Portugal Continental tem tido um Inverno bem “regado”, e com neve como não víamos há uns anos, e, agora, o risco de cheias começa a aumentar a cada dia de chuva que passa – sendo que, com as últimas previsões, esse risco se vai tornar muito elevado no final de janeiro, e, caso nada mude, durante o mês de fevereiro poderemos assistir às maiores cheias dos últimos 25 anos
Este número (25 anos) não é por acaso – se recuarmos exatamente 25 anos temos… 2001. Nesse ano, como muitos se recordarão, choveu praticamente de forma ininterrupta durante 2 a 3 meses, especialmente no Norte do país, levando a grandes cheias, e a um acontecimento trágico como consequência (a queda da ponte de Entre-os-Rios)
Estes anos extremamente chuvosos acabam por ser cíclicos – ora temos um período mais seco, ora temos um ano mais chuvoso, e normalmente temos capacidade de encaixe nas albufeiras para que não haja problemas de maior. Contudo, quando temos um período mais prolongado de precipitação, depois de um ano chuvoso como foi 2025, a situação torna-se mais complicada – e, de momento, o risco de cheia é muito evidente em várias bacias hidrográficas
Em 2018 tivemos uma situação semelhante de precipitação, entre finais de fevereiro e abril, contudo, nessa ocasião, foi bem-vinda – vínhamos da grande seca de 2017. No caso de 2026 a chuva já começa a ser excessiva. As sucessivas depressões previstas, com componente ocasional de Sudoeste e elevado conteúdo de água precipitável terão de ser analisadas dia a dia, assim como competirá às autoridades tentar gerir o melhor possível o armazenamento nas albufeiras para evitar males maiores
Se juntarmos à chuva o degelo de mais de 1 metro de neve na Cordilheira Central Portuguesa e nas montanhas do Norte, e levarmos em conta que o Inverno ainda vai a meio, é difícil de imaginar que não tenhamos um cenário mais grave – continue a ler para a previsão geral para as próximas semanas

RISCO DE CHEIAS SEVERAS – ONDE VAI CHOVER MAIS?
O fluxo previsto é claro, e não deve levar a grandes dúvidas na previsão – é nas regiões Norte e Centro que mais choverá no final de janeiro e início de fevereiro, dado o fluxo predominante de Oeste, com várias depressões (algumas nomeações possíveis, sendo que o próximo nome na lista depois da Ingrid é Joseph…)
Nas montanhas do Norte e Centro os modelos baseados no ECMWF, incluindo o IFS-HRES e o AIFS mostram até 600-800l\m2 até 7 de fevereiro, sendo que nas regiões mais baixas os acumulados variam entre 200 a 450l\m2 no mesmo período. Na região Sul há variabilidade nas previsões, mas entre os 100 a 200l\m2 parece ser um consenso razoável
Por vezes ficamos “de pé atrás” perante estas previsões do modelo Europeu, pois tende a exagerar a precipitação, principalmente no médio prazo – no entanto, neste caso, há concordância dos diversos modelos, com valores de precipitação semelhante previstos no modelo americano GFS, por exemplo, além de concordância dos ensembles (variadas previsões com dados “perturbados” para levar em conta a incerteza). Por essa razão a situação é, claramente, muito provável

Nos piores cenários podem cair mais de 500l\m2 até dia 7 de fevereiro, chuva que será bem distribuída ao longo dos dias, mas também terá fortes picos de intensidade, conforme é até visível no gráfico acima – com algumas “escadas” nas linhas, sinal de algum período de precipitação mais intensa (como, de resto, se verifica já no dia 26 de janeiro)
Além da chuva também prevemos queda de neve em vários períodos, desde já um novo nevão, menos extenso e em altitudes um pouco mais altas que o provocado pela tempestade INGRID, mas ainda assim notável no dia 27 de janeiro (800\1000 metros de altitude), podendo seguir-se outra situação mesmo no final do mês. Esta neve acaba por continuar a acumular nas Serras do Maciço Central (tanto do lado de Portugal como Espanha) e coloca um risco a médio prazo, assim que derreter
De referir que, de momento, o que temos de mais concreto é até final do mês – e a chuva será efetivamente muita. Para a primeira semana de fevereiro, e dado faltarem 7 dias, temos para já uma tendência chuvosa preocupante, mas ainda não é confirmado. Para o bem de toda a população esperamos que não se confirme, e, ainda mais, que conduza a algo menos chuvoso em fevereiro – pois, efetivamente, já chega de chuva – se em outros anos queixamos da falta dele, este ano “rezamos” para que páre

QUAL O ESTADO DAS ALBUFEIRAS, E ONDE PODERÁ SURGIR O MAIOR RISCO?
Segundo dados da APA (Agência Portuguesa do Ambiente) o armazenamento nas albufeiras está, na maioria, acima da média para o período em questão, sendo que há várias barragens perto das cotas máximas. Por essa razão estão a ser efetuadas descargas preventivas de Norte a Sul, para acomodar a precipitação prevista
Ao que podemos verificar tanto nas Bacias Hidrográficas mais a Norte, como no Douro, por exemplo, como no Centro e Centro\Sul há muita água – Vouga, Mondego, Tejo… Nestas bacias hidrográficas, dadas as previsões de muita chuva, concentra-se risco elevado de cheias nas próximas semanas
Aliado à precipitação intensa, e ao degelo já referido, há ainda um outro fator a ter em conta – os solos saturados, incapazes de reter mais precipitação, que escorre rapidamente para as albufeiras – em outros anos seria benéfico, neste momento não

Além do risco de cheias, que poderão afetar de forma significativa as zonas baixas e planícies do Douro, Mondego, Tejo, entre outros (a avaliar posteriormente) teremos, claro, o risco de derrocadas, que podem comprometer algumas estruturas, e criar risco para as populações
Pontualmente, nos períodos de maior precipitação, surgirá o risco de inundação rápida, pelo que deverá sempre ouvir os conselhos das autoridades. Além disso poderá ler o nosso “guia” que o ajudará a perceber o risco da sua região, e como deverá prevenir-se
Em resumo: Vai chover muito, os solos estão saturados, e as barragens “não aguentam mais” – será difícil que não ocorram grandes cheias, pelo que será essencial ir monitorizando e prevenindo, dentro do possível. Terminamos referindo que, nas bacias hidrográficas mais a Sul, o risco é menos evidente, dada a menos precipitação prevista, mas é uma situação a acompanhar

Esta situação meteorológica leva a que possamos afirmar que no próximo Verão não haverá falta de água, mas não muda em nada a tendência natural – em Portugal o mais provável é termos cada vez mais secas, e mais prolongadas. No entanto os extremos são notórios, e por vezes anos como este podem surgir… Como está a ser por aí? Preocupado com a situação que se pode desenvolver? Participe nos comentários abaixo!
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