O fenómeno El Niño continua a ganhar força, tal como era previsto, e agora, com a chegada do outono climático, torna-se cada vez mais evidente que os modelos não estavam, de todo, a exagerar na dimensão deste evento (se dúvidas houvesse!). As previsões apontam para um episódio potencialmente extraordinário, que poderá tornar-se o mais intenso em pelo menos 150 anos de observações instrumentais, mas há estudos que indicam que pode mesmo ser o mais intenso dos últimos largos séculos!
Há, naturalmente, quem perante estes dados diga: “Então sempre aconteceu!”. E é verdade: El Niño sempre existiu, tal como episódios excepcionalmente fortes. O que importa perceber é a frequência e a intensidade. Os estudos mais recentes, publicados na revista Science, indicam que os episódios fortes de El Niño se tornaram mais frequentes nas últimas décadas do que durante grande parte do anterior milénio
Os efeitos são já bastante evidentes: No Atlântico a atividade tropical tem sido extraordinariamente baixa: até ao final de agosto não se tinha formado qualquer furacão, apesar de já termos entrado no período de maior atividade. O El Niño é precisamente um dos factores que favorece este cenário, aumentando o cisalhamento vertical do vento e dificultando a organização de ciclones tropicais. A nossa previsão apontava sem grandes dúvidas para este cenário, aliás!
No Pacífico Oriental, pelo contrário, temos assistido a uma verdadeira “fábrica de tempestades”. No início de setembro estão ativos vários sistemas tropicais, incluindo os furacões Karina e Lowell, e a tempestade tropical Marie (furacão em breve). A diferença entre os dois oceanos é típica do comportamento normal durante um El Niño mais forte: condições muito mais favoráveis no Pacífico e muito menos favoráveis no Atlântico
Nos próximos meses? A situação merece toda a nossa atenção. A expectativa mantém-se: este El Niño poderá ter uma influência significativa na circulação atmosférica durante o outono e inverno, favorecendo alterações na corrente de jato mais significativas que o normal. Não significa que todos os dias serão chuvosos no nosso país, nem que El Niño seja o único fator a “ditar” o nosso tempo, mas aumenta a possibilidade de padrões persistentes e episódios extremos

EL NIÑO – COMO ESTÁ AGORA E PREVISÕES NOS PRÓXIMOS MESES
A intensificação continua, embora tenha apresentado algum abrandamento temporário durante agosto. Esta evolução não significa que o cenário previsto não se vá concretizar, uma vez que há ainda muita água quente na sub-superfície que não irá simplesmente desaparecer. Os principais modelos continuam a apontar para uma intensificação significativa durante os próximos meses, com o pico a ocorrer provavelmente entre o final do outono e o início do inverno, com probabilidade muito elevada de se manter até meio de 2027, pelo menos
As previsões são particularmente impressionantes quando analisamos a região Niño 3.4, que é amplamente usada para avaliação da intensidade deste fenómeno. Alguns ensembles dos modelos apontam para anomalias extremamente elevadas, com médias de vários modelos a aproximarem-se dos 3,5 a 3,6 ºC no outono, com alguns membros a mostrarem picos superiores, entre novembro e dezembro!

Para já estes valores mais extremos são previsões, e não certezas. Um valor de 4 ºC ou superior em Niño 3.4 seria absolutamente extraordinário, e ainda não é o cenário mais forte. O que já podemos afirmar com bastante confiança é que estamos perante um El Niño muito forte, com potencial claro para bater recordes (até mesmo a NOAA nas análises mais recentes admite essa probabilidade)
Este fenómeno está a acontecer num planeta muito mais quente do que há décadas. A combinação entre uma oscilação natural extremamente intensa e uma temperatura média global elevada devido ao aquecimento global pode amplificar os efeitos. Cada El Niño é diferente, e os efeitos imprevisíveis – mas não podemos negar que podemos entrar numa situação potencialmente catastrófica nos próximos meses (lembrando que os efeitos mais extremos normalmente ocorrem já depois do pico do fenómeno, portanto para o inverno durante o ano de 2027)

