Uma impressionante e invulgar massa de ar quente pode paralisar parte do continente europeu, colocando milhões de pessoas sob avisos de risco extremo. O epicentro desta situação deve localizar-se em França, onde os modelos numéricos projetam uma sequência inédita de cerca de sete dias consecutivos com temperaturas máximas a oscilar entre os 40ºC e os 45ºC
A confirmar pode ser um evento histórico, que ameaça “pulverizar” os recordes absolutos para o mês de junho, no território francês. Inicialmente esperava-se uma situação quente, mas não tão extrema, mas à medida que os dias se aproximam é claro que o calor se vai instalar de forma significativa e persistente sobre esta região, devido a uma depressão que ficará mais próxima da Europa Ocidental do que inicialmente se esperava
Esta situação de calor extremo não deve dar tréguas sequer no período noturno, com as previsões a apontarem para valores mínimos que teimam em não baixar dos 30ºC em várias regiões francesas. Esta situação não se limita a França: Espanha e outros países do centro da Europa, como a Alemanha, sofrem igualmente com este bloqueio atmosférico, que leva o calor também à Europa Central
A ausência de arrefecimento noturno agrava severamente o stress térmico sobre as populações, de forma mais significativa em regiões urbanas, onde o betão retém a radiação solar e o liberta durante a noite, gerando um cenário ainda mais quente. Num país onde este tipo de calor não é comum, pode tornar-se uma situação muito complicada, eventualmente comparável apenas a Agosto de 2003 (embora, de momento, se preveja que possa ser ainda pior)
Gradualmente, as atenções meteorológicas começam também a virar-se para a Península Ibérica. Em Portugal, os modelos de previsão continuam a mostrar uma tendência clara para uma subida drástica das temperaturas, estimando-se valores da ordem dos 45ºC para os dias 23 e 24 de junho pelos modelos ICON e GFS. Persiste ainda alguma incerteza quanto ao valores máximos, uma vez que o posicionamento exato da referida depressão será o fator decisivo para ditar a rota final desta massa de ar saariana sobre o nosso território

O QUE SE ESPERA EM PORTUGAL?
Para os próximos dias em Portugal, o conjunto de condições atmosférica será bastante complicado, e perigoso. Além dos valores de temperaturas muito elevados, prevê-se uma humidade relativa do ar baixa, com fluxo de Sudeste particularmente entre dias 23 e 24, com o vento a soprar moderado a forte de forma ocasional, sobretudo nas zonas montanhosas
Esta combinação de fatores, que configura os “três 30's”, com 30ºC ou mais de temperatura, 30% ou menos de humidade, e 30km/h, ou mais, de vento, eleva o risco de incêndio rural para o nível máximo, com elevada probabilidade de progressão rápida de qualquer ignição
Perante este cenário meteorológico, as medidas de autoproteção não devem ser meras recomendações e devem ser levadas muito a sério. É fundamental garantir uma hidratação constante ao longo do dia, mesmo sem sentir sede, e evitar por completo a exposição solar direta ou a atividade física nas horas de maior radiação. As habitações devem ser mantidas com as persianas fechadas durante as horas de pico e abertas apenas ao final da noite se o ar exterior arrefecer, prestando especial atenção e apoio aos idosos, crianças e doentes crónicos que não conseguem regular a temperatura corporal tão eficientemente
A configuração sinóptica prevista vai estabelecer um fluxo típico de sudeste, o que significa que o calor mais extremo deve afetar de forma mais severa as regiões do interior, os grandes vales e estendendo-se de forma invulgar até ao Noroeste. Distritos como Braga, Porto e Viana do Castelo poderão registar valores extraordinariamente elevados e iguais ou superiores aos dos do Alentejo! Pelo contrário, apenas o litoral Centro e Sul poderá beneficiar de alguma influência marítima muito ligeira, com temperaturas máximas mais “normais”
Para agravar o cenário, este pico de calor vai coincidir em cheio com as festividades do São João, dias 23 e 24 de junho, com o pico de temperaturas mínimas na noite de 23 para 24 de junho. Esperam-se mínimas tórridas que, localmente, poderão não baixar dos 30ºC ao longo de toda, ou quase toda a madrugada. Escusado será dizer que deve evitar ajuntamentos e multidões nas zonas mais quentes, pois será aí que o calor mais intenso se fará sentir, e amplificar, e que os tradicionais balões de ar quente devem ser evitados a todo o custo!

CALOR A CONTINUAR EM JULHO?
O panorama a médio prazo também não traz notícias animadoras para quem espera um alívio, e tempo fresco. Após dia 25 tudo indica que as temperaturas descem em Portugal (outros países podem ter de esperar mais) mas os primeiros cenários para o mês de julho começam já a desenhar muito calor – tanto modelos tradicionais como os modelos AI\ML, o que confere maior “certeza”
Existe o risco real de assistirmos a novas situações de calor muito intenso logo na primeira semana do próximo mês, com valores de temperatura superiores a 40ºC em Portugal. É importante referir que, em alguns locais, nem podemos sequer falar em “nova onda de calor”, uma vez que a anterior pode nem terminar. Para que tenhamos uma onda de calor bastam 6 dias com temperaturas 5ºC acima da média, o que, para muitos locais, é o mesmo que dizer que com 30-32ºC nesta altura do ano já se pode considerar uma onda de calor
A configuração atmosférica simulada pelos principais modelos, que continua a ser de bloqueio em alta latitude, tende a travar a circulação normal das frentes atlânticas e a fixar as massas de ar subtropical sobre a Península Ibérica e Sul da Europa durante períodos prolongados. Como consequência direta, a tendência aponta para temperaturas persistentemente acima da média climática
Ainda assim os cenários modelados sugerem uma forte probabilidade de ocorrência de picos extremos e repentinos de calor, provocados por estas pulsações de ar quente, mas que podem ser seguidas por arrefecimentos bruscos à medida que pequenas perturbações atlânticas tentam quebrar este bloqueio. Esta situação eleva drasticamente o risco de instabilidade, potencialmente severa, embora, para já, seja demasiado cedo para adiantar pormenores, como é óbvio
O resto do Verão deverá manter o mesmo rumo: muito calor, ocasionalmente severo, e risco de recordes de temperatura em muitas regiões Europeias. Para o outono, tendo em conta a previsão de um Super El Niño, não seria surpreendente se tivéssemos chuva em excesso

Com estas condições a Europa enfrenta uma situação complicada, que cada vez mais mos mostra a nova realidade climática. O movimento desta depressão atlântica, desta vez, até foi favorável para o nosso país (apenas teremos 1 a 2 dias mais extremos), mas não irá poupar França, onde há menos habituação e preparação
Como já dissemos, mais do que debater as décimas ou os recordes que possam vir a cair, seja cá ou em França, a prioridade absoluta tem de se focar na prevenção, na proteção das florestas contra o fogo e na salvaguarda das vidas humanas – não será uma situação fácil, e, por muito que queiramos ser positivos, com um El Niño desta magnitude previsto, e a trajetória atual das alterações climáticas, estes eventos vão ser cada vez mais frequentes e extremos

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