Depois de vários dias bastante frios, vem aí tempo quase tropical! Nos últimos dias, as temperaturas mínimas desceram abaixo dos 0ºC em diversos locais do país, mas estamos agora prestes a entrar numa fase de mudança significativa do estado do tempo. Esta alteração começa já na sexta-feira, 6 de novembro, com a chegada da primeira frente, que nos trará alguma chuva e uma primeira subida das temperaturas, embora ainda se espere uma noite relativamente fria
Será durante o fim de semana que começaremos a sentir o ar mais tropical e húmido a “invadir” Portugal Continental, com subidas muito significativas das temperaturas mínimas. Em alguns locais, as mínimas poderão subir entre 14 e 18ºC em apenas dois ou três dias, passando a registar-se noites com valores superiores a 15ºC em muitas regiões. Os nossos modelos simulam mesmo temperaturas mínimas próximas dos 20ºC no Algarve para segunda-feira, dia 9
A chuva prevista para esta sexta-feira deverá ser irregular, mal distribuída e, sinceramente, nada de especial. Em alguns locais poderá nem sequer chover, enquanto noutros a precipitação será pouco significativa. Trata-se de uma situação típica de uma frente atlântica que ainda terá de “batalhar” contra o ar seco associado ao anticiclone, que continua a exercer alguma influência sobre o nosso território
No sábado poderemos mesmo ter um dia com predomínio de abertas, apenas com alguns aguaceiros muito pontuais, especialmente durante a manhã. À tarde, as temperaturas máximas deverão subir, com vários modelos a apontarem para valores por volta de 25ºC em algumas regiões do Centro e Sul, num ambiente bastante abafado! Esta evolução resulta de a depressão permanecer inicialmente mais a oeste do que se esperava, pelo que o fim de semana deverá começar menos instável do que prevíamos há alguns dias

Mas a chuva acabará por chegar, especialmente no domingo, embora ainda exista incerteza sobre se a precipitação mais significativa surgirá durante a manhã, à tarde ou apenas à noite. A passagem de uma frente mais intensa entre domingo e segunda-feira poderá marcar o primeiro episódio de chuva verdadeiramente significativa deste outono, com risco de algumas complicações
Estas configurações atmosféricas de novembro podem também favorecer fenómenos severos, incluindo tornados, como já referimos anteriormente. Tudo isto num ambiente muito húmido, quase tropical, com a possibilidade adicional de influência de um sistema de origem tropical em desenvolvimento no Atlântico, como explicaremos de seguida

TEMPO TROPICAL – ALGUM SOL, MAIS INSTÁVEL DOMINGO À TARDE
O fim de semana deverá trazer o regresso da chuva a Portugal Continental, mas, se tem alguma atividade planeada ao ar livre, deve saber que a precipitação não será persistente nem constante, podendo dar tréguas durante vários períodos, especialmente no sábado. Arriscamos mesmo dizer que poderá ser um excelente dia, a lembrar novamente a primavera! Se chover, como já referimos, será mais provável durante a manhã, particularmente nas regiões do litoral.
No domingo uma frente quente deverá aproximar-se do território, encontrando ainda uma atmosfera com alguma influência de ar seco, o que poderá contribuir para a sua fragmentação. Estas frentes tendem, contudo, a produzir precipitação mais contínua, pelo que será prudente contar com períodos de chuva, localmente persistente. Gradualmente, durante a tarde, e começando provavelmente pelo litoral, com possível destaque para as regiões mais a sul, a precipitação poderá intensificar-se.
Ao final do dia aumenta significativamente a probabilidade de chuva forte e vento intenso em várias regiões, com a aproximação de uma frente fria mais ativa. A passagem desta frente deverá também criar condições favoráveis à ocorrência de trovoadas, que se tornam bastante prováveis durante segunda-feira. Assim, será sobretudo entre domingo e quarta ou quinta-feira que esperamos os períodos de precipitação mais intensa, por vezes persistente, com acumulados ainda incertos, mas que poderão provocar inundações localizadas

A partir de domingo à tarde, e particularmente durante segunda-feira, a instabilidade deverá aumentar, tornando as condições mais favoráveis à ocorrência de fenómenos meteorológicos localmente severos. Para já, os nossos modelos não mostram um sinal especialmente forte para tornados ou outros fenómenos de vento extremo, mas continuam a assinalar essa possibilidade
De notar ainda que a configuração atmosférica prevista apresenta uma verdadeira “dança de depressões”, com possibilidade de interação entre sistemas, num processo conhecido como efeito Fujiwhara. Esta situação torna a previsão bastante mais complexa, uma vez que pequenas alterações na posição e intensidade de cada depressão podem modificar significativamente a trajetória das restantes
Se inicialmente surgiu uma tendência para afastar a principal depressão do território, consideramos possível que as próximas atualizações voltem a aproximá-la (é o que costuma acontecer nestas situações, sendo um viés conhecido pelos meteorologistas que acompanham os vários modelos há mais tempo…). Assim não é de descartar que cenários iniciais, que previam tempo mais adverso e severo, voltem a surgir

