A previsão do tempo em fevereiro de 2026 é uma das mais complicadas que já elaborámos, por variadas razões – primeiramente porque, de facto, não está fácil perceber todos os “drivers” que afetam as correntes atmosféricas, e de que forma poderá evoluir, e também porque sabemos o risco elevadíssimo de cheias que temos, de momento, além do stress nas populações depois da maior tempestade nos registos recentes (Kristin)
Com danos nos milhões de euros (potencialmente centenas ou milhares de milhões), populações desesperadas e o tempo a manter-se instável, qualquer previsão de tempestade vai provocar ainda mais stress e ansiedade, que não são benéficos, por isso é importante antecipar esse risco, caso venha a existir, mas não olhar a modelos a 7-15 dias e assumir como certo algo que por vezes só a 1\2 dias se pode confirmar
Ao elaborar uma previsão neste contexto é necessário responsabilidade, evitando certezas que não existem – como falar em tempestades futuras, sem qualquer previsão das mesmas – mas é necessário também falar sobre os riscos associados à precipitação intensa, e outros fenómenos – de forma clara, mas destacando também as incertezas ainda existentes
Assim, e antes de avançarmos para a previsão mais completa, deixamos, desde já, um resumo daquilo que poderá ser fevereiro – continue a ler para perceber porque razão é necessário muita cautela a interpretar as previsões para este mês, e o que pode realmente acontecer

RESUMO DO TEMPO EM FEVEREIRO EM PORTUGAL CONTINENTAL
- A primeira semana de fevereiro tem já uma previsão bastante definida em termos gerais, mas com incertezas em pormenores que fazem diferença – muita chuva, períodos mais ventosos, e instabilidade (por vezes com trovoadas). Contudo, e para já, não há sinal para tempestades fora do vulgar em Portugal, com esses pequenos pormenores ainda incertos, contudo
- A segunda semana de fevereiro deve trazer algo mais variável – com o anticiclone no Atlântico a recuperar um pouco, e o surgimento tímido da dorsal africana, ocasionalmente – deve continuar a chover, mas de forma mais espaçada, com vento ocasional, e humidade – com as temperaturas, tendencialmente, acima da média
- A segunda quinzena de fevereiro será interessante para verificar a fiabilidade de previsões a médio e longo prazo – se formos pelas previsões atuais a nível sub-sazonal dos vários modelos, como ECMWF e CFS verificamos uma tendência para tempo muito chuvoso – com bloqueio em latitudes altas, e depressões frequentes à nossa latitude no Atlântico – contudo as várias teleconexões não mostram isso de forma tão clara – as temperaturas tendem a ser amenas, mas com períodos ocasionais de frio intenso
- Diríamos mais uma vez que a segunda quinzena, em termos de precipitação, é um “8 ou 80” – e este ano tem inclinado sempre mais para o “80”. Devemos dizer que uma situação em que o Atlântico volta a vencer um possível bloqueio poderia vir a ser trágica, dada a saturação dos solos, e a capacidade de encaixe das barragens (quase inexistente…) por isso resta-nos esperar que o bloqueio, desta vez, se efetive
- O Atlântico começará por enviar ondas muito significativas para Portugal Continental na primeira semana, algo que, na segunda semana reduz significativamente (em princípio). Na segunda quinzena a mesma incerteza associada aos outros fenómenos meteorológicos verifica-se também no mar – possivelmente algo mais calmo a Sul, mais agitado a Norte, contudo (por vezes)

Se em Portugal Continental é uma previsão de dificuldade elevada, nos Açores é ainda mais difícil, com as posições de anticiclone e corrente de jato a serem ainda mais determinantes, dada a localização geográfica do arquipélago. Sem certezas, mas pode ser um mês tempestuoso, com poucos períodos de verdadeira “calma”. Já na Madeira, depois de um início mais húmido, talvez a estabilidade domine, no geral
- Assim, de forma resumida, prevemos um mês chuvoso no arquipélago dos Açores, com dias mais frios, inicialmente, e mais ameno depois – por vezes tropical
- Bastante ventoso, com influência frequente de Oeste, inicialmente, possivelmente mais de Sudoeste ao longo do mês. Situações frequentes de mar muito agitado
- Segunda quinzena com mais incerteza na previsão, mas tendencialmente a favorecer episódios de precipitação, em especial nas Ilhas Ocidentais e Centrais
- Na Madeira um mês (geralmente) estável, depois do início mais húmido, e mais ventoso. Não descartamos períodos de vento mais intenso, de Norte, mas transitórios. Não será muito diferente do que temos tido, com temperaturas dentro do normal, ora ligeiramente acima, ora abaixo – mas nada muito significativo (talvez um final de mês mais quente)

