A temporada tropical de 2026 já começou neste mês de junho, à medida que um super El Niño se vai desenvolvendo, e vai até novembro – e há sempre enorme interesse na comunidade científica em tentar antecipar como poderá ser, até porque são fenómenos extremamente destrutivos, e que nos últimos anos têm causado graves danos. Há boas notícias para o Atlântico – esta pode ser a temporada com menos furacões do século
A contribuir para esta previsão, baseada numa média de vários modelos meteorológicos, está o fenómeno de El Nino, forte a muito forte, que irá certamente aumentar o cisalhamento de vento no Atlântico tropical, e inviabilizar a formação dos ciclones tropicais, ou, pelo menos, impedir que se fortaleçam significativamente
É cada vez mais certo que se irá desenvolver um super El Niño – à medida que os modelos meteorológicos vão absorvendo novas informações, com o aquecimento já ocorrido à superfície, o aquecimento registado em profundidade nas águas equatoriais e os ventos de oeste muito intensos, que trazem ar mais quente para a região ENSO, vão também subindo as projeções de anomalia de temperatura – reparem como o modelo ECMWF tem aumentado a anomalia de mês para mês…

É cada vez mais “garantido” que este fenómeno será extremamente intenso, e com potencial para causar problemas significativos – comparado com outros fenómenos de El Niño, ao que tudo indica, teremos um evento muito mais extremo. Se em 2023 ou 2024 já tivemos episódios de calor extremo, tempestades, entre outros fenómenos, este episódio pode levar a uma situação a outros patamares
Caso a previsão atual de 3 a 4ºC de anomalia na região ENSO 3.4, estamos a falar do episódio de maior magnitude dos últimos 150 anos. Não é nada que nos surpreenda, pois já vimos a falar desta possibilidade há algum tempo. A confirmar, contudo, e é preciso notar que ainda é só uma previsão, poderemos ter uma situação com potencial para aumentar drasticamente a temperatura na Terra, com todos os efeitos associados a isso
No fundo, se nada mudar, podemos passar de cerca de 1.5ºC de aquecimento em relação à era pré-industrial, para valores entre 2 a 2.3ºC. Um aquecimento a nível global de cerca de 0.5 a 0.8ºC pode parecer pouco, mas, na realidade, poderá levar a consequências devastadoras – ondas de calor recorde, chuvas diluvianas, secas extremas, incêndios, efeitos na vida marinha, e efeitos sócio-económicos, com subida generalizada dos preços, e até escassez de alguns alimentos, entre outros bens

SUPER EL NIÑO – TEMPORADA DE FURACÕES POUCO ATIVA?
Como referimos no início deste artigo, e anteriormente em outras antevisões, começa a ficar consolidada a previsão de muito menor atividade tropical do que a média no Oceano Atlântico, com menor probabilidade de impactos nas Caraíbas, América Central e América do Norte
A temperatura da água do mar está acima da média, embora não tanto como em anos anteriores. Há, de momento, wind-shear muito elevado no Atlântico tropical, particularmente na região de desenvolvimento tropical principal (MDR), assim como ar bastante seco, o que leva o modelo ECMWF, por exemplo, a prever para as 4 próximas semanas atividade tropical significativamente abaixo da média (com elevada probabilidade)
Tendo em conta a evolução prevista do El Niño (que deverá atingir o pico no outono), é provável que para o resto do Verão as condições evoluam de forma desfavorável à génese tropical no Oceano Atlântico, o que, no meio de notícias tão más, acabam por ser boas notícias
Obviamente que, se num lado do planeta há menos energia tropical que a média, noutros locais haverá, quase certamente, o oposto, e a energia tropical disponível no Oceano Pacífico (tanto Nordeste como Noroeste), poderá ser muito superior ao normal – com risco de formação de diversas tempestades poderosas, que podem impactar principalmente a Ásia Oriental

EFEITOS DO EL NIÑO EM PORTUGAL?
Como já temos vindo a referir, e, recentemente, também o IPMA esclareceu, em Portugal, de forma direta, este fenómeno não terá impactos significativos. Contudo é importante, também, esclarecer que, indiretamente, teremos impactos no nosso país – é absolutamente inevitável
Com um planeta em aquecimento rápido, e que poderá aquecer muito mais rápido nos próximos 18 a 24 meses, é muito mais fácil de atingir extremos – seja de chuva, seca, tempestades… – e, por essa razão, torna-se também muito mais provável que esses extremos atinjam Portugal, ainda que, mais uma vez, não haja, historicamente, relação direta
Diretamente o El Niño leva a um aumento da chuva nas regiões equatoriais junto ao Oeste da América do Sul, e menos chuva no Sudeste Asiático. De forma indireta pode levar a outras correlações, uma delas pode impactar o padrão atmosférico no Outono em Portugal

PODE LEVAR A UM OUTONO MUITO CHUVOSO?
Há também algo que deve ser falado, e que tem de ser acompanhado, que é o potencial para abrandamento da circulação meridional de capotamento do Atlântico (AMOC). Com o aquecimento rápido do oceano, e degelo, há enormes quantidades de gelo a serem despejadas para o Atlântico Norte – água doce, menos densa que a água salgada. Isto altera todo o mecanismo natural que fortalece estas correntes, tão importantes para o clima, podendo levar a um colapso da AMOC, muito antes do que seria esperado anteriormente
Há muitos estudos sobre este tema, nenhum 100% conclusivo. No entanto começa a haver uma tendência: Cada estudo que é feito traz notícias piores que os anteriores – probabilidade crescente de colapso da AMOC ainda antes de 2100, talvez até mesmo 2050 no pior cenário. E de facto, vemos já sinais que o início desse colapso poderá estar a começar. Na Europa poderíamos ter uma nova “idade do gelo” caso isso se confirme. Obviamente que, a nível global, e como forma de equilíbrio, as condições seriam catastróficas, com aquecimento drástico em algumas regiões

Teremos meses complicados pela frente, em que muitas dúvidas podem começar a ser dissipadas: qual a real intensidade deste fenómeno El Niño, quais os seus impactos, qual a real temperatura global que poderá ser atingida, e, acima de tudo: Poderá a AMOC começar já a dar sinais de colapso? Esperemos que não, mas a conclusão é simples: Temos de diminuir as emissões, de imediato. Só assim podemos evitar o pior…
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