VÁRIOS PAÍSES JÁ ENTRARAM EM ESTADO DE EMERGÊNCIA DEVIDO AO EL NIÑO – O QUE ESPERAR
Os efeitos do El Niño podem ser muito diferentes de região para região, como temos vindo a referir. Enquanto alguns locais enfrentam chuvas torrenciais e inundações, outros podem sofrer secas extrema e ondas de calor . Tudo isto pode levar a problemas agrícolas severos. No Peru, por exemplo, as autoridades identificaram centenas de áreas críticas e declararam estado de emergência em centenas de distritos devido ao risco de inundações e deslizamentos, ao mesmo tempo que outras zonas enfrentam riscos de seca e falta de água
Na América Central os impactos já estão a afetar diretamente a agricultura. Um relatório bastante recente aponta já perdas muito significativas nas culturas de milho e feijão, com milhões de pessoas afetadas pela seca em países como Guatemala, Honduras e El Salvador. São precisamente estes efeitos sobre a produção agrícola que podem transformar um fenómeno climático num problema económico e social de grande dimensão
Existem ainda alguns efeitos menos falados. Estas alterações persistentes nas temperaturas e na distribuição da precipitação podem afetar ecossistemas e produção agrícola, e até o equilíbrio dos glaciares em regiões montanhosas. O degelo acelerado e a instabilidade de massas de gelo podem contribuir para situações de elevado risco, como as recentes inundações catastróficas no Nepal
Em Portugal, os efeitos serão mais indiretos, mas podem ser significativos (acreditamos que a intensidade do fenómeno leve a maior imprevisibilidade, e efeitos mais intensos do que ocorreriam em episódios mais “normais”. As alterações na produção agrícola mundial, nas pescas, nos preços dos cereais e na energia acabarão por chegar ao consumidor. O pão, por exemplo, deve subir já em outubro, e será apenas o primeiro de uma longa lista de subidas, e, quem sabe, até escassez de certos alimentos

CONTINUA A PREVER-SE UM OUTONO E INVERNO MUITO CHUVOSOS EM PORTUGAL!
Para Portugal a nossa previsão mantém-se sem alterações. Temos um oceano Atlântico muito quente e uma enorme quantidade de energia disponível, enquanto os padrões atmosféricos previstos para os próximos meses podem favorecer a aproximação de perturbações à Península Ibérica. Quando estas condições coincidem com massas de ar muito húmidas a quantidade de água precipitçável aumenta, assim como o potencial para episódios de chuva muito intensa
É por isso que continuamos a considerar provável um outono e inverno mais húmidos do que o habitual, embora seja impossível desde já uma previsão exata. O mais provável é termos fases muito diferentes entre si, intercalando períodos relativamente estáveis com episódios de precipitação intens no início, e, posteriormente, chuva mais persistente. Em alguns destes episódios, a precipitação poderá ser muito superior ao normal para o período, aumentando o risco de inundações e cheias
À medida que o inverno avança, o risco de um colapso do vórtice polar é ainda mais elevado que o habitual, pois o El Niño pode contribuir para alterações na circulação atmosférica em grande escala. Não podemos dizer com certezas que vai ocorrer “X ou Y” a esta distância, mas existem razões suficientes para acompanhar atentamente a evolução da circulação atmosférica nas nossas latitudes, e preparar para um inverno ainda mais chuvoso que o anterior
Para quem não gosta do frio, há uma boa notícia: um inverno muito húmido não significa necessariamente um inverno muito frio (pelo contrário!) Com águas do Atlântico relativamente quentes e circulação predominantemente húmida, é perfeitamente possível termos muita chuva mas pouca neve em cotas baixas, depois de um inverno 2025/26 marcado por episódios de neve pouco habituais
Os próximos meses serão um teste à nossa capacidade de compreender como todos estes factores interagem, e se Portugal irá ou não sentir os efeitos desta atmosfera “sobrecarregada”, contrariamente ao que habitualmente se acredita (historicamente o El Niño não tem grandes efeitos por cá). A nossa “aposta” é que este ano é “especial”, e podemos ter mais do dobro da chuva normal, pelo que pedimos que haja prevenção, desde já, pois o risco de cheias pode ser excecional

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo, às 7:30H de 2 de setembro de 2026
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