A Europa Ocidental, e posteriormente Central e Oriental, enfrentou uma onda de calor severo no final de junho, impulsionada por uma depressão a oeste da Península Ibérica que funcionou como uma “bomba de calor”, injetando ar quente Africano diretamente sobre vários países Europeus. Durante esse período foram batidos recordes em quase todos os países do Velho Continente, mas Portugal Continental acabou por ser mais poupado (por pouco…)
Posteriormente, já no início de julho, o padrão alterou-se radicalmente, com o fortalecimento de um anticiclone sobre o Golfo da Biscaia. Formou-se um forte fluxo de leste, e Portugal viveu então uma onda de calor muito intensa e generalizada que empurrou as temperaturas até aos 44ºC em alguns locais, enquanto o resto da Europa assistiu a uma normalização das temperaturas
Agora parece que tudo pode inverter, de novo: Uma nova depressão está a formar-se a Oeste do território Continental e surge de forma consistente nos principais modelos numéricos de previsão. Embora a sua presença e formação seja consensual, existe ainda uma enorme incerteza quanto à sua localização. A sua progressão, contudo, deverá uma nova dorsal Africana a leste de Portugal, transportando calor muito intenso e prolongado para países como Espanha, França, Inglaterra e, numa fase posterior, para o Centro e Leste do continente Europeu (dejá-vu?)
Esta indefinição na rota precisa da depressão gera, consequentemente, muitas dúvidas sobre os efeitos desta situação em Portugal. Para já, os cenários mais prováveis apontam para que o nosso país passe ao lado de mais esta onda de calor, felizmente. Ainda assim, mesmo que o litoral escape ao pior, o interior não ficará totalmente imune e continuará a registar temperaturas muito elevadas e valores provavelmente acima da média
Face a esta situação de transição e incerteza, o acompanhamento diário das atualizações dos modelos será fundamental. A Europa prepara-se assim para mais um período de stress térmico e desafio às populações e ecossistemas, notando-se um aumento drástico na frequência destes fenómenos, que antes eram muito ocasionais

NOVA ONDA DE CALOR NA EUROPA – PADRÕES ATMOSFÉRICOS BLOQUEADOS!
Ao analisarmos os modelos meteorológicos sub-sazonais de longo prazo, percebemos de forma evidente que o regime de bloqueio atmosférico será o que prevalece nas próximas semanas. As previsões apontam para uma probabilidade muito próxima dos 100%, de persistência deste bloqueio pelo menos até aos dias 15 a 17 de julho. Sob a influência deste padrão “estagnado”, as massas de ar tendem a persistir anormalmente sobre as mesmas regiões, daí a durabilidade provável desta nova onda de calor
Neste período de tempo, o comportamento do jato polar torna-se bastante mais errático, e ondulado. Isto traduz-se num tempo bastante mais imprevisível na Europa, e altamente propenso à ocorrência de fenómenos extremos. Embora os modelos deterministas ainda não exibam o cenário de forma significativa nas suas saídas principais, vários membros dos ensambles não excluem a hipótese de calor verdadeiramente histórico surgir em Espanha ou França (já vimos algumas simulações com 28 a 32ºC em altitude (850hPA)!

Isto significa que algumas saídas recentes, embora isoladas, do modelo americano GFS, e inclusivamente do fiável modelo europeu ECMWF, já sugeriram de forma isolada marcas extremas superiores a 45ºC para algumas regiões Francesas e Espanholas. Para Portugal, a probabilidade de enfrentarmos uma nova onda de calor severa e generalizada é, para já, inferior a 10%. Contudo, a vigilância deve manter-se pois o interior continuará a registar valores entre os 35ºC e os 40ºC, e o risco de incêndio pode manter-se elevado
A Oscilação de Madden-Julian (MJO) mostra-se muito estagnada, com a sua fase ativa praticamente fixa sobre o oceano Pacífico. Esta configuração de grande escala aumenta a atividade e desenvolvimento tropical no Pacífico Noroeste, enquanto inibe a formação de ciclones no Atlântico, alimentando indiretamente os bloqueios na Europa. Por outro lado, o momento angular da Atmosfera deverá registar um ligeiro aumento nas próximas duas a três semanas, fortalecendo a corrente de jato atlântica
Caso este fortalecimento do jet stream se confirmar em latitudes mais altas, podemos assistir a um reposicionamento do anticiclone sobre a Europa Ocidental no final de julho e início de agosto. Este reajuste da atmosfera poderá abrir caminho a nova onda de calor em Portugal Continental. Estaremos a entrar no período historicamente mais vulnerável a fortes ondas de calor, tal como sucedeu nos anos memoráveis de 2003, 2018 e 2025 – fim de julho e início de Agosto é (quase) sempre “crítico” para o calor em Portugal, esperemos que não se repita nada do género!

E COMO SERÁ O TEMPO EM AGOSTO?
Embora a previsão a longo prazo seja naturalmente complexa e muito menos fiável, os primeiros sinais dos modelos para o mês de agosto começam a revelar “mais do mesmo”. O cenário mais provável atualmente aponta para a continuação de regimes de bloqueio, intercalados por fases de maior atividade do jato polar, com o anticiclone das Açores a tentar progressivamente reposicionar-se em direção ao Golfo da Biscaia
Assim, e com esta configuração atmosférica, é provável o desenvolvimento de mais uma ou duas ondas de calor significativas na Europa, com uma probabilidade inicial aumentada de afetarem diretamente Portugal antes de se expandirem para o resto do Continente Europeu. É igualmente provável que a nortada surja muito menos do que o habitual na nossa costa Ocidental e que a precipitação seja praticamente inexistente
Apesar da passagem de algumas perturbações e pequenas depressões relativamente perto do território nacional, as mesmas deverão acabar quase sempre “engolidas” pelo anticiclone, e pela massa de ar seco continental. Isto significa que a instabilidade gerada será muito limitada, reduzindo as hipóteses de trovoadas generalizadas. Este fluxo poderá também favorecer o transporte recorrente de poeiras em altitude vindas do Norte de África, algo que já bem conhecemos
Entretanto, e para terminar, o fenómeno El Niño continua a evoluir de forma muito rápida... Embora os seus efeitos mais drásticos na temperatura global só devam ser sentidos e notados em pleno um pouco mais tarde, a temperatura média global do planeta pode começar a registar uma subida rápida. Para já, continuaremos a enfrentar um Verão com episódios de calor muito intenso, ainda que estes não sejam uma consequência direta do fenómeno El Niño ainda… É a nossa nova base climática – o que é francamente preocupante…

Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo no dia 7 de julho de 2026, às 8:45H
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