O “Verão” vai voltar a Portugal, com calor e temperaturas claramente acima da média, com valores que, pontualmente, podem exceder os 30ºC e até aproximar-se dos 35ºC durante a primeira quinzena de outubro, provavelmente com pico entre os dias 10 a 15
Naturalmente, já não teremos as mesmas condições que encontramos durante os meses de Verão: as noites são cada vez mais longas e isso permite um arrefecimento mais significativo durante a madrugada, pelo que as temperaturas mínimas serão mais baixas. Ainda assim, não existe qualquer sinal de frio e as massas de ar previstas continuam muito temperadas para a época
Esta extensão do tempo de Verão deve-se essencialmente à persistência do anticiclone, que teima em não se afastar da nossa região. As altas pressões deverão continuar a exercer influência desde os Açores até à Europa Central, dificultando a aproximação das depressões atlânticas e mantendo o tempo predominantemente seco no Continente e na Madeira. Nos Açores, eventualmente, poderão surgir períodos de chuva associados à passagem de algumas perturbações
Durante as tardes teremos novamente uma sensação praticamente de Verão em muitas regiões. Muito sol, vento geralmente pouco significativo e temperaturas claramente superiores ao habitual poderão criar vários dias excelentes para atividades ao ar livre e até para praia, novamente, apesar de já estarmos bem dentro de outubro… Não é algo inédito, mas leva-nos a pensar: se continua assim, será que um dia o Natal é “na praia”?
E, quando nos perguntam quando isto terá fim… a verdade é que não temos uma resposta segura. As previsões tornam-se muito mais complexas para lá dos 7 a 10 dias e pequenas alterações na circulação podem modificar completamente o cenário, ainda para mais numa altura em que a atividade tropical começa a aumentar no Atlântico, podendo ajudar a reorganizar a circulação. Para já, porém, o “Verão” parece estar para durar

TEMPERATURAS ENTRE 30 A 35ºC MUITO PROVÁVEIS PERTO DO MEIO DO MÊS
Esta situação não é totalmente inédita... Outubro consegue, ocasionalmente, “produzir” períodos bastante quentes em Portugal e, nos últimos anos, temos assistido várias vezes a temperaturas pouco habituais precisamente durante a primeira metade do mês. Com o céu limpo, vento favorável e uma massa de ar suficientemente quente, os termómetros ainda conseguem ultrapassar os 30ºC, e até mais alem
Aquilo que este ano poderá ser mais invulgar, embora ainda necessite de confirmação, é a duração do período estável e mais quente. Algumas previsões prolongam a influência anticiclónica para lá do meio do mês e já praticamente até à terceira semana de outubro, sem uma verdadeira mudança para circulação atlântica persistente
Aliás, olhando com mais atenção, boa parte dos modelos coloca atualmente o possível pico deste episódio entre aproximadamente 13 e 15/16 de outubro. Dependendo da intensidade do vento e da colocação exata do geopotencial e massa de ar, máximas de 30 a 33ºC poderão ser muito prováveis nos locais habitualmente mais quentes e, pontualmente, poderemos aproximar-nos dos 35ºC, algo claramente anormal para esta altura do ano
Modelos como ICON, AIFS e IFS têm apresentado cenários com temperaturas aos 850 hPa, aproximadamente 1500 metros de altitude, na ordem dos 16 a 18ºC sobre parte do território. São valores muito elevados para meados de outubro, numa altura em que devíamos estar a começar a ver estes valores a caírem progressivamente, para perto dos 5ºC a esta altitude
Talvez ainda mais impressionante seja a persistência prevista das altas pressões em altitude: o geopotencial aos 500 hPa poderá aproximar-se do percentil 99 para esta altura do ano, segundo algumas previsões, e eventualmente atingir valores próximos dos extremos climatológicos. Em termos simples, parece realmente muito difícil “quebrar” este anticiclone

ATÉ QUANDO ESTE CALOR, E QUANDO CHEGA A VERDADEIRA MUDANÇA?
Para já não existe um final óbvio e definido para este padrão atmosférico. Dentro do período que analisamos neste artigo, entre 7 e 20 de outubro, o cenário mais provável continua a ser de tempo maioritariamente seco e temperaturas frequentemente acima da média. Poderão existir interrupções através da entrada temporária de ar mais fresco ou mesmo de algum episódio de instabilidade e trovoadas (nem é muito provável) mas não vemos ainda uma mudança sustentada
À medida que nos aproximamos de dia 20 e entramos nos últimos dez dias do mês, começa a existir maior suporte para uma eventual alteração da circulação, precisamente como temos vindo a mencionar nas nossas previsões de longo prazo. No entanto, é importante reconhecer que a confiança nesse cenário ainda não é elevada e seria incorreto apresentar neste momento uma entrada definitiva do tempo chuvoso como uma certeza
Algumas previsões sub-sazonais, incluindo as do ECMWF, o melhor modelo, têm mostrado com alguma persistência uma redução da influência anticiclónica mais perto do fim do mês, permitindo uma maior aproximação das perturbações atlânticas. Ainda assim há uma elevada dispersão entre cenários e a tendência que algumas atualizações têm apresentado é para adiar essa mudança à medida que nos aproximamos das datas em questão – o que revela ainda mais incerteza

Um dia a circulação terá, necessariamente, de mudar: obviamente não teremos “Verão” até ao final do ano. A grande questão é perceber quando ocorrerá essa transição e, principalmente, se será apenas uma mudança temporária ou se abrirá a porta a uma sequência mais regular de depressões e frentes Atlânticas, como temos vindo a prever
Fica também outra questão interessante: iremos “pagar” este período extremamente seco e anticiclónico com um final de Outono e Inverno muito chuvosos, como alguns dos sinais sazonais têm vindo a sugerir, ou será esta persistência anticiclónica um indício de que o padrão poderá resistir durante mais tempo do que inicialmente esperado? Neste momento é simplesmente demasiado cedo para responder!
Importa também recordar que o tempo que temos agora não determina aquilo que acontecerá daqui a várias semanas. A atmosfera é extremamente dinâmica e uma reorganização da corrente de jato, uma alteração na circulação tropical ou a interação de um ciclone com as latitudes médias podem modificar significativamente o padrão atlântico num espaço relativamente curto de tempo – quase “de um dia para o outro”

Resta-nos, assim, acompanhar atentamente as previsões de médio prazo e deixar que as tendências de longo prazo se vão consolidando. Num ano marcado por um El Niño forte e por uma circulação atmosférica particularmente invulgar, existe demasiada incerteza para apresentar certezas onde elas não existem
Para já mantemos a nossa previsão de um Outono progressivamente mais chuvoso e, sobretudo, de um Inverno com tendência para precipitação acima do normal, com base nos sinais que temos vindo a acompanhar. Mas será uma previsão que terá, naturalmente, de continuar a ser validada e ajustada à medida que avançamos no calendário!

Análise elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo às 7H de 7 de outubro de 2026
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