HAVERÁ RAZÕES PARA ALARME?
Nos últimos dias, depois do desastre provocado pela depressão Kristin, estamos a ser bombardeados com notícias, seja na TV, ou na Internet, a dar conta de novas tempestades a caminho de Portugal, que não especificam intensidade – o que causa, como já referido, ansiedade nas populações
É importante, contudo, perceber que a depressão Kristin foi um fenómeno extremo caracterizado por ventos em altitude muito fortes a descerem até à superfície, o que lhe permitiu atingir os ventos acima de 200-250km/h que infelizmente devastaram largas áreas. Este fenómeno denominado “sting-jet” é raro às nossas latitudes, e, algo da mesma intensidade, ou até próximo, é improvável
É importante separar “depressão” de “tempestade” porque depressões haverá muitas, já tempestades? Provavelmente alguns temporais de inverno, que noutros anos seriam absolutamente normais, e até seriam muito menos noticiados. Este ano, e neste contexto, acabam por acarretar mais riscos, dada a fragilização de solos, estruturas, entre outros fatores. Mas, ainda assim, acabam por ser normais do ponto de vista meteorológico
É isso que é, então, importante transmitir: Teremos mais depressões, possivelmente depressões nomeadas, não descartando até já no início do mês (dia 2) a depressão Leonardo (?), mas sendo situações muito mais normais, como aliás até agora tínhamos tido, antes da Kristin.
É importante também transmitir que a chuva continua a ser um grave problema, e quanto mais tempo continuar a chover, maior será o risco – a primeira semana trará a chuva média de todo o mês se as previsões atuais se confirmarem, por isso seria importante que se verificasse uma tendência para tempo mais seco no resto do mês – algo possível, gradualmente, mas muito incerto

Assim, e respondendo à pergunta: Há razões para alarme, infelizmente, devido às cheias e inundações prováveis nas próximas semanas. Mas, por outro lado, e a nosso ver, para já, não há razão para alarme em relação a tempestades de vento. Na primeira semana podem ocorrer situações pontuais mais intensas, mas nada comparável com o que se verificou no dia 28 de janeiro
Estas situações pontuais podem causar estragos, ainda assim, por isso, sem alarme, mas com prevenção e precaução – árvores que não caíram podem ter ficado mais fragilizadas, algumas estruturas estão “por um fio”, os solos estão muito instáveis, e um vento de 70km/h, banal em outras ocasiões, pode causar mais risco nas zonas mais sensíveis
O maior risco, ainda assim, reside mesmo nas bacias hidrográficas do Norte e Centro do território, com destaque para Douro, Vouga, Mondego e Tejo, que durante a primeira semana de fevereiro podem já registar cheias muito significativas, e posteriormente, caso a chuva não páre, podem registar algo ainda mais significativo – que podia rivalizar ou superar 2001 – razão pela qual já referimos que, infelizmente, continuam a haver condições para as maiores cheias dos últimos 25 anos

O REGIME ATMOSFÉRICO, E A PARTE MAIS “TÉCNICA” – PORQUE É QUE FEVEREIRO É TÃO INCERTO?
Já referimos que a previsão para fevereiro tem muita incerteza – o que também é natural em qualquer previsão a longo prazo – contudo, para este mês em específico há alguns fatores de imprevisibilidade adicional, nomeadamente a transição já efetuada para a fase 8 da MJO, com alguma amplitude provável, e um possível “SSW” em breve
Começamos pela MJO (oscilação de Madden-Julian), uma oscilação intra-sazonal dos ventos e convecção tropical, que se propaga de oeste para leste, e que pode ser determinante para o tempo este mês – com as fases atuais (convecção no pacífico oeste) a favorecerem cenários de bloqueio – com um “lag” de alguns dias
O que quer isto dizer? Depois de se ter verificado esta fase da MJO, pode demorar 10 a 15 dias a notarmos as alterações (o tempo que demoramos a sentir os efeitos das ondas atmosféricas nas latitudes médias). Contudo, estas fases referidas tipicamente levam a que haja depressões na Costa OESTE dos EUA, e uma crista anticiclónica na Costa Leste, oposto do que temos atualmente
Se vamos ter uma crista Atlântica, um padrão de NAO+, mais zonal (o que daria menos chuvas, ou pelo menos menos significativas) ou se, simplesmente, o Atlântico volta a vencer o bloqueio e nos traz ainda mais chuva, é a maior incerteza para este mês – e irá definir muito do que podemos esperar. O possível aquecimento súbito da estratosfera, com divisão do vórtice polar, que alguns modelos, entre os quais EPS e GEFS sugerem, podem ser determinantes, assim como o momento angular – e a intensidade do jetstream
Enfim, são tudo fatores de imprevisibilidade que nos dificultam o trabalho de previsão: se houver um aquecimento estratosférico súbito (SSW) ou flutuações no momento angular da atmosfera, o padrão esperado pode mudar, tornando difícil prever exatamente onde (e quando…) os bloqueios ocorrerão – levando novamente ao tal “8 ou 80” já referido – esperando, claro, que nesta ocasião não nos leve a novo período tempestuoso em Portugal Continental, que, infelizmente, aí sim seria catastrófico (na segunda quinzena do mês)

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7 comentários
Bom trabalho 🛠️ Cumprimentos.
Obrigado!
Qual é a a causa do possível aquecimento súbito da estratosfera e da divisão do vórtice polar?
No fundo é algo normal, e acontece muitas vezes (nao todos os anos, mas quase)
Contudo este ano a causa podemos dizer que é um bloqueio atípico e de propagação constante de calor para o Ártico, o que pode estar ligado ao aquecimento global
Gosto de ler as vossas previsões. Sempre adorei meteorologia.. bom trabalho e obrigada pelas informações
Muito obrigado pelo feedback! Ainda bem que gosta de ler as previsões, tentamos que sejam o mais úteis possível! Adoro meteorologia desde que me lembro, também! Bom fim-de-semana!
Vale a pena fazer uma escapadinha ao Porto entre 22 e 25 de Fevereiro? O risco de mau tempo é muito grande?