40ºC NO REINO E QUASE 100 MILHÕES SOB AVISO VERMELHO DEVIDO A ONDA DE CALOR NA EUROPA
Estamos a assistir a um cenário meteorológico verdadeiramente extremo, uma onda de calor na Europa que desafia a climatologia histórica. O Reino Unido prepara-se para enfrentar temperaturas na ordem dos 40ºC, um valor que, até há pouco tempo, seria considerado praticamente impossível para estas latitudes. Quase 100 milhões de pessoas em toda a Europa encontram-se atualmente sob avisos vermelhos de calor, num evento que está a quebrar todos os recordes para o mês de junho de forma brutal e sem precedentes
A magnitude deste fenómeno é tal que supera largamente o famoso e histórico 1976 – um marco nas memórias dos britânicos — em mais de 5ºC. Enquanto os modelos globais apontavam inicialmente para valores entre os 36ºC e os 38ºC entre terça e quinta-feira, a realidade dos modelos de alta resolução (HD), como o ARPEGE e o UK-V, mostra-nos algo mais severa. Estes modelos, mais fiáveis a curto prazo, apontam agora para a marca dos 40ºC, (localmente 41!) uma previsão que já é confirmada localmente pela MetOffice (para a cidade de Reading, por exemplo)
A vulnerabilidade do Reino Unido a estas situações é evidente, uma vez que as suas habitações não foram concebidas para lidar com este tipo de temperaturas. Estima-se que apenas cerca de 3% a 5% das casas britânicas possuam sistemas de ar condicionado, além de serem, naturalmente, mais quente. Mas não é só em casa que as pessoas sofrem: as infraestruturas, desde carris de comboio que se podem deformar a pistas de aeroportos derretidas, como aconteceu em 2022, não estão preparadas para esta situação – que se acreditava nunca vir a ocorrer

O impacto na saúde pública é também uma preocupação central das autoridades, com um risco elevado de aumento da mortalidade, especialmente entre as populações mais vulneráveis, sem meios de arrefecimento. Ao mesmo tempo, o risco de incêndios florestais aumenta, num país onde este tipo de fenómeno é historicamente raro. A falta de preparação e experiência das equipas de combate a incêndios de Inglaterra para lidar com incêndios desta escala e intensidade em áreas vegetadas reduz drasticamente a eficácia da resposta inicial – como também se pode verificar em 2022
Este cenário de “cúpula de calor” que se verifica no noroeste europeu é, sem dúvida, o evento climático mais marcante dos últimos largos anos. Estamos perante uma situação de emergência que obriga a sociedade a repensar a sua resiliência face a um clima que, claramente, já não tem nada a ver com o passado

ONDA DE CALOR NA EUROPA – ONDE SERÁ O CALOR MAIS INTENSO?
Além de França, onde o epicentro desta situação se situa, esta onda de calor espalha-se para Norte. A subida das temperaturas no Reino Unido começa já na terça-feira, com temperaturas, em vários locais, entre os 35ºC e os 37ºC (que são já valores extremos, embora o pior esteja longe) O calor será particularmente intenso no Sul do Reino Unido, onde a radiação solar direta, combinada com o efeito de ilha de calor urbana, fará com que as cidades como Londres registem desconforto térmico extremo
A quarta-feira traz-nos o cenário mais crítico, tornando-se o dia mais quente desta vaga de calor. A previsão aponta para valores de 40ºC a 41ºC em diversos locais, principalmente no Sudoeste e Sul de Inglaterra, onde o ar seco e a forte subsidência criarão condições para calor histórico. O recorde de 40.3ºC de 2022 poderá estar “em risco” logo em junho! A humidade relativa vai descer para valores bastante baixos, o que agrava o risco de incêndios
Na quinta-feira, embora os valores máximos possam não atingir os extremos de quarta-feira, a vaga de calor será sentida de forma muito mais generalizada. O ar quente penetrará bastante mais a Norte, estendendo-se a regiões que habitualmente não ultrapassam 30ºC Esta será uma das características mais marcantes desta onda de calor: a forma como atinge áreas vastas, algumas delas onde os recordes são pulverizados, dada a raridade do evento
As mínimas não mostra um cenário melhor… Prevê-se que quebrem largamente todos os recordes. Esperam-se mínimas de 26ºC a 27ºC, o que significa que o arrefecimento noturno será praticamente inexistente. Para uma população habituada a noites de 15ºC, estas noites tropicais serão certamente um martírio, e, mais uma vez, um enorme risco para a saúde
A intensidade do calor no Reino Unido será inimaginável nestes 3\4 dias – se mostrassem estas cartas a qualquer meteorologista há 30 anos atrás… não acreditaria. O Sul e as grandes áreas urbanas serão os locais mais expostos, mas ninguém no Reino Unido escapará ao desconforto extremo e às temperaturas extremamente elevadas. Se está na região deve seguir as atualizações e avisos da MetOffice, e seguir os conselhos das autoridades de proteção civil locais

COMO É QUE PODE ESTAR MAIS CALOR NO REINO UNIDO QUE NO ALENTEJO?
É uma questão que muitos seguidores da Luso Meteo nos colocam, mas a explicação é simples e reside na dinâmica atmosférica atual, que temos vindo a explicar. Enquanto Portugal beneficia, por sorte, de um efeito marítimo que regula as temperaturas, e afasta a massa de ar mais extremo, a depressão posicionada a Oeste da Península Ibérica funciona como uma “bomba de calor”, à falta de melhor expressão
Assim, em vez de trazer o ar quente até Portugal, esta perturbação está a permitir que o mesmo escape para latitudes invulgares, ao forçar uma circulação que “canaliza” todo o ar extremamente quente da África e do Sul da Europa diretamente para o Noroeste Europeu
Inglaterra e França encontram-se, neste momento, no trajeto direto desta massa de ar quente. A depressão atlântica, ao rodar no sentido contrário aos ponteiros do relógio, “empurra” esta língua de ar quente para Norte, onde fica estacionada. Sem o efeito moderador do Atlântico, que habitualmente protege estas regiões, o calor acumula-se, e gera-se uma “cúpula de calor”
Assim, o que vemos é uma (relativamente) rara inversão da normalidade meteorológica. O Alentejo, habitualmente uma das zonas mais quentes da Europa, a par com a Andaluzia, Itália ou Grécia, encontra-se agora com temperaturas mais baixas que o Sul de Inglaterra. E não é coincidência – as previsões climáticas dizem-nos que as latitudes mais a Norte têm tendência a aquecer mais rapidamente – e já se começa a notar, infelizmente

E você, o que acha desta situação? Considera normal que em Inglaterra se estejam a atingir frequentemente estes valores? Conte-nos nos comentários abaixo!
Artigo publicado e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, a 21 de junho, pelas 08:54H
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