Muito se tem falado sobre um possível “ciclone bomba”, ou uma ciclogénese explosiva, a afetar Portugal a partir do próximo fim-de-semana ou no início da próxima semana, mas será mesmo isso que mostram atualmente as previsões? Em parte sim, porque deverá realmente ocorrer uma intensificação muito rápida de uma depressão no Atlântico Norte, mas em grande parte não, porque o ciclone propriamente dito não deverá atingir Portugal
Na realidade, durante o fim-de-semana e início da próxima semana, deverá desenvolver-se um ciclone de forma bastante rápida no Atlântico, num processo que poderá cumprir os critérios de ciclogénese explosiva, contudo, depois da sua formação e intensificação, este sistema de baixa pressão deverá deslocar-se inicialmente para Nordeste e posteriormente mais para Norte, mantendo o seu núcleo bastante afastado de Portugal e acabando também por se afastar da Europa
A alta pressão continua a exercer influência sobre o Centro e Leste da Europa e, apesar do enfraquecimento do anticiclone dos Açores, as depressões atlânticas continuam a encontrar dificuldades para avançar diretamente sobre a Península Ibérica: neste caso a depressão deverá ficar essencialmente “às portas” do Reino Unido antes de subir em latitude, embora uma frente associada consiga posteriormente alcançar Portugal Continental
Antes disso serão os Açores a sentir a primeira alteração, com aumento da nebulosidade, períodos de chuva e ventos por vezes forte entre domingo e segunda-feira, devido à passagem de uma perturbação relativamente pequena, com características subtropicais. Esta deverá posteriormente interagir com a corrente de jato polar, contribuindo para a rápida intensificação de uma depressão no Atlântico Norte
Este tipo de processo não é propriamente uma novidade e ocorreu várias vezes durante o “comboio de tempestades” que tivemos no início deste ano… Felizmente, neste caso, tudo indica que o núcleo mais intenso ficará bastante afastado do nosso território e não teremos nada semelhante aos episódios mais severos desse período! Ainda assim vem aí uma mudança importante do estado do tempo, com descida das temperaturas, aumento da nebulosidade e finalmente alguma chuva

TEMPO VAI MUDAR MUITO… MAS CICLONE NÃO AFETA PORTUGAL!
Apesar deste ciclone propriamente dito não atingir Portugal, o estado do tempo vai mudar de forma bastante evidente, depois de várias semanas marcadas por temperaturas excecionalmente elevadas e por uma persistência pouco habitual do tempo seco… as temperaturas começam a descer e a circulação atlântica ganha finalmente algum espaço, ainda que de forma gradual e sem uma entrada definitiva do Outono
Entre domingo e terça-feira teremos já maior variabilidade, com aumento da nebulosidade, entrada de ar mais húmido e possibilidade de alguma precipitação ocasional, podendo mesmo surgir alguns aguaceiros acompanhados de trovoada, embora, para já, nada indique um episódio particularmente significativo. Esta alteração poderá também ser acompanhada por algum transporte de poeiras, deixando a atmosfera mais carregada
Na quarta-feira, 30 de setembro, uma frente associada à circulação depressionária atlântica deverá atravessar Portugal Continental, com ocorrência de precipitação com probabilidade elevada, e com vento mais forte. Ainda assim continua a existir bastante incerteza relativamente aos acumulados e à distribuição da precipitação, com alguns modelos a mostrarem algo mais generalizado e significativo e outros a simularem uma frente bastante menos ativa
Para já, o nosso algoritmo de previsão, combinando informação do AIFS e IFS, mostra um sinal interessante sobretudo para as regiões Norte e Centro, onde a probabilidade de acumulados superiores a 10 mm é já significativa, embora com um grau de confiança ainda moderado. Será necessário acompanhar as próximas atualizações para perceber se a frente mantém atividade suficiente para produzir precipitação mais generalizada ou se chega mais enfraquecida

Depois desta passagem frontal, contudo, não parece existir ainda uma abertura definitiva do “corredor Atlântico”, e o anticiclone poderá recuperar novamente alguma influência e proporcionar mais alguns dias de sol e temperaturas em subida. Fica então a questão que provavelmente muitos estarão a colocar: será que o Verão terminou definitivamente e o Outono vai finalmente instalar-se, ou ainda teremos mais alguns dias quentes pela frente?

OUTONO A CHEGAR DE VEZ, OU VERÃO AINDA TEM UMA PALAVRA?
É provável que o Verão ainda não nos tenha abandonado totalmente: o Outono astronómico entrou com temperaturas excecionalmente elevadas, depois de um setembro marcado por sucessivos episódios de calor e máximas que chegaram mesmo aos 42ºC nos locais mais quentes do país, valores extraordinários para esta altura do ano. Os primeiros sinais verdadeiramente outonais começam, no entanto, finalmente a aparecer
A chuva vai regressar, as temperaturas vão descer e, no fundo, o estado do tempo deverá aproximar-se progressivamente daquilo que é mais normal para esta altura do ano. Isso não significa, contudo, que o calor desapareça definitivamente: depois desta mudança é bastante provável uma nova subida das temperaturas, podendo voltar a haver máximas acima dos 30ºC em diversas regiões e anomalias positivas que localmente poderão atingir cerca de 6ºC ou mais

Entramos, assim, numa fase de transição, com o tempo a tornar-se gradualmente mais condizente com o Outono, mas ainda frequentemente mais quente do que o normal, a precipitação e a instabilidade poderão começar a surgir com maior frequência, ao mesmo tempo que continuaremos a ter bons períodos de sol e alguns dias que, durante a tarde, ainda poderão fazer lembrar o Verão
A previsão de longo prazo continua a favorecer um Outono progressivamente mais húmido, embora exista naturalmente muita incerteza relativamente ao momento exato em que essa mudança se tornará “persistente”. Neste momento continuamos a acompanhar sobretudo a segunda metade de outubro, quando poderá aumentar de forma mais evidente a frequência das depressões e frentes atlânticas capazes de alcançar a Península Ibérica
Se esta tendência se confirmar, os últimos 10 dias de outubro poderão marcar uma mudança mais vincada, com maior frequência e intensidade da precipitação e, consequentemente, maior necessidade de acompanhamento do risco de episódios de precipitação forte e persistente, inundações rápidas e cheias durante o restante Outono e Inverno. Ainda é muito cedo para antecipar episódios concretos, mas o padrão atmosférico deve ser favorável a tempestades frequentes…

Artigo de previsão escrito por Fábio Félix | Luso Meteo às 7:45H de 25 de setembro de 2026
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