “Super El Niño” já se reflete de forma muito evidente nas simulações climáticas de longo prazo, como as do sistema multi-modelo\ensemble NMME. Estes modelos começam a estimar um aquecimento médio global temporário perto da barreira dos 2ºC já no final do ano!
Este desvio de temperatura é calculado tendo como referência o período pré-industrial de 1850-1900. Trata-se de um valor que, mesmo temporário, representa um marco histórico extremamente preocupante para o equilíbrio térmico e climático da Terra – um valor que esperávamos apenas bastante depois de 2050
Num planeta já de si muito aquecido pelo efeito de estufa antropogénico, com emissão de gases como CO2 a aumentar, a sobreposição deste El Niño recorde irá amplificar esse mesmo calor. Toda a energia libertado pelo Pacífico irá alterar as correntes de jato e aumentar o risco de extremos a nível mundial
Os riscos diretos associados a este pico de temperatura traduzem-se no aparecimento de mais ondas de calor marinhas e na perda acelerada de gelo polar. Além disso, aumenta drasticamente a frequência de eventos severos com potencial de disrupção social e económica, como, aliás, já temos visto nos últimos meses
A Luso Meteo continuará a acompanhar atentamente as atualizações destes dados à medida que nos aproximamos do Outono\Inverno. Perante um clima cada vez mais incerto, a prevenção e a gestão inteligente do risco serão vitais para os próximos meses
Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 14H de 14 de julho de 2026
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