Uma depressão em altitude, acompanhada por uma circulação à superfície relativamente bem definida, deverá afetar os Açores entre quarta e quinta-feira, provocando um agravamento significativo do estado do tempo no arquipélago. Apesar da pressão mínima central não ser particularmente baixa, quando comparada com depressões mais intensas no inverno, por exemplo, a combinação entre ar frio em altitude, elevada humidade e águas do oceano relativamente quentes poderá ser suficiente para gerar precipitação localmente forte
A origem desta situação está num padrão atmosférico de que tanto temos falado, e tem sido persistente nas últimas semanas: Um bloqueio anticiclónico, neste caso sobre a Gronelândia, e que permite a descida de bolsas de ar frio para o Atlântico Norte, que neste caso acaba por cavar uma pequena depressão na região dos Açores. Este tipo de circulação impede que o anticiclone dos Açores recupere totalmente a sua posição habitual, favorecendo a passagem frequente de perturbações pelo arquipélago
Ao longo do dia de quarta-feira, e particularmente durante a madrugada e manhã de quinta-feira, esperam-se períodos de chuva e aguaceiros, que podem ser por vezes fortes a torrenciais, acompanhados por algumas trovoadas dispersas. Teremos tempo relativamente abafado, devido à elevada humidade presente na massa de ar, embora as temperaturas não sejam particularmente elevadas
O vento também aumentará de intensidade, sobretudo nas ilhas mais expostas, mas deverá ser a precipitação o principal motivo de preocupação. A possibilidade de chuva intensa em curtos períodos poderá originar acumulações rápidas de água em meio urbano, aumentando o risco de inundações, enxurradas e cheias rápidas em alguns rios e ribeiras de menor dimensão, especialmente nas zonas historicamente mais vulneráveis
Embora esta não seja uma depressão excecional pela sua intensidade, a instabilidade atmosférica nesta altura do ano, e elevada água precipitável causa sempre alguma preocupação, sendo que o relevo montanhoso dos Açores poderá potenciar impactos localizados mais significativos. Por essa razão, será importante acompanhar as atualizações das previsões e eventuais avisos meteorológicos emitidos pelas autoridades

QUAIS OS RISCOS DESTA DEPRESSÃO NOS AÇORES?
Apesar de existir ainda alguma divergência entre os principais modelos meteorológicos, nomeadamente entre o GFS e o IFS-ECMWF, o modelo europeu continua a apresentar, de forma consistente, o cenário mais preocupante. Atualmente, simula acumulados que poderão ultrapassar 70 l/m² em algumas áreas dos grupos Ocidental e Central, especialmente onde o relevo favorece a intensificação da precipitação. Contudo, nestas situações, os modelos tendem a prever bastante por baixo no arquipélago – devido à orografia
O período mais crítico deverá ocorrer entre a tarde de quarta-feira e a manhã de quinta-feira, quando a depressão se encontrará mais próxima do arquipélago. Durante este período não se exclui a ocorrência de trovoadas e de chuva em regime torrencial, sendo possível que, localmente, se registem 20 a 30 l/m² em apenas uma hora, valores suficientes para provocar inundações rápidas em zonas urbanas, assim como enxurradas ou derrocadas
O vento aumentará igualmente de intensidade durante estas horas, com rajadas que poderão atingir 60 a 70 km/h nos locais mais expostos. Ainda assim, tudo indica que não será muito significativo, quando comparado com a precipitação, que será o principal deste evento, não sendo esperados danos significativos associados exclusivamente ao vento
No mar também não são esperados impactos relevantes, mantendo-se a ondulação geralmente entre 1 e 2 metros. Merece destaque, contudo, a persistência de um fluxo de sudoeste, que continua a transportar águas muito quentes para a região situada entre os Açores e a Madeira, onde a temperatura da superfície do mar poderá atingir 27 a 28ºC. Este é um fator que poderá vir a ser importante nos próximos meses, caso venha a desenvolver-se alguma perturbação de características tropicais ou subtropicais

PODERÁ CHEGAR A PORTUGAL CONTINENTAL?
A resposta é sim, embora bastante enfraquecida. À medida que a depressão se desloca para leste, deverá aproximar-se de Portugal Continental durante o final da semana, mas já sem qualquer expressão significativa à superfície, perdendo assim a capacidade para produzir precipitação significativa
O principal efeito deverá sentir-se numa nova reorganização da atmosfera: o enfraquecimento do anticiclone permitirá uma redução do gradiente de pressão, fazendo diminuir progressivamente a intensidade da nortada que se sente entre quarta e quinta-feira, ao mesmo tempo que se espera, também uma descida das temperaturas relativamente aos dias anteriores (para o fim-de-semana)
Apesar de tudo não está totalmente excluída a possibilidade de ocorrência de alguns aguaceiros ocasionais, sobretudo nas regiões Norte e Centro, durante o próximo fim de semana, associados aos “restos” desta perturbação e à instabilidade residual em altitude – a ocorrer será algo pouco significativo, particularmente no sábado
O padrão atmosférico continua, contudo, bastante bloqueado, com sucessivas depressões a desenvolverem-se ou a permanecerem nas proximidades dos Açores antes de acabarem a evoluir para Oeste, perto de Portugal Continental. Este regime atmosférico acaba por favorecer o transporte de calor para a Europa Central e Oriental, enquanto Portugal permanece relativamente protegido dos episódios mais extremos de calor. Resta saber durante quanto tempo este padrão conseguirá manter-se!

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 9H de 4 de agosto de 2026
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