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O clima está a mudar – é uma evidência inegável, e, nos últimos anos, os oceanos têm registado temperaturas sem precedentes desde que existem medições. Em vários períodos, a temperatura média da superfície dos oceanos atingiu novos máximos históricos (aliás, à data de escrita deste artigo seguimos com 45 dias consecutivos de recordes!). Enquanto grande parte da atenção da população continua focada nas ondas de calor em Terra, temos de olhar para os Oceanos com muito mais atenção, e preocupação. E há uma razão muito simples para isso: aquecer a água do mar exige uma quantidade de energia gigantesca, muito maior do que para aquecer o ar
É precisamente isto que torna os atuais recordes tão importantes. Um aumento de apenas algumas décimas de grau na temperatura média dos oceanos representa uma quantidade de energia impressionante, muito superior à necessária para elevar significativamente a temperatura da atmosfera. Quando dizemos que a temperatura média dos oceanos aumentou “apenas” 0,2 ou 0,3ºC, é fácil pensar que se trata de uma alteração pequena (certamente ninguém notará ao por os pés na água!)
Na realidade, estamos perante uma enorme acumulação de calor no sistema climático terrestre, uma vez que os oceanos cobrem uma grande parte da superfície da Terra e possuem uma enorme capacidade de “retenção térmica”. Em palavras simples: A água demora muito mais tempo a aquecer do que o ar, mas também demora muito mais tempo a arrefecer, o que significa que funciona como um “reservatório de energia”, se assim quisermos chamar, absorvendo o calor, devido ao aumento da radiação solar, em boa parte, e ao efeito de estufa, e libertando para a atmosfera
As estimativas atuais mais fiáveis mostram-nos que que uma boa parte do excesso de calor acumulado pelo planeta devido ao desequilíbrio energético (radiação incidente muito maior que a radiação que escapa de volta para o espaço), acaba armazenado nos oceanos. A atmosfera, que é aquilo que sentimos diariamente “na pele” absorve apenas uma fração desse calor
Assim, quando os oceanos batem recordes consecutivos de temperatura, como temos visto, isso significa que o sistema climático como um todo está desequilibrado, e é uma “bomba-relógio”, prestes a libertar calor como nunca vimos, aquecendo o planeta rapidamente

O OCEANO É O MAIOR “REGULADOR” DO CLIMA
Como dizia Lavoisier “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Aplicando a este caso específico, durante longos períodos de desequilíbrio energético da Terra (como temos vindo a verificar, e em contínuo aumento, segundo dadas CERES, da NASA) os oceanos vão armazenando calor de forma contínua, gradualmente e conservando-a durante muito tempo
Mas há um ponto em que os oceanos não conseguem absorver mais – a energia tem de ser libertada. E essa mesma energia não desaparece – mais cedo ou mais tarde irá regressar à atmosfera. Se temos recordes de temperatura no Oceano, é seguro afirmar que os meses seguintes baterão recordes de temperatura à superfície, também
Esse processo de libertação de calor e energia pode provocar alterações profundas na circulação atmosférica global. Há preocupações com a AMOC (Circulação de capotamento do Atlântico), uma vez que o aquecimento contínuo da água nas latitudes polares, e o degelo, podem criar um desequilíbrio que pode levar à paragem da “corrente do golfo”, com consequências devastadoras. Não sabemos exatamente como vai ser , contudo (é um dos problemas com a previsão do clima, sabemos que não será bom, mas não podemos prever exatamente)
Sabemos, contudo, que um oceano excecionalmente quente vai continuar a influenciar o clima durante os próximos meses, e nada nos leva a crer que não influencie nos próximos anos (dado o desequilíbrio energético atual: se entra mais energia na Terra do que a que sai, não pode arrefecer infelizmente)
O oceano é um regulador do clima global – sem ele as temperaturas sobre as áreas costeiras, por exemplo, seriam muito mais elevadas. Mas quando a água começa a aquecer significativamente mais, cria-se um problema – o clima nessas mesmas cidades costeiras torna-se muito adverso – na costa Mediterrânica já se observam condições semelhantes às do Golfo do México ou do Golfo Pérsico – com calor e humidade, e tempo extremamente abafado, a testar o limite da sobrevivência humana

