A temporada de furacões de 2026 no Atlântico está a ser extraordinariamente calma, ao ponto de chegarmos ao início de outubro sem que qualquer tempestade tenha conseguido atingir intensidade de furacão. É já a espera mais longa pelo primeiro furacão de uma temporada desde o início da era moderna dos satélites, mostrando bem até que ponto as condições atmosféricas têm sido hostis ao desenvolvimento tropical este ano, como havíamos previsto
Grande parte desta ausência de furacões está relacionada com o forte El Niño, que altera a circulação atmosférica global e favorece um aumento do cisalhamento vertical do vento sobre grande parte do Atlântico tropical, este wind shear dificulta que as tempestades organizem o centro de circulação nos vários níveis da atmosfera e pode literalmente destruir a organização dos ciclones antes de estes conseguirem intensificar-se
Contudo, como sempre temos referido, numa temporada tropical basta um único ciclone para provocar consequências muito significativas, e existem regiões onde as condições podem tornar-se temporariamente mais favoráveis, mesmo num ano de El Niño. Neste momento todas as atenções da comunidade meteorológica estão voltadas para a Baía de Campeche e sudoeste do Golfo, onde o sistema “AL92” apresenta já 80% de probabilidade de desenvolvimento tropical segundo o NHC
A tempestade Isaias ainda não foi nomeada, e muito menos é um furacão, mas se o sistema se organizar suficientemente será este o próximo nome da lista. Alguns dos cenários de previsão mais agressivos mostram uma deslocação posterior para Norte em direção à costa norte do Golfo dos EUA, existindo modelos que favorecem uma intensificação bastante significativa antes da chegada a terra, embora a trajetória e principalmente a intensidade continuem muito incertas nesta fase, como é habitual
Num ano normal, perante um Golfo que praticamente não foi atravessado por ciclones intensos e que conserva assim enormes quantidades de energia oceânica, estaríamos provavelmente bastante mais confiantes num cenário de rápida intensificação, mas este ano a dúvida é maior precisamente porque o ambiente atmosférico conseguiu travar praticamente todas as tentativas anteriores de desenvolvimento. Ainda assim, pela primeira vez nesta temporada existe um sinal verdadeiramente relevante para a possibilidade de formação de um furacão forte

FURACÃO ISAIAS – O PRIMEIRO DE 2026, E PODE SER MUITO INTENSO…
Começamos por um ponto importante: neste momento Isaias ainda não existe oficialmente, mas sim “AL92”, uma área de baixa pressão com aguaceiros e trovoadas sobre o sudoeste do Golfo, sendo provável a formação de uma depressão tropical durante os próximos dias, primeiro com movimento lento para Leste-Nordeste e posteriormente com uma viragem para Norte
A partir daí começa a grande questão: Até onde irá a intensificação? Algumas simulações de modelos especializados mostram um ciclone bastante organizado e com potencial para atingir a categoria de furacão major, ou seja categoria 3 ou superior, enquanto outros cenários permanecem bastante mais modestos. Esta dispersão não é surpreendente porque o sistema ainda nem sequer possui uma circulação tropical fechada e definida
Também os modelos globais continuam a apresentar diferenças (muito) relevantes na intensidade e na trajetória final, algo perfeitamente normal nesta fase, uma vez que antes da formação efetiva do centro de circulação os modelos ainda podem representar de formas bastante diferentes a localização inicial, a estrutura interna e a interação com o ambiente envolvente. Estas diferenças aparentemente pequenas produzem soluções muito distintas vários dias mais tarde (daí serem importante os ensembles)

Existe, contudo, um ingrediente que dificilmente faltará: energia oceânica, as águas do Golfo permanecem muito quentes e, em várias áreas, existe também calor significativo em profundidade, facilitando processos de rápida intensificação
Foi precisamente este tipo de ambiente oceânico que contribuiu para intensificações explosivas no Golfo em temporadas recentes, embora seja importante recordar que água quente não basta: O potencial “Isaias” só poderá intensificar-se rapidamente se encontrar uma janela atmosférica favorável, nomeadamente menor cisalhamento, boas condições em altitude, humidade suficiente e uma estrutura interna bem organizada
Neste momento consideramos bastante plausível que, caso o sistema se forme como previsto e consiga atravessar uma janela de menor cisalhamento, alcance pelo menos intensidade de furacão, um cenário próximo de categoria 2 ou 3 parece ser provável, enquanto categorias 4 ou mesmo 5 continuam possíveis, mas apresentam uma incerteza muito maior, não devendo ainda ser tratadas como previsão consolidada – apenas algo a observar
Há ainda outro elemento interessante para nós na Europa, a temporada atlântica praticamente não teve ciclones suficientemente intensos para provocar grandes reorganizações da circulação em latitudes médias, caso este sistema se transforme num furacão importante e posteriormente seja absorvido pela circulação extratropical, poderá ajudar a modificar a disposição de dorsais, cavados e corrente de jato sobre o Atlântico Norte
Por isso, e embora seja demasiado cedo para estabelecer uma relação direta, esta poderá ser uma das peças que contribuam para a mudança de padrão que temos vindo a antecipar para a segunda metade de outubro, particularmente depois de dia 20. Não será o furacão sozinho a “trazer o Outono” a Portugal, mas a sua interação posterior com a circulação poderá ajudar a baralhar um padrão atlântico que tem sido muito persistente

PODE A TEMPORADA DE FURACÕES AINDA SURPREENDER?
Na meteorologia nunca devemos da certezas, e considerar uma temporada tropical terminada antes do tempo não é uma boa prática. Atualmente, contudo, não existem sinais de uma explosão generalizada de atividade no Atlântico tropical, com o cisalhamento a continuar a limitar fortemente o desenvolvimento nessa região, enquanto no Pacífico a situação permanece bastante mais ativa, exatamente como seria de esperar neste tipo de padrão climático
O Golfo, Caraíbas e extremo Oeste do Atlântico poderão ainda encontrar algumas janelas de oportunidade durante outubro e novembro, especialmente quando perturbações conseguirem coincidir com períodos temporários de menor cisalhamento vertical, e Isaias poderá ser precisamente um exemplo disso, mas para já não existem razões para antecipar uma sequência semelhante às temporadas atlânticas mais ativas, com vários furacões intensos
A maior incógnita poderá estar um pouco mais a Norte, nas regiões subtropicais, e aí devemos estar atentos a Portugal, tanto nos Açores como eventualmente no Continente. O risco de impacto direto continua baixo, mas está longe de ser nulo até ao final da temporada, especialmente porque as águas do Atlântico permanecem suficientemente quentes em várias zonas e o efeito inibidor do El Niño não é uniforme em toda a bacia

Entre outubro e novembro, os sistemas tropicais e subtropicais também tendem a formar-se em regiões diferentes das observadas no pico da temporada e podem interagir mais rapidamente com depressões e frentes das latitudes médias o que torna as trajetórias particularmente difíceis de prever, com maior risco para os Açores e, muito ocasionalmente, para a Península Ibérica, pelo que qualquer génese subtropical no Atlântico Nordeste deverá ser acompanhada com atenção
Para já, porém, todos os olhos estão sobre o AL92, aquilo que poderá tornar-se Isaias, e numa temporada que até agora conseguiu passar mais de quatro meses sem produzir um único furacão, este sistema poderá finalmente quebrar um recorde extraordinário e recordar-nos que uma temporada muito calma não significa necessariamente uma temporada sem perigo…

Análise elaborada por Fábio Félix às 10H de terça, 6 de outubro de 2026
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