Quando olhamos à temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial percebemos que o nível de alerta cresce face à possibilidade de um Super El Niño, cada vez mais crescente. A atual subida das temperaturas do mar não é apenas mais uma: segue muito acima de qualquer outro episódio histórico registado até hoje, sugerindo que estamos mesmo perante um fenómeno histórico, que pode alterar por completo a circulação atmosférica em todo o planeta
A nível global, os efeitos deste fenómeno costumam ser mais fáceis de identificar, e por vezes devastadores. Enquanto a Austrália e a Indonésia enfrentam secas severas, que podem levar a fogos florestais, a América do Sul sofre frequentemente com inundações históricas que destroem colheitas e habitações. Mas quando tentamos prever o que pode ocorrem em Portugal, tudo muda: os efeitos do El Niño no nosso país são historicamente imprevisíveis, podendo trazer tanto um inverno ameno e seco como semanas de tempestades consecutivas
O risco que este fenómeno acarreta não deve ser subestimado, e a história serve de aviso. No passado, eventos semelhantes de grande intensidade provocaram crises humanitárias profundas, com secas extremas que destruíram colheitas em África, por exemplo, causando milhares de mortes devido à fome. Há também associação a surtos de doenças. O El Niño pode também destabilizar a economia global, encarecendo os alimentos e sobrecarregando os sistemas de Proteção Civil, particularmente dada a intensidade “absurda” que está prevista
Há, no entanto, um detalhe crucial que importa esclarecer para evitar confusões, que temos estado a ler consecutivamente nos comentários nas nossas redes sociais: Este calor intenso que se tem feito sentir na Europa, e ainda de calor que se vai registar na semana 20-25, que promete quebrar recordes, ainda não tem qualquer ligação direta com este El Niño. A atmosfera demora largos meses a reagir ao que se passa no Pacífico e o pico deste evento só deverá ser sentido lá mais para a frente, durante o outono e, com maior impacto, já no decorrer do próximo ano
O verdadeiro perigo está nos “efeitos combinados” que se avizinham: com o calor acumulado nos oceanos a ser libertado gradualmente para a atmosfera, é muito provável que os próximos anos venham a ser ainda mais quentes a nível global. Atualmente estimamos que este impulso provocado por este fenómeno El Niño possa fazer o planeta ultrapassar de forma temporária a barreira crítica dos 2ºC de aquecimento em relação à era pré-industrial, um limite que temos tentado evitar (obviamente sem qualquer sucesso)

SUPER EL NIÑO – EM TERRITÓRIO DESCONHECIDO…
O grande desafio da comunidade científica é que nunca observámos um El Niño desta magnitude acontecer num planeta que já está, por si só, sob o efeito do aquecimento global. Acaba por ser como se estivéssemos a deitar gasolina num fogo a arder com intensidade. Estes dois fatores, em conjunto, criam um cenário climático inédito, onde os modelos de previsão numérica perdem eficácia porque não têm dados do passado para comparar. Podemos usar os modelos de Machine Learning, que “aprendem” mais eficazmente, mas prever de forma exata… não
Nas regiões tropicais, por exemplo, o impacto nos oceanos será, certamente, muito significativo, e potencialmente trágico. As águas demasiado quentes provocam a morte em massa dos recifes de coral e alteram as rotas de migração do peixe, o que pode impactar severamente as economias locais baseadas na pesca. Esta reação em cadeia mostra-nos que o fenómeno El Niño é muito complexo, assim como o sistema Terra, e que qualquer pequena alteração leva a consequências drásticas
Em Portugal, contudo, a incerteza obriga a mantermos todas as hipóteses em aberto para os próximos meses. Historicamente, alguns dos invernos mais chuvosos (e destrutivos) no nosso país coincidiram com anos de El Niño forte, devido ao desvio da rota das tempestades atlânticas em direção à Península Ibérica. No entanto, analisando de forma profunda, verificamos que noutras ocasiões tivemos um bloqueio anticiclónico prolongado e surgimento de secas intensas
Essa imprevisibilidade reforça a necessidade de preparação em várias frentes, algo que temos vindo a defender há muito tempo. Na vertente hídrica e as autoridades de Proteção Civil têm de estar preparadas para tudo: cheias severas nas principais bacias hidrográficas como em 2025\26? Regresso da seca? Não descartamos nenhum cenário mais extremo. Estar preparado para o pior em ambas as frentes é a única estratégia sensata neste momento
O que os dados atuais nos mostram, acima de tudo, é que a variabilidade natural do clima, que sempre existiu, está a ser amplificada pelas alterações provocadas pelo homem. O El Niño sempre existiu e sempre alterou, temporariamente o clima, mas atualmente é um fenómeno que amplifica um problema já existente (falamos claro do aquecimento global), de formas muito mais significativas. O comportamento do Pacífico nas próximas semanas ditará a escala do desafio que a humanidade terá de gerir. E não é um problema para o futuro, é a curto prazo

Estamos, assim, prestes a entrar num território climático totalmente desconhecido. O Super El Niño que se avizinha caminha a passos largos para quebrar todos os recordes, inclusivamente do Super El Niño de 1877, possivelmente o evento climático mais extremo da história moderna. O seu impacto real na Europa, e em Portugal mais concretamente, continua a ser a grande incógnita
Mais do que tentar adivinhar se o próximo inverno será de seca ou de cheias por cá (porque é isso mesmo, adivinhar, de momento ainda não dá para prever) o foco deve estar SEMPRE na prevenção, e na resiliência do território. Este evento deve servir de aviso para a urgência de adaptarmos as nossas infraestruturas a extremos que, até há poucos anos, pareciam cenários de ficção científica
O pico do fenómeno ainda está para vir e as consequências globais vão estender-se pelos próximos anos. Se as projeções se confirmarem, os anos mais quentes a nível global estão para vir, já em 2027 e 2028, e o mundo terá de aprender a gerir as consequências de um planeta que continua a aquecer a um ritmo inédito. Honestamente, na nossa opinião, não aprendemos com os erros, e portanto tudo irá piorar. Esperemos que não

Se encontrou este artigo no seu feed da Google Notícias\Discover clique em “Seguir” para ver mais das nossas previsões e informações e não perder nada! Siga também a página Luso Meteo – Meteorologia e Clima, nas nossas redes sociais e na Google Notícias AQUI para mais atualizações e informações! As previsões Luso Meteo são atualizadas diariamente AQUI
Se desejar ajudar com donativos para o projeto, para suportar custos de website\manutenção e serviços de subscrição para vos trazer o melhor conteúdo pode fazê-lo, ficamos muito agradecidos! Pode fazê-lo através de MBWay para 918260961, ou IBAN para PT50 0007 0000 0029 3216 7422 3
Especial agradecimento à WebDig, o nosso serviço de alojamento do website – altamente recomendado, com uma fiabilidade e apoio incríveis!