MAIS CALOR NO OCEANO SIGNIFICA MAIS ENERGIA PARA A ATMOSFERA… E MAIS EXTREMOS!
Na meteorologia quanto maior for a energia na atmosfera, maior pode ser a intensidade dos fenómenos meteorológicos na Terra – no caso dos oceanos, quando estes estão mais quentes aumentam significativamente a evaporação. Esse vapor de água acaba por subir para a atmosfera: não é por acaso que a água precipitável está a bater recordes constantemente
Com as correntes oceânicas alteradas, maior propensão para extremos devido a bloqueios persistentes, também eles influenciados pelas alterações climáticas, e com maior quantidade de água precipitável, é fácil de perceber o resultado (e vimos bem no início de 2026): mais tempestades, mais frequentes, mais intensas, e com mais chuva em curtos períodos
Não devemos NUNCA confundir um evento excecional, com uma tendência climática. Infelizmente há muita gente que nos diz “Mas em 2001 choveu muito e não se falava tanto das alterações climáticas”!, e esse é um erro que não devemos cometer – usar um evento histórico ocasional, para tentar negar a evidência da alteração, até porque é exatamente o oposto: quando se tem de recorrer a eventos distantes para encontrar algo semelhante ao que agora ocorre com frequência, só estamos a provar o ponto
É inegável que o aquecimento dos Oceanos é a maior preocupação climática de momento (diretamente ligada com o aquecimento do planeta em si, claro está), e os efeitos são muito mais abrangentes: em Portugal, por exemplo, um Atlântico persistentemente mais quente contribuiu para temperaturas mínimas mais elevadas, noites tropicais mais frequentes, maior humidade (e maior sensação térmica), e, em determinadas situações, fornecer energia adicional a depressões que se aproximem da Península Ibérica, aumentando ainda o risco de fenómenos tropicais

“MAS É SÓ MEIO GRAU…”
Este é talvez um dos argumentos mais frequentes quando se fala em alterações climáticas: “É apenas meio grau!”. Infelizmente é algo que não é devidamente explicado, e que acaba por criar este “mito”, ou desinformação, se assim quisermos chamar. De facto, em pequena escala, parece pouco, mas… não estamos a falar de aquecer uma piscina ou um lago, estamos a falar de aumentar a temperatura média de praticamente toda a superfície oceânica do planeta. A quantidade de energia necessária para produzir esse aumento é absolutamente incrível!
Para termos uma ideia, diversos estudos científicos recorrem frequentemente a uma comparação interessante: o excesso de calor acumulado pelos oceanos ao longo de um único ano pode equivaler à energia libertada por centenas de milhões de bombas atómicas semelhantes à de Hiroshima!
É precisamente essa enorme capacidade de armazenamento que torna os oceanos um dos melhores indicadores do estado climático do planeta. Os recordes consecutivos da temperatura dos oceanos não significa que todas as regiões do mundo irão aquecer ao mesmo ritmo, nem que todos os anos serão mais quentes do que o anterior, uma vez que o clima continuará a apresentar variabilidade natural, influenciado por fenómenos como o El Niño, a La Niña, as oscilações atmosféricas ou outros fenómenos menos previsíveis
O clima está a mudar, a energia que incide na Terra aumenta, e a que sai de volta para a atmosfera reduz, devido ao efeito de estufa. E enquanto isto continuar, continuará também o clima a mudar, com risco de mais ondas de calor, precipitações extremas, secas prolongadas, tempestades mais intensas etc etc… Compreender que o os oceanos a aquecerem são algo extremamente preocupante, e que merece toda a atenção é fundamental para eliminar esta onda de negacionismo que existe, e fazermos algo pelo futuro – enquanto vamos a tempo…

Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo às 9:45H de 17 de julho de 2026
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