NOVO PERÍODO CICLÓNICO EM MARÇO?
Faltam 15 dias para o fim do inverno climático, e, neste momento, já temos muita gente a perguntar como será o tempo na Primavera – e, de facto, este ano é muito importante esta previsão, tendo em conta a situação que se vive no nosso território
Depois de cerca de 40 dias com nuvens e chuva, de forma persistente (não choveu todos os dias, mas quase!) há agora uma mudança de tempo significativa na segunda quinzena de fevereiro – com a subida do anticiclone para a posição mais normal, embora muito móvel, permitindo que haja, ainda, condições para alguma precipitação ocasional (como ocorrerá, por exemplo, já neste domingo)
Os dias de mau tempo, com significativas tempestades à nossa latitude, contudo, devem ter ficado (maioritariamente) para trás (ainda que, por exemplo, para dias 18\19 estejamos a analisar uma depressão que se deverá aproximar), surgindo agora dias de tempo mais seco a Sul, e húmidos e com chuvisco a Norte, com transição para algo potencialmente mais seco durante uns dias, após dia 20, mesmo nessa região – podendo haver alguns dias de sol mais generalizado
A pergunta que se impõe agora é: Teremos uma situação de bom tempo mais persistente, ou apenas algo transitório, que nos pode levar a uma nova mudança para o final do mês, e um período, novamente, muito instável, com forte atividade ciclónica, e com risco de tempestades? Vamos ver… É certamente uma possibilidade, que analisamos neste artigo – com vários fatores em jogo, difíceis de prever

Se, por um lado, o regime NAO+ se parece instalar de forma mais significativa, com a corrente de jato muito mais a Norte, “atirando” com as áreas de baixa pressão para o Norte da Europa, por outro lado parece haver algumas teleconexões que podem ser precedentes de uma nova viragem no regime de circulação, eventualmente quebrando as altas pressões, e levando a que o Atlântico volte a afetar-nos com mais depressões, mais chuva\vento e agitação marítima
Uma delas é o vórtice polar – significativamente mais fraco que a média climática para esta altura do ano, e com muita instabilidade nas previsões. Na atualização de hoje do GEFS há 10% de probabilidade de surgimento de um SSW no prazo de 15 dias – o que significa que os ventos estratosféricos podiam reverter (circular de leste para oeste), eventualmente propagando-se para a troposfera – a camada mais baixa da atmosfera, onde circulam o jato polar que “conduz” as depressões. Isso pode levar a uma maior probabilidade de surgimento de ar frio (Ártico) em latitudes médias e maiores ondulações do “jetstream”

Embora os modelos de previsão sub-sazonal mostrem um período seco mais prolongado, não nos parece que esse cenário esteja assegurado – se formos verificar a mais de 15 dias a fiabilidade dos modelos de previsão é notório que, francamente, têm estado péssimos neste inverno – e uma das provas é mesmo a segunda quinzena de fevereiro – que era vista como significativamente chuvosa nos modelos, e agora sabemos que não será assim
Além do vórtice polar em enfraquecimento (instável) há a transição da MJO (Oscilação de Madden-Julian) das fases 3\4 para 6\7\8 gradualmente, devendo, para o final do mês, encontrar-se precisamente, nas fases 7\8 – normalmente precedentes de um padrão de bloqueio, sempre difícil de prever com antecedência – mas já com alguns sinais de mudança no modelo ECMWF depois da primeira semana de Março – e com ténues sinais no modelo CFSv2
Esperemos que os modelos estejam corretos, e que o anticiclone resista a esta nova (provável) investida do Atlântico – que também começa a perder “energia” gradualmente, uma vez que estamos a chegar à Primavera, altura em que, normalmente, se começam a criar condições para surgimento de depressões isoladas (precisamente porque o anticiclone ganha força, e as depressões perdem, ficando presas na alta pressão). Essas bolsas de ar frio tendem a criar condições para instabilidade
Será assim uma “batalha” de regimes atmosféricos, como, aliás, temos tido ao longo deste inverno, quase sempre com o Atlântico a vencer, daí a chuva estar a ser excessiva ao longo dos últimos meses. Se o jato polar assumir um comportamento com componente leste, e o Atlântico continuar com alguma energia, poderá haver um choque de massas de ar Atlântico, e ar polar, levando a novas ciclogéneses que, inevitavelmente, levariam a uma descida do jato polar, e mais chuva em Março

COMO PODERÁ, ENTÃO, SER A PRIMAVERA?
De uma forma resumida, e certamente com necessidade de ir atualizando as previsões, estas são as primeiras “ideias” para a Primavera
- Março com previsão mais difícil – risco de “colapso” do anticiclone ao longo da primeira quinzena, com muita chuva a surgir gradualmente, de forma generalizada em Portugal, eventualmente com mais depressões com algum impacto. Na segunda quinzena essas condições, especialmente para a última semana, podem voltar a diminuir
- Abril pode fazer jus ao ditado “Abril, águas mil” contudo com regimes de chuva menos persistentes\instabilidade – aguaceiros\trovoada – e não tanto com chuva tão contínua. Há forte probabilidade de entradas frias ainda significativas, tardias, com episódios de queda de neve, não descartando algum episódio de neve a cotas médias
- Maio com menos chuva, naturalmente, mas este ano com tendência mais forte para instabilidade – um Maio com trovoadas está “em cima da mesa” nas previsões
Repetimos que previsões a esta distância são MUITO falíveis – e são apenas tendências, que baseamos em modelos numéricos de previsão, teleconexões, analogias e até mesmo conhecimento empírico. Aconselhamos a acompanhar as previsões a longo das próximas semanas\meses, pois iremos afinar os detalhes de previsão! Para já aproveitemos estes 10-15 dias menos instáveis, e esperar que as previsões mais “pessimistas” não se confirmem

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2 comentários
Continuação de bom e óptimo trabalho 🛠️.
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