MAU TEMPO NAS ILHAS E RISCO DE CICLONE TROPICAL EM PORTUGAL?
Como já referimos em publicações anteriores, vários modelos meteorológicos têm vindo a sugerir a possibilidade de formação e aproximação de um sistema de origem tropical ao território português, aproximadamente entre 10 e 12 de novembro. Felizmente, essa probabilidade tem vindo a diminuir, com menos simulações a apresentarem um ciclone tropical organizado a aproximar-se diretamente de Portugal. Ainda assim, a situação continua a merecer acompanhamento
Durante o fim de semana, esperamos mau tempo nos Açores, particularmente entre sexta e sábado, com risco de precipitação pontualmente excessiva. A perturbação em acompanhamento, que poderá eventualmente ser nomeada Bruna pelo IPMA, deverá continuar a apresentar uma circulação complexa nas proximidades do arquipélago, com interação entre perturbações e envio de frentes relativamente intensas em direção às ilhas
Para já tudo indica que as ilhas do Grupo Oriental poderão ser as mais afetadas, embora em todo o arquipélago possa chover bem. Se continuar a tendência de afastamento da perturbação para Oeste não é totalmente de descartar a evolução de um núcleo secundário a afetar precisamente estas Ilhas no sábado – situação que seria mais severa, e, portanto, que precisa de ser acompanhada – embora seja pouco provável
Posteriormente a partir da tarde de sábado será provavelmente na Madeira que se concentrará a maior quantidade de precipitação. Alguns modelos chegam a simular condições meteorológicas severas, com acumulados muito superiores aos valores habituais para esta época. Recomendamos que siga os conselhos das autoridades, pois haverá claro risco meteorológico, com possíveis inundações e derrocadas

Depois de tudo isto, durante a próxima semana, uma perturbação atualmente localizada a sudoeste dos arquipélagos, ainda bastante distante, poderá eventualmente desenvolver algumas características tropicais ou subtropicais e aproximar-se do território Português. Para já as previsões mostram uma depressão a encontrar condições relativamente hostis ao desenvolvimento tropical, com poucos modelos a simular um ciclone tropical organizado
Isto não significa, contudo, que não possam existir efeitos diretos ou indiretos, nem que o acompanhamento deixe de ser necessário. Mesmo no cenário mais favorável, em que se forma apenas uma perturbação relativamente “discreta”, poderá contribuir para o transporte de grandes quantidades de humidade e favorecer períodos de chuva intensa
Outra possibilidade será a sua absorção pela corrente de jato, com um cavamento mais rápido da depressão em direção à Madeira ou a Portugal Continental. Não descartamos completamente este cenário, embora felizmente a sua probabilidade pareça agora mais reduzida – especialmente nos ensembles do GDM, um dos melhores sistemas globais. O AIFS, modelo do ECMWF, tem aí uma quantidade significativa de membros do conjunto a prever esta situação, pelo que não estamos “confortáveis” em descartá-la

Apesar de tudo consideramos que, mesmo que o sistema venha a receber um nome como tempestade tropical . neste caso, Kyle, não parece provável, para já, que alcance uma intensidade particularmente significativa enquanto ciclone tropical. Contudo, não será necessária uma nomeação ou uma organização muito expressiva para nos trazer algumas “chatices”. Diríamos mesmo que os possíveis impactos dependerão agora mais da evolução da circulação atmosférica geral do que propriamente da intensidade tropical do sistema
Para já, ficamos com a perspetiva de dias mais quentes, muito mais húmidos e com chuva, primeiro de forma irregular nesta sexta-feira e depois com maior intensidade a partir de domingo. Nos arquipélagos, particularmente na Madeira, o risco de precipitação excessiva merece especial atenção, sendo fundamental acompanhar os próximos avisos meteorológicos das autoridades
Para terminar dizemos ainda que existe ainda uma divisão significativa entre os modelos para meados de novembro… Alguns continuam a prever a manutenção de um regime bastante chuvoso, apresentando até acumulados de precipitação tão expressivos que, sinceramente, “custam a acreditar”. Outros mostram uma melhoria temporária, com a possibilidade de um pequeno Verão de São Martinho, precisamente como tínhamos apontado na nossa previsão mensal
Ambos os cenários continuam possíveis… Nas Ilhas, especialmente nos Açores, parece mais provável a persistência de condições relativamente húmidas e instáveis. No resto do território acompanharemos esta situação com atenção e continuaremos a atualizar as previsões à medida que os modelos apresentem maior confiança

Artigo publicado por Fábio Félix | Luso Meteo às 7:31H de 5 de novembro de 2026
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