Numa altura em que estamos ainda a recuperar da situação das cheias vividas em Portugal nas últimas semanas, fomos trazendo a informação de que há sinais que o anticiclone iria regressar – e, de facto, vai! – contudo também deixamos sempre a informação que a tendência seria para ser algo transitório, com regresso relativamente rápido da chuva
E, com o avançar dos dias, começa a ficar um pouco mais claro que tipo de regime atmosférico deverá ser o dominante nas próximas semanas, e como pode evoluir a precipitação ao longo do final de fevereiro e do início de Março – e as notícias são menos boas. Não só o anticiclone não se instala mais de 3\4 dias, como o Atlântico se deve tornar mais ciclónico, novamente
Tudo isto leva a que a probabilidade de precipitação, anteriormente calculada em 10\20% para os dias 25-28 de fevereiro, e mesmo no início de Março, tenha vindo a subir, e, segundo a última previsão EPS\ECMWF já se situe nos 75%. Ao mesmo tempo, outros modelos, como o AIFS ou Graphcast, modelos baseados em Machine Learning, também mostram o mesmo – regresso da chuva. Com dois tipos de modelos diferentes (modelos físicos e modelos baseados em padrões atmosféricos\IA) a preverem o mesmo, esta previsão ganha força
Agora resta responder à pergunta: Vai chover novamente como no início de fevereiro? A resposta é difícil, mas, felizmente, para já não há essa indicação. No início do mês tivemos um bloqueio em latitudes altas, e um padrão atmosférico extremamente condutivo a chuvas persistentes e intensas, com um “comboio de depressões” à nossa latitude, que trouxe 3 a 4X a precipitação normal do mês a alguns locais, em apenas 15 dias. Contudo, com o contexto atual, não é preciso chover tanto para nos causar problemas, como é óbvio

RESUMO DE PREVISÃO ATUALIZADA E RISCO DE CHEIAS
- Chuva persiste até dia 19, em redução nesse dia, podendo, para a tarde, o sol surgir
- Dias 20 a 23 serão secos, com probabilidade > 90%, e com tendência para temperaturas superiores a 20ºC, até mesmo mais perto dos 25ºC, localmente
- A partir de dia 24 a probabilidade de chuva aumenta, e até fim do mês é provável a passagem de 2\3 frentes, com mais impacto a Norte
- Há incerteza depois disso, com vários fatores que irão determinar como tudo irá evoluir, mas o risco de cheias deve voltar a aumentar, pois uma paragem da chuva por completo não parece provável – pelo menos chuva ocasional\moderada deve ocorrer
É importante monitorizar vários fatores atmosféricos que podem trazer mudanças nas previsões, e verificar como irão evoluir (ler informação detalhada abaixo) – pois não descartamos, efetivamente, uma descida mais pronunciada do jato polar, e consequentes chuvas mais abundantes, novamente
Os Açores devem, também, ser afetados por precipitação intensa – eventualmente até excessiva – pelo que estaremos também atentos a este arquipélago. Para já apenas a Madeira parece passar ao lado desta situação – com efeito anticiclónico mais evidente

ANÁLISE DOS PADRÕES ATMOSFÉRICOS E RISCO DE CHEIAS
A precipitação deve regressar – ou, melhor dizendo, é quase certo que regresse, após uma pausa de 4-5 dias entre 19\20 e 23\24 de fevereiro. Contudo, para já, é difícil de determinar que quantidades podem cair. Felizmente, a 15 dias de distância – até 3\4 de março – as médias dos ensembles não mostram quantidades de chuva excessivas
Ainda assim importa perceber como tudo pode evoluir, e o que leva a esta mudança súbita (novamente) nas previsões, quando tudo parecia encaminhado para um bloqueio anticiclónico de pelo menos 8-10 dias. A resposta? Vórtice polar + momento angular atmosférico + MJO
Começamos pelo vórtice polar, que está a enfraquecer, e isso está a ser “transmitido” imediatamente para a troposfera, a camada baixa da atmosfera – levando a um padrão com o jato mais fraco, e mais ondulado, permitindo variabilidade maior, e uma redução da atividade ciclónico = maior estabilidade. Contudo, e após dias 25-27 deverá ocorrer um “rebound”, com o vórtice polar a reorganizar-se, e isso pode levar ao aumento do momento angular atmosférico – a “rotação” da atmosfera de oeste para leste
Normalmente esta intensificação do jato, quando combinada com outros fatores favoráveis, traduz-se em precipitações intensas em Portugal, e mau tempo, com fácil organização de sistemas depressionários em latitudes mais baixas, ciclogéneses, e fluxo zonal intenso. A peça “chave” aqui será de que forma o vórtice polar se reorganiza no fim do mês – determinando qual a orientação do jato, e o risco de chuvas mais intensas para Portugal

Se há coisa que os modelos de previsão têm dificuldades em perceber é mesmo as interações das variadas conexões, e as transições de padrões atmosféricos – daí haver mudanças rápidas nas previsões, por vezes do 8 ao 80 em poucos dias. É assim essencial ir monitorizando dia a dia as atualizações dos modelos, e perceber se notamos um sinal mais forte para a descida do jato polar
Lembramos que há poucos dias o modelo líder nas previsões a nível global (o IFS, do Centro Europeu de Previsões), mostrava até 26ºC no dia 27 de fevereiro, por exemplo, enquanto neste momento já mostra fresco e chuva! Isso demonstra um sinal evidente de que o modelo está a “captar” um sinal para uma mudança de padrão para algo mais chuvoso, mas ainda sem perceber exatamente como se irá processar
E isso tem muito a ver com as previsões difíceis no posicionamento do vórtice polar após a recuperação do mesmo, no início de março – caso se posicione mais perto da Gronelândia\Canadá o mais provável é chuva generalizada, prolongada e intensa – possivelmente levando a problemas mais graves com as cheias. Caso surja mais centrado, na sua posição normal, teremos provavelmente chuva, mas dentro do normal – mais a Norte, menos a Sul
Ainda existe uma outra possibilidade – mais baixa – que seria o vórtice polar deslocar-se para a Sibéria, aumentando as hipóteses de alguma entrada fria. Este ano, no entanto, está claramente difícil isso acontecer (frio + tempo seco), e tem sido sempre favorecida a chuva e jato polar orientado de forma clara de Oeste para leste. Se assim for podemos estar perante um novo período bem chuvoso no fim de fevereiro, e especialmente durante março – como aliás já tínhamos referido

MJO E A INFLUÊNCIA QUE PODE TER – FASES 4-6
As fases 4 a 6 da oscilação de Madden-Julian, com a convecção tropical a centrar-se no Índico – Pacífico Ocidental, tendem a ser favoráveis ao surgimento de uma crista no Pacífico Leste, e ao cavamento de depressões no Atlântico – combinando-se assim com os fatores anteriormente referidos – reintensificação do vórtice polar e aumento do momento angular atmosférico
Assim a probabilidade de chuva em Portugal torna-se maior, independentemente da posição final do vórtice “deslocado”, pois a onda planetária criada por este fenómeno tende a permitir que as trajetórias das baixas pressões baixem em latitude
Obviamente se às fases 4-6 da MJO combinarmos um vórtice polar favorável, conforme referido anteriormente, aí podemos ter uma situação de “setup” mais perfeito para chuvas mais intensas, frequentes, e generalizadas a todo o país – ao invés de algo mais ocasional, e mais a Norte. É algo que teremos de ir monitorizando
Terminamos assim esta análise com um ponto chave – a chuva vai, quase certamente, continuar – o que é normal, pois estamos no Inverno. O contexto, no entanto, é importante, e mesmo chuva normal, neste momento, já pode trazer problemas. Há um risco moderado de surgir chuva mais intensa, contudo, e mesmo persistente e generalizada a todo o país, que estaremos a monitorizar. Pedimos, assim, que se mantenha atento à atualização da informação

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2 comentários
Muito interessante toda a informação prestada. Desejo continuar a receber informação. Não encontrei o sinal de adesão.
Gostei é sempre bom estar bem informada Obrigada